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A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 44

“Cada gesto meu te alcança. E te envolve. De certo modo. Te liberta e te devolve”

(Marisa Monte, Infinito Particular)

Enzo deu um passo hesitante em sua direção, talvez buscando algo que nem ele sabia nomear —redenção, compreensão ou controle, quem sabe.

Mas Dayse, determinada a não ser derrotada, o afastou com toda a força que ainda pulsava em suas veias.

A firmeza em suas palavras era um escudo, uma barreira para proteger o que restava de si. Por um instante, o silêncio entre eles pesou mais do que qualquer palavra, um grito mudo que reverberava pelo ambiente.

Não era apenas uma negativa ou um sinal de exaustão; era uma declaração, uma decisão meticulosamente arquitetada.

Dayse não recuaria. Não mais.

O tempo de concessões havia ficado para trás.

Mesmo com os braços vazios, carregava dentro de si o peso e a força de todos os quatro.

Ele parou, atônito, encarando-a como se estivesse diante de uma estranha... Quantas faces tinha essa mulher?

O que Enzo não sabia era que, diante dele, não estava apenas uma mulher. Estava uma mãe em guerra. Uma fortaleza erguida sobre as ruínas da própria dor.

Cada cicatriz, cada perda, cada pedaço arrancado de sua alma se transformara em aço, em fogo, em resistência. Ela lutaria até o último resquício de si mesma. Porque a única coisa mais feroz do que a dor é o amor de uma mãe.

E Dayse já não tinha medo de sangrar por aqueles que chamava de seus.

Ela precisava afastá-lo, e rápido. Cada segundo era crucial. Precisava de tempo, de uma saída daquela mansão sufocante, de uma chance para garantir que seus outros três filhos continuassem seguros e invisíveis ao mundo dos Bellucci.

— Senhor Bellucci, você já tem o seu herdeiro! Agora saiam daqui, todos vocês — gritou, a voz trêmula, carregada de uma dor que parecia rasgar sua alma. Lágrimas ameaçavam cair, mas ela as conteve.

— Eu preciso descansar... foi um parto muito difícil.

Enzo apertou os punhos com força, os nós dos dedos ficando brancos. Seus olhos, brilhantes, transbordavam uma emoção crua e confusa, um turbilhão entre mágoa, raiva e algo que ele não conseguia nomear.

Ele olhou para o bebê em seus braços, tão pequeno e frágil, e depois para Dayse, como se buscasse respostas em um rosto que já não reconhecia mais.

— Interesseira — murmurou, cada sílaba carregada de um desprezo cortante, um veneno que parecia se espalhar pelo ar.

— É isso que você é? Só quer o dinheiro, não é mesmo?

A acusação veio como um golpe. Fria. Precisa. Irremediável.

— Saiba que, agindo assim, nunca mais verá seu filho.

O tom era definitivo, cruel.

— Meu filho não merece uma mãe assim.

O silêncio que veio depois foi pior do que qualquer grito.

Era um julgamento. Uma sentença.

E, no fundo, ele sabia o impacto que aquelas palavras causariam.

― "E agora se atreve a me julgar..."

A respiração dela vinha em soluços curtos, como se cada inspiração fosse um esforço contra a dor que a consumia. Era uma dor crua, um luto que não esperou o tempo passar para se instalar. Não havia mais volta. O caminho estava traçado, e ela sabia disso.

Dayse sentia como se uma parte de sua alma tivesse sido arrancada, um pedaço de si mesma que Enzo ousou entregar a outra mulher. O filho que deveria estar em seus braços agora pertencia a alguém que não ela.

Não houve resistência; pelo contrário, ela mesma facilitou a despedida. Recusando-se a amamentá-lo, a acompanhá-lo ao médico, provocando assim a ira de Enzo.

Enzo permanecia cego ao que se desenrolava bem diante de si. Dayse, por sua vez, carregava feridas que iam além da carne; sua alma também sangrava, dilacerada por dores que ninguém parecia disposto a enxergar.

Ela também precisava de ajuda, de cuidados médicos urgentes. Havia acabado de trazer ao mundo quadrigêmeos, uma gestação que sobrevivera a condições desumanas, um milagre que cobrava seu preço.

Ele, com a voz trêmula, insistiu em dizer que nada sabia sobre o que seu avô havia feito a ela. Mas agora que sabia, o que mudou? Nada. Absolutamente nada.

Enzo permanecia imóvel, paralisado por sua própria inércia. E essa inação, esse silêncio, era um grito ensurdecedor de sua fraqueza. Ele nunca fazia nada. Nunca. E, no fundo, talvez fosse isso que mais a destruía: não o que ele dizia, mas o que ele deixava de fazer.

Havia outros três que dependiam dela, e a sobrevivência deles parecia ser a única justificativa para continuar respirando.

Mas nenhuma lógica, nenhuma explicação, era capaz de calar o grito que ecoava incessante dentro dela. A memória do filho que fora forçada a abandonar era uma ferida aberta, latejante, que não cicatrizaria nunca.

Sozinha naquele quarto, com o corpo ainda sangrando e o coração despedaçado, ela se sentia menor do que nunca. Uma sombra de quem foi esmagada pelo peso de escolhas que ninguém deveria ser obrigado a fazer. E, ainda assim, ali estava ela, tentando respirar, tentando existir, enquanto o vazio ao seu redor parecia engoli-la.

Sua mente ardia como uma chama indomável, pulsando com uma força que eles jamais poderiam apagar. Eles acreditavam ter triunfado, sim, arrancaram um pedaço dela, mas não perceberam que três preciosos fragmentos de sua alma estavam a salvo. Três pequenos corações, três pulsações de amor puro, protegidos do alcance de suas garras.

E ela sabia, com uma certeza que queimava em seu peito, que um dia retornaria. Voltaria por ele, pelo que foi deixado para trás, e por tudo aquilo que ainda aguardava ser reconquistado.

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