Entrar Via

A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 94

"Érick"

Eu saí daquela escola me sentindo revigorado, carregando a minha filha sorrindo e com a tranquilidade de ter dado o meu recado a direção, certo de que aquele professor não se atraveria a se aproximar da Lorena de novo. Mas a paz só durou até que eu visse o rosto da Lorena. Ela tentava desesperadamnente esconder o rastro de lágrimas e a dor em seus olhos que me cortaram como navalhas.

Eu também tinha ouvido a última frase daquelas mulheres que antes estavam ao redor daquele professor e eu não precisava saber de tudo o que elas tinham dito para ter certeza de que era tudo igualmente cruel e maldoso.

A raiva que eu senti não foi como as outras, não foi aquele pavio curto aceso que explodia em cinco segundos. Foi uma raiva fria. Calculista. Uma vontade visceral de reduzir a pó qualquer um que achasse que ela era um alvo fácil. Qualquer um que pensasse que estava acima dela.

Eu coloquei a Alice no chão e segurei o rosto da Lorena. O tremor na pele dela incendiou o que restava da minha paciência, que já não era grande coisa. Quando eu me virei para o grupo de hienas vestidas de grife, a cor sumiu dos rostos delas. Elas sabiam quem eu era. Sabiam do que eu era capaz. Mas elas claramente subestimaram o que a Lorena significava para mim.

- Albelini... - Uma delas, que eu sabia bem que era amiga inseparável da Verônica, tentou sorrir, o pânico mal disfarçado em seu rosto. - Estávamos apenas comentando como a sua funcionária é... dedicada.

Eu não respondi. Dei um passo à frente, mantendo a Lorena presa ao meu corpo. Ninguém ousou dizer mais nada.

- Você é amiga da Verônica Albuquerque. E certamente todas vocês sabem do que aconteceu. No entanto, parece que vocês não aprenderam nada com a ruína deles. - A minha voz saiu baixa, quase um sussurro, que fez a mulher dar um passo para trás.

- Albelini, o que é isso, nós apenas comentávamos como ela se dedica a Alice e...

- Não tente me subestimar. Eu ouvi o que você disse sobre "lanche da tarde". Isso tudo é invejo, despeito ou um pouco de cada sentimento mesquinho que existe? - Eu a encarei e dei mais um passo em sua direção. - E olha que interessante, eu tenho negócios com o marido de cada uma de vocês. Do mesmo jeito que eu tinha com o Albuquerque.

- Érick, por favor, me perdoe, foi só um mal entendido, uma bobagem, nós... - A amiga da Verônica estava trêmula.

- Não existe mal entendido quando se trata da Srta. Valente. Que fique claro para todas vocês. - Eu a cortei, meus olhos a fuzilando. - Digam aos seus maridos para conferirem as contas das suas empresas antes do fechamento de hoje.

- Érick... - A amiga da Verônica tentou se aproximar e tocar meu braço. Eu me esquivei e a encarei deixando claro o meu desprezo.

- Se eu ouvir mais um sussurro, uma piada ou um olhar torto na direção da Lorena, eu não vou apenas processar vocês. Eu vou garantir que a única coisa que vocês vistam pelo resto da vida seja o pano de chão da casa que vocês vão perder.

Elas recuaram em bloco, o terror estampado nos rostos. Eu me virei para o fundo, onde o verme do Renato tentava se esconder atrás de uma pilastra.

- E você? - Eu apontei para ele. O professor congelou. - Não pense que eu não sei que tem dedo seu nesse circo. Amanhã, o conselho da escola receberá uma doação generosa da minha parte. Com uma única condição: o seu desligamento imediato e a cassação da sua licença por conduta antiética. Procure emprego em outra cidade, Renato. Nesta aqui, você não ensina mais nem a amarrar sapatos.

Quando eu me virei a Lorena já tinha colocado a Alice no carro e esperava por mim de cabeça baixa. Eu peguei a mão dela, entrelaçando os nossos dedos com força.

- Entendi, Érick. - Ela soltou um suspiro se dando por vencida.

- Papai? - A Alice colocou a cabeça entre os dois bancos da frente. Eu ainda tocava a Lorena e vi o tremor dos seus lábios.

- Sim, pequena? - Eu perguntei a minha filha sem desviar os olhos da Lorena.

- O bicho-papão ficou bravo porque aquelas malvadas disseram que a Lolô era um lanche? - Ela perguntou, com a testa franzida em pura confusão infantil.

- Exatamente, Alice. O papai não gosta que falem mentiras, ele vira o bicho-papão. - Eu respondi, suavizando o tom de voz.

- Eu também não gostei, papai. Lanche a gente come rápido e acaba logo. - Alice suspirou, esticando a mãozinha para tocar o ombro da Lorena. - A Lolô não é um lanche, papai. Ela é o nosso banquete, não é? Por que ela vai ficar com a gente para sempre, não vai?

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som da respiração descompassada da Lorena. Eu a vi fechar os olhos e uma nova lágrima, dessa vez de alívio, escapou. Eu sorri e sequei aquela lágrima. A forma como a Alice encarava o mundo, com os seus comparativos inusitados, sempre me pegava desprevenido.

- É isso mesmo, pequena. - Eu dei um beijo no rosto da Lorena e outro no rostinho da minha filha, liguei o motor, sentindo um peso sair dos meus ombros ao finalmente verbalizar o que estava guardado. - A Lolô é o nosso banquete. E ninguém encosta no que é nosso.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite