VICTOR BALTIMOR.
A explosão veio como um rugido seco, abafado. O calor atingiu minhas costas por um segundo, contrastando brutalmente com o frio cortante ao redor. Meu corpo doeu assim que encontrei o chão.
O impacto foi devastador.
Quando ergui a cabeça novamente, soube antes mesmo de olhar. O silêncio que se seguiu era absoluto. Nenhum gemido. Nenhum pedido de socorro. Olhei para Pablo, que ainda estava entre as poltronas, que o protegeram do impacto da explosão.
Levantei-me cambaleando, ignorando a dor latejante na cabeça, nas costas e nas pernas, e fui até onde estavam os seguranças.
Não havia mais nada a ser feito. Eles estavam mortos. Todos estavam, exceto eu e Pablo.
Fechei os olhos por um instante, sentindo um nó se formar na garganta. Mas não havia tempo para luto naquele momento. O frio estava avançando rápido demais, e a fumaça ainda subia dos destroços. Eu tinha que sair dali e tentar salvar a mim e a Pablo.
— Victor… — a voz de Pablo saiu fraca atrás de mim. — Estamos sozinhos agora, não é?
Virei-me para ele. Seu rosto estava pálido, os lábios começando a ganhar um tom arroxeado. O braço quebrado estava inchado, e ele tremia, não apenas de dor, mas de frio.
— Estamos vivos — respondi, firme. — E isso é o que importa agora.
Olhei ao redor com mais atenção. O avião havia caído em uma área completamente isolada. Nada além de neve, rochas, gelo e um céu cinzento e pesado. Nenhuma estrada. Nenhuma construção. Nada.
— Onde estamos? — ele perguntou.
— Algum ponto isolado do norte — respondi. — Muito isolado.
— O que fazemos agora? — perguntou, tão baixo que quase não consegui ouvir.
— Lutamos para sobreviver, enquanto o resgate não chega.
O vento começou a soprar mais forte, cortante, implacável. A temperatura despencava rápido. Se ficássemos ali parados, morreríamos em poucas horas.
Respirei fundo. O que eu faço?
Foi então que pensei em meu pai.
As imagens vieram claras à minha mente. Eu ainda era jovem quando ele me levava para acampar. Florestas fechadas, noites geladas, situações extremas. Na época, eu reclamava. Hoje, aquelas lições eram tudo o que tínhamos.
Obrigado, meu pai, por ter me ensinado a acampar. Olhei para Pablo.
— Escuta bem, Pablo — falei, ajoelhando-me à frente dele com dificuldade — Nós vamos sobreviver. Mas você precisa confiar em mim e fazer exatamente o que eu mandar. Entendeu?
Ele assentiu, os dentes batendo.
— Primeiro, precisamos nos afastar dos destroços — continuei. — O combustível pode causar outra explosão.
Com esforço, ajudei-o a sair de entre as poltronas e a se levantar. Cada passo era uma luta. Meu corpo doía inteiro, mas a adrenalina me mantinha em pé.
Conseguimos nos afastar alguns metros até uma área com rochas que ofereciam um mínimo de proteção contra o vento. Peguei um cobertor que havia sido arremessado para fora do avião e envolvi Pablo.
Ele gritou quando alinhei o braço, mas mordeu os lábios e não pediu para parar.
— Você é um desgraçado — resmungou, ofegante. Eu sorri, pois em anos ele nunca sequer me respondeu mal, e agora me xingava.
— Um desgraçado esperto — respondi e pisquei.
Peguei meu celular, que ainda tinha bateria, mas estava sem sinal. Vi que já eram três da madrugada. A temperatura despencara ainda mais. Pela fresta, vi que o céu estava completamente escuro, sem lua, sem estrelas. Apenas o som do vento cortando o silêncio.
Nos encolhemos juntos, dividindo o pouco de calor que o cobertor e os casacos nos proporcionavam. Eu deveria fazer uma fogueira, mas não havia árvores por perto.
— Victor… — ele disse, com a voz fraca. — Se eu não aguentar…
— Não termina essa frase — interrompi. — Você vai aguentar. É uma ordem do seu chefe. Você ainda tem muitos anos para me servir. Está pensando que vai se livrar de mim assim, tão fácil?
Fechei os olhos por um instante, sentindo o cansaço extremo pesar. Mas não podia dormir. Não ainda.
Minha mente estava em Elisa. Grávida. Sozinha. Sem saber se eu estava vivo.
— Eu prometi voltar — murmurei para mim mesmo. — E vou cumprir.
Aquela não era apenas uma luta pela sobrevivência.
Era uma promessa. E eu não pretendia quebrá-la.

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