O céu estava encoberto por nuvens pálidas quando Dayse abriu os olhos devagar, tentando entender se estava sonhando.
Dayse fechou os olhos novamente, na tentativa de fugir do pesadelo.
A mansão imponente. O contrato — uma armadilha fria e meticulosamente calculada pelos seus pais adotivos. O casamento que parecia mais uma sentença do que uma celebração — tudo permanecia intacto.
Nada havia mudado. A realidade, em todo o seu esplendor grotesco, se mantinha inabalável.
Sim, ela agora era a esposa legal de um homem que, até ontem, não passava de um completo desconhecido. Ele era um mistério, uma presença envolta em incertezas e silêncios. A situação parecia surreal, como se o destino tivesse decidido, de forma repentina, entrelaçar suas vidas.
O quarto estava em completo silêncio, tão limpo e tão espaçoso que parecia ecoar até seus pensamentos ― vasto e impecável, mas desprovido de qualquer calor humano.
Sentou-se na cama devagar. A cabeça latejava de tensão acumulada.
Sobre a mesa de cabeceira, uma bandeja com café da manhã disposta de maneira impecável: frutas cortadas, pães, geleias, uma xícara de porcelana. Tudo milimetricamente organizado. Quase… clínico.
Apenas uma nova etapa de uma vida sem escolhas. Ela não tocou em nada. Permanecia imóvel, sentindo o silêncio sufocar as paredes daquele quarto.
O tempo passava devagar até que três batidas secas soaram na porta. Dayse se levantou, sentindo o pulso acelerar sob a pele, e abriu a porta.
Luna Vasquez estava ali, como uma sombra.
— O senhor Bellucci quer vê-la agora — disse, sem rodeios.
Nada de gentilezas, nada de suavidade. Apenas uma ordem seca, tão direta quanto o olhar afiado da mulher. Sem bom dia. Sem margem para hesitação. Apenas o necessário.
Dayse não respondeu. Apenas assentiu com a cabeça. Seu rosto estava calmo, mas por dentro o estômago se contraía.
Ela seguiu pelos corredores da mansão atrás da secretária, que andava como um soldado em missão.
Foi conduzida até uma sala espaçosa com grandes janelas e uma grande lareira acesa, embora o frio lá fora fosse apenas brando. Ela ia, finalmente, encontrar o homem que mudaria sua vida. Ou que tentaria dominá-la por completo.
As janelas se estendiam do chão ao teto, emolduradas por cortinas pesadas que filtravam a luz opaca do dia. Quadros clássicos adornavam as paredes e móveis robustos compunham o ambiente, que cheirava a poder e controle. Tudo ali exalava riqueza, mas era frio. Impessoal.
Dayse parou na soleira da porta, o coração acelerando.
Enzo estava ali, de costas, diante da janela. As mãos cruzadas atrás das costas, os dedos entrelaçados com uma tensão quase imperceptível, observando o jardim através do vidro.
Sua postura era rígida. Imóvel como uma estátua de mármore.
Ele não se virou, não a cumprimentou, nem sequer lançou um olhar em sua direção.
O silêncio pairava pesado, denso como o ar antes de uma tempestade.
― Sente-se ― ele disse, com as costas ainda voltadas para ela. Sua voz era profunda e incisiva, cortando a quietude com uma precisão gélida, desprovida de calor, despida de qualquer traço de emoção.
Dayse sustentou a postura, lutando contra o aperto no estômago. Não se moveu de imediato, não cedeu à expectativa silenciosa da ordem pronunciada. Suas mãos estavam geladas, mas firmes.
— É curioso… — sua voz carregava um toque de ironia cortante, delicadamente ensaiada.
— Ser recebida por um homem cujo sobrenome já carrego, mas que não achou necessário comparecer ao próprio casamento.
Enzo permaneceu imóvel, sem demonstrar reação, apenas medindo o tempo como quem espera um incômodo passar. Como se aquela troca de palavras fosse uma formalidade inconveniente. Um ajuste burocrático. Um detalhe a ser riscado da lista.
Quando finalmente se virou, ela viu pela primeira vez o rosto de Enzo Bellucci.
Um homem jovem, talvez nem tenha chegado na casa dos trinta ainda, de traços aristocráticos e expressão impassível.
Ele era exatamente o que ela imaginou: postura impecável, expressão fria, um homem acostumado ao poder — e alheio a qualquer emoção que não pudesse controlar.
O tipo de pessoa que não olhava para alguém, mas atravessava com os olhos.
Os cabelos estavam perfeitamente penteados para trás. Nada em sua aparência era descuidado — ou espontâneo.
Os olhos azuis de fundo preto, pareciam tão profundos quanto um abismo insondável. Frios e enigmáticos, não deixavam transparecer nenhuma emoção, como se escondessem segredos que ninguém ousava desvendar. Essa tonalidade única reforçava sua aura distante e quase intangível, tornando-o ainda mais impenetrável e intrigante.
Ele a observou por alguns segundos em silêncio, avaliando-a. Como quem examina a funcionalidade de um móvel caro.
— Acredito que casamentos como o nosso dispensam romantismo ― disse ele, a voz tão fria quanto os olhos.
Dayse passou os dedos pelos cabelos castanhos ondulados, agora presos em um coque baixo — um reflexo de sua tentativa de parecer mais madura e confiante do que realmente se sentia.
— Que bom que concordamos — disse Dayse, seu sorriso delicado, mas afiado, trazendo à tona um sarcasmo envolto em uma falsa leveza.
— Porque se eu quisesse romantismo, teria me casado com um banqueiro suíço.



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