Enzo permanecia imóvel junto à janela, o olhar perdido em algum ponto além do vidro.
A luz tímida do abajur projetava sombras inquietas que pareciam ganhar vida, deslizando e se contorcendo sobre seu rosto. Era como se aquelas formas etéreas traduzissem, em sua dança silenciosa, o turbilhão de emoções que ele mantinha trancado dentro de si, preenchendo o quarto com uma tensão quase palpável.
A camisa preta, desabotoada, caía suavemente sobre o peito, revelando a firmeza esculpida de sua pele clara, que parecia quase brilhar sob a luz.
Cada detalhe parecia cuidadosamente moldado, uma obra de arte viva. A boxer, ajustada com uma elegância despretensiosa, traçava as linhas de sua masculinidade com uma sobriedade que não precisava de adornos para impressionar, como se a simplicidade fosse, por si só, uma declaração de força e confiança.
Ele não se moveu de imediato quando ela entrou. Permaneceu imóvel, os olhos fixos nela, carregando uma expressão que oscilava entre o vazio e a indiferença.
Era como se aquele instante não passasse de uma formalidade, uma peça mecânica em um jogo meticulosamente planejado, onde emoções eram descartáveis e cada gesto, uma cláusula silenciosa de um contrato gélido e desprovido de alma.
Com um gesto seco, ele apontou para a cama, deixando claro que não havia espaço para palavras ou hesitações. Diferente das poucas vezes em que se encontraram, Enzo parecia ainda mais distante, um homem que carregava o peso de um papel imposto, desprovido de qualquer traço de afeto.
Dayse prendeu a respiração, o coração apertado por um turbilhão de medo e revolta.
Como alguém podia ser tão frio, tão alheio ao impacto de suas ações? Tratá-la como se fosse apenas uma ferramenta, um recurso descartável, um simples meio para alcançar seus próprios objetivos.
Ela, que não pedia muito, apenas ansiava por uma convivência tranquila, por um mínimo de respeito mútuo. Mas, diante daquela indiferença cortante, sentiu-se despedaçada, como se sua existência tivesse sido esvaziada de qualquer valor. Era como se, aos olhos dele, ela não passasse de um eco distante, algo que podia ser ignorado sem remorso.
Dayse avançou lentamente até a beira da cama, cada passo carregando o peso de algo invisível, e se deixou cair ali, como quem busca um porto seguro em meio à tempestade.


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