“Algumas ligações não precisam de fio. Bastam dois corações pulsando no mesmo ritmo
para que a verdade comece a atravessar o silêncio.” — Do diário de D.
...
Alguns dias depois, Dayse reuniu os filhos na sala. Com um gesto contido e uma expressão grave, quase impenetrável, entregou a cada um deles um celular simples. Enquanto isso, explicou as regras com uma voz firme — mas havia nela uma preocupação difícil de disfarçar.
— Isso não é brinquedo. É só para emergências. E nada de redes sociais sem a minha autorização. Entendido? — Seus olhos, intensos e atentos, pousaram demoradamente em cada rosto, como se quisesse gravar a resposta de cada um no fundo da alma.
— Sim, mamãe — responderam em uníssono, suas vozes sérias, quase solenes, como se participassem de um pacto sagrado.
Dayse hesitou por um instante, como se quisesse dizer algo mais, mas acabou se virando e saindo para o trabalho. Assim que a porta se fechou, o silêncio na sala foi quebrado por um suspiro coletivo. Os três irmãos trocaram olhares cúmplices, e Gael, com um sorriso travesso que iluminava seus olhos, inclinou-se para os outros e murmurou:
— Prometemos... mais ou menos.
“As promessas mais frágeis são feitas em tom de brincadeira. Mas até essas podem mudar destinos.” — Do diário de D.
Os outros dois riram baixinho, cruzando os dedos atrás das costas, como se aquele gesto fosse um escudo contra a seriedade do momento que acabavam de viver.
Sorrisos contidos se espalharam entre eles. A sala virou um quartel-general improvisado — mochilas abertas, celulares na mesa, expectativa no ar. A animação era grande, mas a brincadeira durou pouco.
O celular escondido de Theo, que Noah havia trazido às pressas do encontro no shopping, começou a vibrar, quebrando o silêncio tenso que pairava no ar. O nome na tela era desconhecido, mas todos ali sabiam exatamente de quem se tratava.
Dante, movido por um impulso quase automático, foi mais rápido. Pegou o aparelho e atendeu, tentando mascarar o turbilhão em seu peito.
— Alô? — Sua voz saiu casual, quase indiferente, mas por dentro o coração batia como se quisesse escapar.
Do outro lado, a voz de Theo veio firme, carregada de desconfiança:
— Você... era você no banheiro do shopping, não era?
Dante congelou por um instante. Uma pausa curta, mas que pareceu se estender por uma eternidade. Ele respirou fundo, buscando uma resposta que não entregasse mais do que deveria.
— Não. — A palavra saiu simples, mas carregada de tensão.
“Às vezes, mentimos para proteger quem amamos. Outras vezes, mentimos porque tememos perdê-los quando a verdade vier.” — Do diário de D.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase palpável. Então, sem aviso, a ligação foi encerrada. O som seco do fim da chamada ecoou no ambiente, deixando um vazio desconfortável.
Noah, que observava tudo com os olhos arregalados, explodiu em frustração. Num movimento brusco, arrancou o celular das mãos do irmão.
— Por que você fez isso?! — A voz dele era uma mistura de raiva e desespero. — Devia ter deixado eu atender! E se ele não ligar mais?
Dante desviou o olhar, incapaz de encarar o irmão. Ele sabia que, naquele momento, havia mais em jogo do que apenas um telefonema perdido.
Noah estava à beira das lágrimas, o peito apertado pela angústia, suas mãos tremiam levemente, como se carregasse o peso de uma ponte frágil que o conectava a Theo, uma ponte que parecia ter desmoronado antes mesmo de ser atravessada.
Dante, ao seu lado, percebeu o desespero crescente e respirou fundo, buscando uma calma que pudesse emprestar ao irmão.
— Noah, calma. Vai ficar tudo bem. — A voz de Dante era firme, mas carregava uma ternura que tentava alcançar o coração inquieto de Noah.
— Ainda dá pra consertar. Vamos ligar de volta pro número que ligou...ele vai atender você vai ver.
Ele pressionou o botão de rediscagem. Após dois toques, Theo atendeu... a voz do outro lado da linha, estava agora mais cautelosa, quase hesitante: — Alô?
Dante não disse nada. Apenas entregou o celular para Noah, que o segurou com as mãos ainda trêmulas. Era como se aquele pequeno aparelho carregasse não apenas uma ligação, mas a esperança de um reencontro, de palavras que precisavam ser ditas e ouvidas.
Noah fechou os olhos, como se buscasse coragem em algum lugar profundo dentro de si. Inspirou devagar, o ar pesado de hesitação, e então deixou as palavras escaparem, frágeis, quase quebradiças:
— Oi... sou eu. A pessoa que estava no banheiro do shopping.
“A primeira vez que reconhecemos alguém, de verdade, não é com os olhos. É com o coração.” — Do diário de D.
Theo permaneceu em silêncio, o tipo de silêncio que não é vazio, mas cheio de pensamentos que se atropelam. Ele franziu levemente a testa, como se tentasse encaixar as peças de um quebra-cabeça inesperado. E, para testar a veracidade do que ouvia, perguntou, com uma calma que escondia sua curiosidade:
— O que a gente conversou?
Noah engoliu em seco, a voz trêmula, carregada de uma emoção que parecia transbordar:
— A gente não conversou... Eu só te abracei. E você... você me deu seu celular. Disse que ia ligar.
As palavras ficaram no ar, como se tivessem ganhado vida própria. Theo não respondeu de imediato. O silêncio que veio a seguir foi longo, parecendo que o mundo ao redor tinha parado só pra ouvir o que ele diria depois.
Quando finalmente falou, sua voz tinha mudado. Não era mais uma reação automática, mas algo mais profundo, mais humano — como se estivesse tentando alcançar Noah em um lugar onde palavras comuns não chegavam.
Noah hesitou. Seus olhos vagaram por um instante, como se buscassem coragem em algum canto invisível. Então, com um suspiro que parecia carregar anos de segredos, ele respondeu, a voz um pouco trêmula:

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