Lucila
O refeitório do Instituto Mãos Ativas estava praticamente deserto a essa hora. As crianças almoçavam bem mais cedo, e logo em seguida o pessoal da limpeza reorganizava o lugar para que ficasse limpo e arrumado para o lanche da tarde, por volta das quatro da tarde.
Eric estava falando de sua carreira como ela pediu, e parecia empolgado com o trabalho no Instituto.
Achou um pouco estranho que ele enviasse uma mensagem no seu celular privado, em vez de falar com ela por email profissional como todos os outros que faziam parte do quadro de funcionários.
Mas aparentemente, ele só queria conversar e entender o que ela esperava para os novos projetos que o envolviam. Eric parecia muito dinâmico e gostava das pessoas, da conversa, do contato.
Fazia uma semana que ele estava trabalhando com o pessoal, e já tinha conquistado a todos, até os mais seletos em relação a proximidade, gostava muito dele. Sem contar as crianças.
Eric tinha um talento natural para adentrar a mente e o coração das crianças. Elas confiavam nele prontamente, gostavam das atividades e das sessões que ele desenvolvia, e isso a fez pensar que talvez fosse uma boa ideia tentar trazer Olavo para se conhecerem.
- E você, Lucila? Eu soube pelo pessoal que você se formou em artes plásticas e também em terapia ocupacional. Já pensou em publicar algum trabalho seu? Seria um achado.
Lucila sorriu suavemente, abandonando sua salada.
“Não, é claro que não. – seu sorriso se alargou. – Eu nunca pensei nisso, não sou uma acadêmica como você Sr. DelaVille. Tudo pelo qual trabalho, desenvolvo aqui, e isso é umas das coisas que eu mais priorizo. Incorporar novas estratégias e métodos com as nossas crianças, para mim, é tudo o que eu preciso no momento.”
- Isso é louvável de sua parte, sabia? – ele bebeu um gole de água. – Antes de vir para cá eu já conhecia o seu trabalho, mas agora que estou completamente imerso no que você criou, eu te admiro cada vez mais.
Seus olhares se encontraram, não havia bajulação ali, era só sincero, de forma simples e direta. Mesmo assim, ela se sentiu tensa de repente, nunca gostou de muita atenção, e por esse motivo evitava muitos eventos na qual deveria palestrar.
Ela sempre escolheu com cuidado onde e quando aparecer, mesmo que fosse em sua área.
- Eu estava pensando sobre a próxima abordagem com o grupo C. – ele disse, se referindo às crianças com traumas e dificuldade maior em comunicação e aprendizado. – Há um parque novo na cidade, e eu pensei em incorporar todo esse contexto do sonho lúdico e divertido na próxima dinâmica.
Os olhos dela se acenderam. Nunca tinha pensado em usar algo tão diferente como uma base para criar uma dinâmica de imersão.
“É uma ideia excelente! Acho que será uma abordagem totalmente diferente do que já tentamos. E o fato de usar algo que inspira a todos a se soltar e se divertir, pode funcionar como um mecanismo de abertura.”
- Foi o que pensei. – Eric sorriu largamente. – Então, o que acha de irmos ao parque na próxima sexta?
Surpresa com a proposta inusitada, ela ficou sem palavras por alguns instantes.
Vitório se inclinou, e capturou os lábios de Lucila com posse avassaladora, ignorando completamente a presença de Eric. Ela tentou se soltar, se sentia exposta, intimidada pela forma em que ele mostrava seu domínio na frente de outras pessoas. Mas ele não deixou, seu braço a içou para cima, fazendo seu corpo ficar de pé, rente ao dele.
Só então ele interrompeu o beijo, a mantendo colada a parede de músculos. Lucila prendeu a respiração, até o cheiro dele parecia mais forte, mais selvagem.
- Estava por aqui e decidi passar e te entregar um presentinho. – ele disse num tom intimista, que arrepiou sua espinha.
Mortificada de vergonha, ela tentou se afastar de novo, e se recompor. Mas então ele falou de novo, se dirigindo a Eric.
- Encontrei a senhorita Fontes lá fora, ela estava procurando por você, doutor. – o tom de Vitório era grave, e ao mesmo tempo irônico e provocativo. Algo que ela nunca tinha ouvido antes, nunca pensou que ele pudesse ser assim.
Ele que sempre foi tão comedido e inexpressivo diante de tudo.
- Eu.. eu não...
- Ora, doutor.... Não vai fingir que não conhece essa moça, não é? – Vitório zombou, apertando mais a cintura de Lucila, e se voltando para ela agora. – Acho melhor dar privacidade aos pombinhos, querida. Vamos para sua sala, não posso te entregar o seu “presente” aqui.
Eric se levantou, a moça se aproximou com os olhos marejados. E a última coisa que Lucila viu, antes de ser conduzida firmemente por Vitório para fora do refeitório, foi o olhar irritado do médico para a garota que tentava falar com ele.

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