VICTOR BALTIMOR.
Ela havia terminado. O lençol estava de volta no lugar, mas a sensação de ter sido tocado por ela ainda queimava na minha pele. A dor latejava forte entre as pernas, mas por um segundo, por um maldito segundo, o ardor diminuiu o suficiente para que eu conseguisse focar em outra coisa.
Elisa tentou se afastar, eu pude sentir seu movimento, sem sequer abrir os olhos. Segurei seu braço sem pensar. Puxei-a para mais perto. Meu corpo reagiu antes da mente. Ela acabou praticamente deitada sobre mim, o peso leve do seu corpo contra o meu peito. E foi aí que aconteceu.
O cheiro dela me acertou precisamente.
Um perfume suave, com um toque de baunilha e algo floral que eu não conseguia nomear. Era o mesmo. Exatamente o mesmo cheiro que invadia os meus sonhos todas as noites. Aquele cheiro que me deixava acordado, suado, com uma sensação de perda que eu nunca entendia. Meu coração deu um salto violento. O ar ficou preso na garganta.
— Esse cheiro… — murmurei, a voz rouca, quase um sussurro. — Eu conheço. É o perfume dos meus sonhos.
Elisa congelou sobre mim. Seus olhos se arregalaram, o rosto ainda corado da vergonha de ter me tocado. Eu via o peito dela subindo e descendo rápido, a respiração tão acelerada quanto a minha.
— Victor… — a voz dela saiu baixa, trêmula. — Você… você se lembra?
Eu não respondi de imediato. A dor ainda latejava, mas agora era secundária. O cheiro dela estava me invadindo, enchendo meus pulmões, mexendo com algo dentro de mim que eu não conseguia controlar. Era como se uma parte esquecida do meu cérebro tivesse sido acesa de repente. Eu queria puxá-la mais perto, enterrar o nariz no pescoço dela e respirar fundo até que a memória voltasse. Mas, ao mesmo tempo, a raiva, a confusão e a humilhação de estar ali, vulnerável, me seguravam.
— Eu não lembro de você — admiti, a voz rouca. — Mas esse cheiro… sonho com ele todas as noites. É esse perfume, não tenho dúvida. Ele está sempre lá. Acordo suando, com a sensação de que perdi algo importante. E agora você está aqui… cheirando exatamente igual.
Elisa mordeu o lábio inferior. Seus olhos marejaram, mas ela não deixou as lágrimas caírem.
— É o meu perfume, quer dizer, sabonete, pois não uso perfume, sou alérgica. — Sussurrou ela. — É o mesmo que utilizo desde sempre. Você dizia que meu cheiro te acalmava após um dia ruim na política.
Fechei os olhos por um segundo, tentando segurar a onda de emoções que me invadia. Gratidão misturada com frustração. Ela havia preparado o quarto inteiro para mim. Havia pensado na cadeira de rodas, na sopa fez exatamente do jeito que eu gosto. Havia cuidado de mim agora, com as próprias mãos, mesmo tendo sido um babaca com ela desde que cheguei em casa.
Eu queria agradecer. Queria dizer que estava tocado e agradecido. Mas a dor ainda queimava, a humilhação de ter sido visto assim por ela ainda ardia, e as palavras ficaram presas na garganta.

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