"Ele tinha o dom de perceber o que os outros silenciavam. E era no não dito que morava a dor mais funda."
— Clarice Lispector (se Theo a tivesse lido)
...
Theo Bellucci cresceu entre colunas de mármore, pisos que não rangem e jantares silenciosos onde o luxo era abundante, mas o afeto, escasso. A beleza da mansão, o requinte da mobília e o nome Bellucci gravado em cada taça de cristal não o protegiam do frio que sentia por dentro.
Desde cedo, Theo aprendeu a decifrar o mundo pelo silêncio. Era um menino quieto, mas atento. Observava tudo — o tremor nas mãos dos adultos, as palavras que não eram ditas, os olhares desviados. Não se contentava com o que via. Ele queria entender o que faltava.
O pai, Enzo, nunca foi ausente. Mas também nunca foi presente de verdade.
Estava lá. Em corpo. Em obrigações. Em promessas cumpridas. Mas o toque afetuoso, o abraço sem hora marcada, a espontaneidade... essas eram coisas que Theo desconhecia. O amor vinha medido, como um contrato sem cláusulas emocionais.
O homem que ele chamava de pai era uma figura imponente, carregada de sombras. Theo percebia que Enzo carregava culpas que não sabia nomear — e não compartilhava com ninguém. Quando estava com o filho, parecia sempre à beira de dizer algo que nunca dizia. Como se houvesse um muro invisível entre eles, feito de arrependimentos e silêncios herdados.
A figura mais dominante em sua vida era seu bisavô, Lorenzo Bellucci. Para ele, Theo não era apenas um menino, mas o futuro da família Bellucci. Desde pequeno, foi treinado para ser forte, inteligente e calculista. Seu bisavô não tolerava fraquezas.
Foi com ele que Theo aprendeu sobre poder. Lorenzo não via nele um neto. Via um projeto. Um investimento. Um herdeiro.
— Você é um Bellucci. E os Belluccis não sangram, não tremem, não se deixam abalar — ele dizia com uma voz cortante, quase litúrgica, sempre que Theo demonstrava qualquer sinal de emoção.
As palavras do avô moldaram a forma como ele enxergava o mundo. Theo aprendeu a esconder seus sentimentos, a não demonstrar fragilidade e a analisar friamente cada situação.
Aprendeu a não chorar. A engolir o medo. A pensar antes de sentir.
No fundo, porém, o vazio crescia dentro dele como raiz em terra esquecida.
A única figura feminina constante em sua vida era Victoria, a madrasta que, aos olhos do mundo, exercia um papel quase sagrado. Era elegante, doce em público, aparentemente devotada à família. Mas Theo sabia: tudo aquilo era encenação.
Desde pequeno, ele percebia a diferença entre os sorrisos falsos e os verdadeiros — e Victoria só sorria com os lábios.
Em casa, quando Enzo não estava, ela o tratava com frieza calculada. E à medida que ele crescia, começou a notar os detalhes que ninguém mais via.
Os dedos dos pés dela, por exemplo, moviam-se com agilidade quando achava que ninguém via. Às vezes, ela se erguia por instinto ao levantar algo do chão — esquecendo que, oficialmente, era “incapaz de andar”.
Theo nunca a confrontou. Aprendeu com ela o valor do disfarce. Passou a sorrir de volta, a agradecer suas palavras duras com voz mansa. Mas dentro dele, a verdade era uma lâmina afiada, guardada no bolso.
— Você pode enganar o seu pai, mas a mim não. Sei que você não é especial como dizem. Só está aqui porque deram um jeito de você nascer — ela sussurrou certa vez, quando ele tinha apenas sete anos.
Ele não chorou. Apenas olhou para ela com um silêncio que mais tarde se tornaria sua arma mais mortal.
Com o passar dos anos, Theo se tornou um estrategista nato, desenvolveu uma mente impressionante. Memória fotográfica. Raciocínio lógico veloz. Intuição aguda. Era como se sua mente tivesse sido forjada na pressão do silêncio e da ausência.
Theo já havia entendido que Victoria fingia ter perdido todos os movimentos. E que seu pai talvez fingisse não perceber. Ou será que também era um prisioneiro das mentiras dela?
— Pai, por que algumas pessoas mentem e fingem ser quem não são? — perguntou certa noite, com os olhos fixos nos de Enzo.
A pergunta caiu como pedra em água parada. Enzo demorou para responder.
— Porque têm medo da verdade. — disse, sem conseguir manter o olhar por muito tempo.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Pele Que o CEO Não Esqueceu