"Hoje, deixei que meu nome circulasse entre os gigantes. Não como pedido de desculpas — mas como aviso."
— Diário de D.
...
O edifício da Bellucci Corporation erguia-se como um império envidraçado no coração do centro financeiro de São Paulo. Trinta andares de aço e ambição, onde as janelas refletiam não apenas o céu cinza da metrópole, mas também o legado de uma dinastia construída à base de poder, silêncio e sacrifícios ocultos.
Lá no topo, o ar parecia mais rarefeito. A sala principal, ampla e minimalista, exalava domínio e contenção. Era como o próprio Enzo Bellucci: impecável, impenetrável.
Sentado à sua mesa de mogno, Enzo percorria relatórios com olhos treinados. Cada número, cada gráfico, cada desvio percentual era lido com a frieza de quem aprendeu a prever tempestades antes mesmo das nuvens se formarem. O mercado era guerra. E ele, um general que não podia errar.
Foi nesse silêncio controlado que a porta se abriu com discrição. Carolina, sua assessora-chefe, entrou com passos firmes e olhar tenso, denunciando a urgência que trazia. A respiração contida, o tom de urgência em sua postura — algo havia mudado no tabuleiro.
— Senhor Bellucci, temos um problema — disse, sem rodeios.
Enzo não ergueu os olhos.
— Problemas são rotina. Qual o diferencial deste?
Carolina se aproximou da mesa, respirou fundo, esforçando-se para manter a calma.
— Uma concorrente nova está avançando com força nos leilões de infraestrutura ambiental. Não é só uma empresa... é uma ofensiva. É uma empresa muito competitiva ― começou ela, com um tom que misturava incredulidade e preocupação.
A rigidez na voz traía o impacto da notícia.
― Eles têm uma proposta que agrada pelo impacto social e ambiental... em pouco tempo já conquistaram contratos que antes eram nossos.
Finalmente, Enzo ergueu o olhar, a curiosidade cortando a frieza habitual.
"Nada causa mais pânico em quem subestima uma mulher… do que descobrir que ela voltou grande demais para ser ignorada.” — Diário de D.
― E quem são eles? ― perguntou, a voz carregada de uma mistura de interesse e apreensão.
Ela abriu a pasta que estava segurando, como se fosse uma carta de ameaça selada, e deslizou um relatório sobre a mesa.
— Lancaster Holdings — respondeu, colocando o nome sobre a mesa como quem pousa um nome-bomba.
O nome, Lancaster, reverberou em Enzo como um disparo abafado — rápido demais para evitar, perigoso demais para ignorar. Ele ficou em silêncio por longos segundos. Os dedos sobre os papéis.
O nome pairou na sala, carregado de um significado que Enzo sentiu antes mesmo de abrir o documento.
Por um instante, ele ficou imóvel, absorvendo o peso daquela ameaça. Já ouvira falar da Lancaster Holdings, sua ascensão meteórica, a influência crescente nos setores estratégicos. Folheou os papéis com atenção, os olhos estreitos em busca de qualquer fraqueza.
— O que sabemos sobre eles aqui no Brasil? — perguntou, a voz firme, mas tingida de uma leve preocupação.
Carolina folheou os dados com precisão, o olhar firme.
— Empresa de origem europeia, sede operacional em Split, Croácia. Expansão agressiva no Brasil nos últimos dois anos. A CEO é um mistério — ninguém a viu pessoalmente, não concede entrevistas, não tem presença em redes sociais. Tudo assinado por uma figura identificada apenas como "D. Lancaster".
"Se ele pensar em mim, mesmo por um segundo, já será um começo. Porque nomes esquecidos não voltam — mas os silenciados, sim." — Diário de D.
Enzo franziu o cenho e Carolina continuou com o relato:
― Recentemente, abriram uma filial aqui em São Paulo, com um foco claro em infraestrutura ambiental, engenharia sustentável e desenvolvimento urbano.
Ela fez uma pausa, o peso das palavras pairando no ar.
— Eles já desviaram três contratos médios de nossa alçada. E... há rumores de que estão negociando o rompimento do projeto em Belo Horizonte.
― Não podemos subestimá-los ― Carolina acrescentou, com a tensão evidente em seu tom.
Enzo fechou os olhos por um segundo. Belo Horizonte era estratégico. Um golpe ali repercutiria como dominó.
— Investigue tudo. Quero nomes, contatos, reuniões, histórico dos investidores. E quero o relatório em menos de 48 horas — disse, com a voz cortante, carregada de urgência.
― Precisamos estar um passo à frente.
Carolina assentiu e saiu, deixando Enzo sozinho com seus pensamentos. Ele recostou-se na cadeira, os dedos entrelaçados, a mente inquieta.
Horas depois, Enzo ainda estava na mesma posição. O sol havia se movido, lançando sombras diagonais sobre a mesa. Ele percorria arquivos digitais no monitor com movimentos metódicos, como se cavasse atrás de algo que temia encontrar.
Entrou no site da Lancaster Holdings. Layout sofisticado, tom sustentável, identidade forte. Mas nenhuma imagem da CEO. Nenhuma foto. Apenas o nome: D. Lancaster.
Enzo ficou ali por um tempo, olhando para o papel.
"Que ele leia meu nome com dúvida, com raiva, com medo — não importa. Que leia. Que saiba. Que sinta." — Diário de D.
Dayse Lancaster.
Não era ela.
Ele fechou o notebook com mais força do que o necessário e olhou pela janela. O vidro refletia seu rosto: firme, mas levemente abatido. Tentou voltar ao trabalho, mas a sensação de algo fora do seu controle insistia em permanecer. Sempre acreditou conhecer todas as peças do jogo, prever cada movimento.
Mas aquele nome continuava a queimar no fundo da mente, despertava ecos distantes, retalhos de memórias que insistiam em fugir de seu alcance, sombras borradas por sentimentos que ele preferia ignorar.
Enzo se recostou na cadeira, as mãos cruzadas atrás da cabeça, o olhar perdido no concreto da cidade.
Ele precisava conhecer essa mulher: D. Lancaster. Essa sim, era uma ameaça real.
Um nome entre gigantes. E, talvez, o mais perigoso de todos.
Enzo não se conformava. Por que, depois de tanto tempo, essa mulher invadia novamente seus pensamentos?
Dez anos haviam se passado desde que Dayse desaparecera, dez longos anos.
Ela nunca voltou. Nunca pediu para ver o filho. Não que ele fosse permitir uma aproximação entre os dois, mas ela podia ter tentado vê-lo de longe... mas o fato de ela nunca ter sequer tentado era só mais uma prova de sua má índole.
Enzo tentou manter a narrativa confortável em sua mente: Dayse era o tipo de mulher que foge e não olha para trás. Ele sentiu um incômodo no peito, uma inquietação silenciosa que ele se recusava a admitir.
"Deixar que pensem o pior foi parte do plano. Mas não por covardia. Foi por ele. Por eles. Por mim." — Diário de D.
Aquela menina assustada jamais se tornaria CEO de uma empresa da envergadura da Lancaster Holdings.
Mas... e se não fosse bem assim? Não importa... tenha sido por escolha ou por imposição, foi ela quem se colocou nessa situação.
Uma lembrança fugidia o assaltou — o olhar triste de Dayse quando estava partindo. Os olhos dela. A dor ali refletida nunca saiu de sua mente, por mais que tentasse afastar os pensamentos.

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