VICTOR BALTIMOR.
Dois dias haviam se passado desde aquele banho desastroso. E, para meu completo azar, a lembrança da risada de Elisa ainda continuava viva demais na minha cabeça. Toda vez que eu fechava os olhos, conseguia ver perfeitamente a expressão divertida no rosto dela, a forma como tentou disfarçar o riso enquanto eu, feito um idiota, quebrava a cara com as próprias expectativas. E como ela gargalhava descaradamente na minha frente.
Depois daquele dia, Elisa continuou cuidando de mim e me dando banho. Mas eu havia aprendido a lição: não criava mais expectativas maliciosas. Ou melhor, tentava não criar. Aceitei que ainda não era a hora para isso. Meu corpo ainda estava se recuperando, as costelas ainda doíam em alguns movimentos e a lembrança da maldita sonda ainda era suficiente para me fazer perder qualquer ousadia mais precipitada.
Então, concentrei-me no que realmente importava: sair daquela cadeira, voltar à minha rotina, recuperar meu corpo e minha mente. Por isso, estava seguindo todas as recomendações médicas sem discutir, faria a fisioterapia corretamente e iniciaria as sessões com o psicólogo. E, principalmente, cumpriria a promessa que fiz a Elisa. Eu não desistiria.
Naquela manhã, fui levado até o consultório improvisado que haviam montado em uma das salas da mansão. Minha mãe insistiu para que o ambiente fosse confortável, discreto e silencioso. A sala tinha uma poltrona grande, iluminação suave e uma janela ampla de onde entrava a luz do fim da manhã. Tudo ali parecia ter sido pensado para me deixar à vontade. Mas a verdade era que eu não estava.
Eu estava inquieto. Não por preconceito ou por achar aquilo inútil. Muito pelo contrário. Sempre soube da importância de cuidar da mente. Nas minhas empresas, fazia questão de oferecer esse suporte a todos os meus funcionários. O problema era saber que, ao entrar naquela sala, eu não teria mais para onde fugir das minhas próprias lembranças.
O psicólogo, doutor Paulo, era um homem na casa dos cinquenta anos, com postura tranquila e olhar atento. Nada invasivo. Nada forçado. Ele me cumprimentou com naturalidade e se sentou à minha frente. Por alguns segundos, apenas me observou em silêncio, como se me desse tempo para me acostumar com a situação.
— Como está se sentindo hoje, senhor Baltimor? — perguntou ele.
A pergunta era simples, mas a resposta não era. Soltei uma respiração lenta.
— Fisicamente, melhor. Mentalmente… ainda tentando entender tudo.
Ele assentiu, sem pressa.
— Recuperar a memória após um trauma tão grande pode ser tão difícil quanto perder as lembranças.
A frase me atingiu estranhamente, porque era exatamente aquilo. Perder as memórias foi assustador, mas recuperá-las estava sendo devastador. Passei a mão pelo rosto.
— Eu me lembro de tudo agora. Da queda, do impacto, das pessoas no avião, dos gritos… e isso não sai da minha cabeça.
Minha voz saiu mais baixa no final. Mais pesada. O doutor Paulo manteve a expressão calma.
— O que mais pesa nessas lembranças?
Fiquei alguns segundos em silêncio. A resposta veio antes mesmo que eu quisesse admiti-la.
— As mortes.
Minha garganta apertou. Olhei para a janela, vendo a luz atravessar a sala, mas sem realmente enxergar nada.
Fechei os olhos por um instante. Queria acreditar nisso, mas ainda não conseguia.
— Minha cabeça entende. O problema é fazer o resto de mim aceitar.
Ele assentiu.
— E é exatamente por isso que estamos aqui.
Respirei fundo. Pela primeira vez desde que as memórias voltaram, senti que talvez aquilo realmente pudesse me ajudar. Não a esquecer. Eu nunca esqueceria. Mas talvez a aprender a carregar aquela dor sem deixar que ela me destruísse.
A sessão seguiu por mais algum tempo. Falamos sobre o acidente, sobre a sensação de impotência, sobre a culpa, sobre os dias sem memória e até sobre o medo de voltar a entrar em um avião. Quando saí da sala, meu corpo estava cansado, mesmo que pilotar aquela cadeira não fosse nenhum esforço.
Mas era um cansaço diferente, como se eu tivesse aberto uma porta dentro de mim que estava emperrada há tempo demais. E tivesse utilizado todas as minhas forças para isso.
Ainda doía e pesava. Mas, pela primeira vez, senti que talvez eu realmente pudesse voltar a ser eu mesmo. Não apenas o primeiro-ministro, não apenas o homem que sobreviveu. Mas, Victor Baltimor, inteiro. Mesmo com todas as cicatrizes que estava carregando. Esse papel de coitado e indefeso não combina comigo.
Eu havia prometido a mim e a Elisa que lutaria pela minha recuperação e não desistiria. Minha mente, comecei a tratar, agora era hora do meu corpo. Começaria a fisioterapia. Eu queria sair dessa cadeira de rodas e logo.

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