ELISA RIVER.
Eu não aguentei. Assim que vi Ceci ali, parada na minha frente, com a preocupação estampada no rosto, desabei de vez. Dei dois passos rápidos e a abracei com força, como se ela fosse a única coisa que ainda me mantinha de pé.
— Elisa… o que aconteceu? — perguntou, surpresa, passando as mãos pelos meus cabelos, sentindo meu corpo tremer.
— Não pergunte nada agora — pedi, com a voz embargada. — Só… só fica comigo. Preciso de você.
Ela não insistiu. Não fez mais nenhuma pergunta. Apenas me apertou nos braços, forte, firme, do jeito que só uma amiga de verdade sabe fazer. E ali, protegida por aquele abraço, eu voltei a chorar. Um choro desesperado, profundo, como se tudo o que eu estivesse segurando tivesse finalmente encontrado uma brecha para sair.
Ficamos assim por alguns minutos. Eu chorando sem controle, Ceci em silêncio, me acolhendo. Lentamente, minha respiração foi desacelerando, o aperto no peito diminuiu e as lágrimas foram cessando.
Afastei-me um pouco e limpei o rosto, respirando fundo.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, ainda rouca. Ceci me olhou com ternura.
— Assim que meus pais avisaram que estavam vindo para cá, eu comprei uma passagem e embarquei para o Canadá — respondeu. — Eu não queria te deixar sozinha nesse momento, ainda mais com eles aqui.
Meu coração se aqueceu.
— Obrigada, amiga — murmurei, voltando a abraçá-la rapidamente e me afastei.
Ela sorriu de leve, mas logo ficou séria.
— Agora me conta. O que aconteceu para você estar nesse estado?
Suspirei fundo. Eu sabia que não adiantava fugir daquela conversa. Precisava colocar tudo para fora. Precisava da Ceci.
— Vou te contar tudo — falei, enfim. — Tudo mesmo. Desde o começo. Inclusive as partes que omiti quando falava com você.
E comecei a narrar. Contei sobre Victor, os beijos, nosso momento na cozinha, sobre a confusão, sobre a mentira, sobre tio Thomas, a chantagem, a ameaça velada envolvendo Melissa, o surto de Victor, as palavras cruéis, o medo que senti. Não escondi nada. Cada detalhe. Cada dor.
Quando terminei, Ceci estava de pé, andando de um lado para o outro, visivelmente transtornada. Os olhos arregalados, as mãos fechadas em punho.
— Eu não estou acreditando nisso — disse, incrédula. — Como meu pai e meu tio tiveram coragem de fazer uma coisa dessas? Como meu pai pôde… e meu tio foi um completo babaca! Estou muito decepcionada com eles. Que raiva!
Ela parou na minha frente e respirou fundo.
— Eli, o que você está pensando em fazer agora? Vai aceitar esse absurdo quieta?
Baixei o olhar.
— Eu não tenho muitas escolhas — respondi, derrotada. — Seu pai está usando a Mel para me obrigar a aceitar.
— Não, isso não é certo — disse firme. — Você deveria pedir demissão e se livrar de tudo.
— E a Mel, Ceci? — retruquei, sentindo o nó voltar à garganta. — Eu não posso deixá-la agora, ainda mais doente, com um pai irresponsável.
Ceci me encarou com seriedade.
— Elisa, pare de ficar pensando nos outros. Melissa não é sua filha. Eu sei que você criou amor por ela, mas você não é a mãe dela. Uma hora você vai sair desse emprego e voltar para sua profissão. Você sempre amou lecionar, minha amiga. Melissa é responsabilidade do meu tio, não sua.
Respirei fundo, sentindo o peso daquelas palavras.
— Já pensou que meu tio pode te demitir? — continuou. — E você nunca mais vai poder ver a Mel. Entendeu, que você só está de passagem pela vida da Mel?
— Eu sei, Ceci — respondi, com a voz fraca. — Sei que sou só a babá da Mel… mas eu não consigo ir agora. Não com ela doente.

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