(Ponto de Vista de Kennedy)
O som estridente de pneus raspando no asfalto ecoou primeiro, seguido por um baque seco e pela explosão de vidro, enquanto uma força invisível me arremessava para frente. Eu não tinha controle algum, não tinha onde me segurar, apenas sentia minhas mãos voarem pelo ar até que bati contra uma superfície sólida e despertei num sobressalto.
Arfei, piscando várias vezes até abrir os olhos. Eu estava no meu quarto. Eu estava no meu quarto, como acontecia todas as noites, embora o cheiro de borracha queimada misturado à gasolina ainda ardesse dentro do meu nariz. O pesadelo continuava ali. Idêntico, constante, há dois anos. Assim, respirei fundo de novo, numa tentativa inútil de livrar-me tanto do odor no meu nariz quanto da imagem que permanecia escondida atrás das minhas pálpebras.
A porta se abriu violentamente e meu melhor amigo atravessou o quarto num salto. "Pensando bem, já fazia tempo que eu achava que deveríamos compartilhar o mesmo quarto, pelo tanto que ele estava ali comigo…" Ele não falou nada, só entrou por baixo do meu cobertor fofinho, me cercou com os braços e colocou minha cabeça apoiada em seu peito. Logo, o cheiro familiar e o ritmo constante do coração dele me puxaram de volta para um sono sem sonhos.
O pesadelo que se repetia todas as noites desde o acidente me fazia perder qualquer noção do que fazer dali em diante. Mesmo depois de visitar todos os médicos recomendados pela tia Beth, nada parecia melhorar, exceto quando eu permanecia perto de Jeremiah. No fim, essa situação estava virando minha vida de cabeça para baixo, que já era um caos antes disso, e eu não precisava de mais confusão. Para completar, aquilo também acabava não sendo nada conveniente para ele.
— Ah, docinho, você parece exausta. Outra noite ruim? — Tia Beth perguntou como se não tivesse me ouvido gritar do outro lado da casa.
Eu não conseguia simplesmente ser uma adolescente rabugenta com ela, porque a tia Beth e o tio James tinham feito demais por mim nos últimos anos. Eles não tinham obrigação de me acolher. Mas, quando nenhum dos meus outros parentes quis assumir a tutela de uma adolescente de quinze anos, a melhor amiga da minha mãe e o marido dela me receberam sem hesitar. Ela ficou comigo no hospital enquanto eu me recuperava e foi quem me abraçou quando os médicos contaram que meus pais não sobreviveram. Ainda por cima, garantiu que eu tivesse acesso aos melhores médicos e especialistas para me ajudar a lidar com tudo aquilo.
— Sim. Parece que estão piorando, mas não sei por quê… — Eu resmunguei enquanto me sentava na bancada enorme da cozinha. Ela colocava um prato cheio das minhas comidas favoritas de café da manhã na minha frente. Eu apenas sorri e comecei a devorar tudo.
— Já está pronta? — O uivo melodioso do meu melhor amigo ecoou de algum lugar da casa dez minutos depois. "O que seria de mim sem ele na minha vida?"
— Quase. A tia Beth está tentando me empanturrar. Não posso ser mal-educada e deixar comida no prato. — Falei, enfiando mais uma garfada na boca.
— Mãe, você sabe que ela não precisa comer a mesma quantidade que eu, né? Se continuar assim, vou acabar tendo que rolar ela até a escola. — Ele lançou, caminhando até a geladeira, como se não fosse pegar um prato enorme e devorar tudo em segundos.
— Espera… Você acabou de me chamar de gorda? — Tentei acertar um tapa nele ali da cadeira, mas ele foi rápido pra caramba e eu errei. — Eu gostaria de te lembrar, senhor, que meu ritmo de treino sempre acompanhou o seu, ainda que meu corpo não tivesse nascido com essa vocação divina para empilhar músculos.
— Então você está dizendo que eu sou gostoso e que a gente devia sair alguma hora? — Ele provocou, encostando no batente da porta da cozinha enquanto jogava a mochila no ombro e enfiava comida na boca ao mesmo tempo.
Eu seria hipócrita se tentasse dizer que meu melhor amigo não era gostoso. No meio de tantos homens bonitos, ele ainda chamava atenção, quase confirmando minha teoria de que os lobisomens recebiam esse tipo de beleza de fábrica. O charme começava pelo cabelo chocolate, propositalmente desarrumado, como se ele tivesse desistido de arrumar depois de passar a mão. Os olhos, num tom de caramelo claro quase hipnótico, atraíam tanto que até faziam alguém ignorar os lábios cheios. E sua altura, passando de um metro e oitenta, gritava "eu vou te proteger" ou "eu vou te ferrar", dependendo para quem ele olhava. Mas eu jamais diria isso em voz alta, porque o ego dele não precisava de reforço. Além disso, eu nunca senti aquela atração hormonal por ele. Afinal, ele era meu amigo em tudo que importava, e nós éramos super próximos, mas só isso.
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— Ah, por favor. Qualquer uma das suas candidatas a Luna me mataria durante o sono se tivesse chance. E agora que você completou dezoito, elas ficaram simplesmente mais malucas. — Fiz uma careta e fingi vomitar.
— Aquelas meninas ainda estão pegando no seu pé, querida?
— Tia Beth, tudo bem. Elas pegariam no meu pé até se nós fôssemos companheiros destinados. — Eu disse, fingindo engasgar de novo. — No fundo, elas não gostam de mim porque eu sou humana e, portanto, inferior, mas ainda assim eu tenho a atenção do futuro Alfa destemido delas. Além disso, ninguém tentou me acertar com nada há algum tempo. No fim, são só garotas idiotas com insultos idiotas. — Revirei os olhos como se nada ali me afetasse enquanto empurrava a bunda enorme de Jeremiah para fora de casa para irmos ao nosso primeiro dia do último ano.
Evitei contar a ela que os insultos tinham se agravado. Para as garotas, o fato de eu ser órfã e uma humana em meio a uma alcateia de lobisomens já não rendia diversão suficiente. Agora, a fofoca da vez era que eu dormia com todos os amigos do Jeremiah pelas costas dele, embora a verdade fosse bem simples: nunca namoramos e nunca iremos namorar.
Crescemos literalmente lado a lado desde o dia em que nascemos, porque chegamos ao mundo no mesmo hospital e compartilhamos o mesmo aniversário. Nossas mães eram inseparáveis desde a faculdade, se formaram juntas e abriram um estúdio de yoga e defesa pessoal feminina. Quando a tia Beth virou Luna após conhecer o tio James, minha mãe assumiu o estúdio sozinha para que a amiga pudesse lidar com a rotina exaustiva da alcateia.

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