VICTOR BALTIMOR.
O silêncio que se instalou na cozinha foi imediato e sufocante. Agora éramos só nós três: eu preso nessa cadeira de rodas, Elisa parada à minha frente e aquela menininha no colo dela.
Olhei para a criança e o choque me acertou como um soco no estômago. A semelhança era absurda. Os mesmos olhos, o formato do rosto, o jeito como os cabelos cacheavam levemente nas pontas. Não havia como negar. Aquela menininha era minha filha. O pensamento me atingiu com tanta força que fiquei paralisado, sem reação. Meu corpo inteiro travou. Eu não conseguia desviar o olhar dela. Era como olhar para um espelho do passado que eu não lembrava ter vivido.
A criança começou a esticar os bracinhos na minha direção. Fiquei ali, olhando para ela, surpreso, atordoado, como se tivesse levado um susto que me deixou sem ar.
A menina começou a choramingar pela demora. O som baixo foi aumentando gradualmente, até virar um choro estridente. Foi nesse momento que o transe se quebrou. A dor explodiu na minha cabeça, um latejar forte que pulsava com os gritos dela. Fiz uma careta, apertando os dentes.
Esbravejei, rouco, a voz saindo mais agressiva do que eu pretendia. Exigindo que Elisa a fizesse calar.
Elisa não respondeu. Ela começou a andar de um lado para o outro, murmurando palavras suaves para a menina, balançando o corpo dela no colo. Aquilo me irritou ainda mais. Eu estava sendo ignorado. Ela andava de um lado para o outro como se eu não existisse, como se eu não tivesse acabado de mandar todo mundo sair para conversarmos. O movimento constante, o som dos passos, o choro cada vez mais alto… tudo aquilo martelava na minha cabeça.
— O que há de errado com essa criança? E você quer parar de andar e me responder.
Elisa parou de repente. Ela se virou para mim e me lançou um olhar frio, cortante. Naquele instante, senti uma certa familiaridade naquele olhar. Como se já tivesse recebido aquele mesmo olhar várias vezes antes. Uma sensação estranha subiu pela minha espinha. Era como se uma parte de mim reconhecesse aquela expressão de raiva e impaciência dirigida a mim.
E tudo aconteceu rápido demais. Elisa falou, impaciente e brava. Meu coração deu um salto no peito. A voz dela… aquela voz.
Fiquei paralisado, chocado. Era a mesma voz. A voz da mulher do meu sonho. A voz que me perseguia todas as noites, suave, firme, cheia de emoção. Era ela. Elisa. A mulher que eu via nos meus sonhos, que me tocava, que me chamava pelo nome com tanto carinho. O choque me acertou com tanta força que eu mal consegui respirar. Meu peito apertou, a cabeça latejava ainda mais. Eu ainda tentava processar aquilo quando ela continuou andando e parou bem na minha frente, com Melissa no colo.
Melissa. Lindo nome, minha mãe já tinha dito seu nome no hospital. E então uma memória vaga surgiu, rápida como um flash. Uma menininha no berço, balançando os braços, sorrindo para mim. A imagem desapareceu tão rápido quanto veio, deixando apenas um vazio doloroso.
Elisa me olhou fixamente. Seus olhos estavam cheios de uma mistura de raiva, dor e determinação.
Eu pisquei, ainda em choque, olhando para ela. O que estava acontecendo comigo? Meu corpo inteiro reagia à presença dela, à voz dela, mas minha mente continuava em branco. Não tive reação. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Elisa já estava me entregando a criança.
— E o que você vai fazer com isso agora, Victor? — perguntou, a voz baixa, mas carregada de emoção. — Vai continuar dizendo que quer nos mandar embora? Vai continuar tratando sua filha como um incômodo?
Senti o peito apertar. A menina no meu colo estava calma agora, respirando devagar, quase dormindo. Mas eu… eu estava longe de estar calmo. A voz de Elisa ainda ecoava na minha cabeça. A semelhança da criança comigo. A sensação estranha de preocupação que eu sentia por ela. Tudo se misturava dentro de mim, criando um turbilhão.
— Eu não sei — respondi, sincero. — Eu não sei o que fazer com nada disso. Mas sua voz… é ela. É a voz que ouço todas as noites quando durmo. E agora você está aqui, na minha frente, e eu ainda não lembro de nada.
Elisa respirou fundo, os olhos marejados, mas ela não chorou. A tensão entre nós era palpável, densa, como se o ar estivesse prestes a estalar. Eu segurava Melissa no colo, mas meus olhos não saíam do rosto de Elisa. Era estranho que eu soubesse como segurar um bebê e me mantinha tranquilo em ter um nos meus braços. Elisa parecia pronta para explodir ou para desabar. E eu… eu me sentia no limite, apesar da naturalidade de segurar Melissa.
A cozinha estava silenciosa, exceto pela respiração suave de Mel. Mas dentro de mim, tudo gritava. A raiva, a confusão, o choque e a frustração. Pois minhas memórias ainda não haviam voltado. Só me restava agora o perfume.
Mas como vou sentir seu cheiro se ela se mantém distante? Preciso chegar mais perto dela.

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