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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 297

"Érick"

A Lorena saiu do carro, segurando a mão daquele estranho e ortentando uma enorme barriga de grávida. O vestido de algodão leve desenhava com total nitidez, orgulho e imponência a silhueta perfeitamente arredondada do seu ventre. Ela estava grávida! E ela estava linda, exalando aquela doçura dos grandes olhos castanhos, os cabelos meio presos como ela costumava prender os da Alice. E ela estava sorrindo. Um sorriso genuíno, feliz e dócil que ela nunca mais havia direcionado a mim.

Assisti àquela cena paralisado de puro choque. No milésimo de segundo seguinte, a bomba definitiva explodiu no meu peito: aquele homem se aproximou dela de forma afável e colocou a mão espalmada, com um desvelo, um carinho e uma intimidade imensa, bem em cima da barriga de grávida da Lorena. Ela não recuou. Ela aceitou o toque daquele homem docemente.

O meu sangue congelou nas veias. Eu senti o ódio, o ciúme possessivo e o desespero psicótico que estraçalhou o meu coração no peito. A conclusão foi inevitável, como olher para um letreiro luminoso e não poder deixar de ler: a Lorena havia refeito a vida com outro homem. Ela havia me esquecido e o filho que ela carregava no ventre pertencia a ele! Por isso o Julian e a Marcelina me queriam longe, para não estragar a felicidade dela.

Eu havia acordado tarde demais para a verdade. Eu a havia jogado nos braços de outro homem enquanto me afogava na lama do meu orgulho e me agarrava a uma mentira como se fosse uma tábua de salvação. Estava acabado. Ela seguiu em frente e, pelo que eu podia ver, estava feliz. Eu a havia perdido para sempre.

Eu precisava sair dali, antes que fosse visto e tornasse tudo ainda mais difícil e doloroso. Eu dei a partida no motor em um rompante insano, cantando os pneus no asfalto, fugindo daquele lugar, me recusando a ver o paraíso que eu havia perdido. As lágrimas voltaram a escorrer dos meus olhos sem controle. Eu estava morto! Definitivamente morto!

Eu não fui para a holding e recusei a voltar para casa. Eu não queria ver ninguém. Eu não conseguiria falar sobre o que eu vi. Só tinha um lugar para onde eu poderia ir. Peguei a estrada, dirigindo como um lunático perturbado pelas curvas, e me isolei por completo na casa de pedra perto do riacho. O meu refúgio secreto e escondido nas sombras das árvores, o lugar onde eu havia me declarado dela e o único lugar daquela cidade que só a Lorena conhecia, o único lugar só meu e dela.

Eu tranquei a porta de madeira e me joguei no chão frio de joelhos, me entregando aquela dor lancinante e me isolando do resto do mundo. Por meses eu estava lidando com a bagunça que eu causei desde o momento em que recebi aquele dossiê falso das mãos da Adelaide. Eu estava lidando com os problemas da holding, com a rebeldia da Alice, com uma mulher resalmente falsa, egoísta e interesseira. Mas em nenhum momento eu pensei que a minha Fada pudesse simplesmente me esquecer e seguir em frente com outro e descobrir que isso tinha acontecido arrancou a minha alma de mim. Eu estava morto e simplesmente queria fechar os olhos e nunca mais abrir.

Eu perdi a noção do tempo que fiquei no chão e do quanto eu chorei, mas quando eu consegui me levantar e me arrastar até o sofá, a noite já tinha caído há muito tempo. Eu me tornei um fantasma me arrastando dentro daquela pequena casa, a ponto de me mover por ela sem ter consciência do que estava fazendo. Na minha mente a imagem da Lorena sorrindo, grávida, ao lado daquele homem que sorria para ela e tocava a sua barriga. Eu só conseguia pensar que não era eu.

Pela janela lateral, eu vi o sol nascer e se por. Os únicos sons eram os da mata em volta da casa e os gritos do meu pensamento. Eu fiquei inerte naquela casa, simplesmente sentindo a dor se instalar nos meus ossos, por quatro ou cinco dias... eu nem sabia.

E foi uma vozinha no fundo da minha mente que me fez despertar do torpor que a dor causou. A voz da Alice repetindo "a mágica está quase pronta". Por que eu me lembrei daquilo eu não tinha ideia, provavelmente foi o meu instinto mais primitivo me lembrando que eu precisava ficar de pé para a minha filha. Eu tinha uma filha que eu tinha negligenciado demais nos últimos tempos e isso precisava acabar, ela era o mais importante na minha vida.

Eu me agarrei a ela, me agarrei a Alice com todas as forças. Eu ainda não estava pronto para ser o apoio que ela precisava, mas eu ficaria. Eu enxuguei as lágrimas, tomei um banho e voltei para a cidade no meio da madrugada. Eu fui direto para o meu escritório na holding. Quando o dia começou a amanhecer, eu deixei sobre a mesa do Julian uma pasta com intruções para todos e uma carta para a minha mãe. Eu saí do escritório e dirigi para a escola da Alice, fui até a sala da diretora e pedi que chamasse a minha filha e nos deixasse a sós.

- Papai! - A Alice entrou e parou na minha frente. Eu estava sentado no sofá do canto da sala e a puxei para os meus braços.

- Vem cá, pequena. - Eu a apertei no meu abraço, respirando fundo para lhe explicar o que viria.

- O que foi, papai? Você está estranho. Tem dias que não vai me ver na casa da vovó e a vovó estava chorando. Você brigou com ela?

- Não, pequena, eu não briguei com a vovó. Eu só... estava ocupado. - Eu sorri e a coloquei no meu colo. - Pequena, eu vim me despedir de você.

- Se despedir?

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