(Ponto de Vista de Kennedy)
Lá de cima, Ryker ainda resmungou alguma coisa, porém não desceu atrás de mim. Provavelmente sabia que eu estava certa, ou simplesmente concordava. Mesmo assim, eu precisava me concentrar, porque se começasse a pensar no quanto o jeito protetor dele era sexy, ou em como o lobo ficou colado em mim durante todo o trajeto pela floresta, com aquela cauda roçando de leve na minha perna, eu iria acabar completamente distraída.
Fui descendo pela encosta daquele desfiladeiro o mais rápido que dava. Conforme avançava, ficava cada vez mais claro que aquilo era bem mais fundo do que eu tinha pensado e, sendo sincera comigo mesma, Ryker provavelmente tinha razão quando disse que eu devia olhar melhor antes de sair me jogando. No entanto, não dava para parar agora. Ela precisava de ajuda e eu era a única que podia ficar ali embaixo sem correr risco.
Da borda, quase não consegui distinguir o corpinho pequeno dela lá embaixo. Só me restava torcer para que Emily fosse como a maioria das crianças lobisomens, com aquela resistência absurda que eles têm.
Aquilo me fez lembrar de quando eu brincava com Jeremiah e os outros na infância. Eu sempre ficava morrendo de inveja, porque eles quase nunca se machucavam e, quando acontecia, saravam em questão de horas ou poucos dias.
Já comigo… Uma vez rolei morro abaixo e terminei com o braço quebrado. Fiquei meses engessada... Foi torturante, embora o lado bom tenha sido aprender a usar a mão esquerda e acabar me tornando ambidestra.
— Em, querida, você consegue me ouvir? — Chamei enquanto me aproximava do fundo.
Eu precisava vê-la se mexer, precisava saber que ela estava consciente, qualquer sinal de vida. Ryker disse que conseguia ouvir o coração dela, mas aquilo simplesmente não era suficiente para mim. Parecia que eu estava me movendo dentro de uma superfície grudenta, como se meu corpo se recusasse a ir mais rápido. O pânico era quase físico. Eu só queria chegar até ela, e estava lutando com tudo que tinha para acelerar.
'Kennedy, o que está acontecendo? Suas emoções estão à flor da pele. Ela está bem?' A voz de Ryker ecoou pelo vínculo.
— Eu... Eu não sei… — Um soluço escapou da minha garganta. Eu sabia que ele conseguiria me ouvir mesmo sem eu gritar. — Ryker, e se já for tarde demais? Ela está completamente parada. E se eu não conseguir fazer nada aqui embaixo? Vocês não podem descer, o cheiro está pesado demais. Ela passou esmagando essas flores roxas pelo caminho todo. Dá para sentir o aroma delas no ar.
'A médica da alcateia acabou de chegar. Vá até ela com cuidado e nos conte o que está vendo aí.'
Respirei fundo, forcei minhas pernas a sair daquela sensação de areia movediça e finalmente corri até ela.
— Em? Emily? Ei, querida... Preciso que abra os olhos para mim, está bem? Vou dar uma olhada rápida em você para ver se consigo te tirar daqui. Você consegue me dizer se alguma coisa dói?
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Observei o corpo dela com atenção. Nenhum dos membros estava em ângulos estranhos, o que já era um bom sinal. "Talvez não houvesse nenhuma fratura grave…"
— Ela está deitada de costas. Tem um corte razoavelmente grande na testa. Sangrou bastante, mas parece que já estancou. O corpo dela parece inteiro fora isso... Mas tenho medo de movê-la. Não consigo ver se tem algo errado nas costas.
'Kennedy, querida.' A voz da Dra. Bradshaw chegou pelo vínculo. 'Cruze os braços dela sobre o peito e vire o corpo de lado, deixando a cabeça afastada do lado do ferimento. Faça isso devagar e tente não mexer muito na cabeça dela. A gente só precisa ter certeza de que não tem nada atravessado no corpo.'
A Dra. Bradshaw era a médica principal da alcateia, e nós duas tínhamos nos aproximado bastante desde minha fase "picolé" no inverno passado.
Fiz exatamente o que ela pediu. Sentei ao lado esquerdo de Emily e a virei cuidadosamente na minha direção, assim ela não precisaria ter mais contato com as flores e os caules de acônito do que já tinha tido.
— Ei, querida... Vou apenas dar uma conferida, ok? Quero ter certeza de que é seguro te tirar daqui.
— Ah…
Um gemidinho fraco escapou da boca dela e eu congelei no mesmo instante.
— Não. Só me digam o que eu preciso fazer. E antes que algum Alfa ou Gama comece a rosnar dizendo que estou sendo teimosa… Não é isso, eu juro. O cheiro aqui embaixo está muito forte. Parece ácido misturado com terra podre. Se já está me incomodando, imagina o que não faria com vocês. Então, por favor, só me orientem.
'Tudo bem.' Bennet resmungou, e consegui ver o olhar desaprovador de Ryker na borda lá em cima.
Eles me passaram um arnês improvisado e foram me explicando, passo a passo, como eu deveria colocar. Dali de baixo, eu conseguia ver Ryker e Bennet andando de um lado para o outro na beirada do desfiladeiro, claramente tensos. Do outro lado, Josh apareceu depois de terminar uma varredura completa pela área com alguns guerreiros.
Depois que tudo ficou pronto, eu praticamente só precisei caminhar com os pés pela encosta para evitar que nós duas batêssemos nas pedras enquanto nos puxavam para cima. Eu estava inclinada para trás e Emily parecia estar deitada em uma cama adaptada sobre mim.
Assim que chegamos ao topo, todos vieram correndo na nossa direção.
— Parem! — Gritei.
Talvez eu tenha deixado o tom de comando escapar na voz, porque, de repente, todo mundo parou no mesmo lugar, como se a cena tivesse sido pausada em um filme.
— Desculpa, gente. Podem se mexer, sim… Só não cheguem muito perto. Primeiro deixem a Dra. Bradshaw limpar a gente e ver como ela está.
Caminhei até a médica da alcateia enquanto me mexia um pouco para deixar o arnês cair das minhas pernas.
— Ryker… Eu te amo, mas fica aí onde está até eu limpar todo esse veneno de mim. — Falei, passando direto por ele.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Luna Indesejada do Alfa
E a história da Kennedy + Ryker nunca mais voltou.......
Parecis legal. Mas ai começa o autoritarismo e machismo e tudo perde a graça e fica mais do mesm9...