POV/ SAKURA
Sky baixou os olhos para a tigela.
Levantei da poltrona e me aproximei. Inclinei-me para beijar sua testa antes de passar a mão de leve pelo ombro dela.
— Ele está sendo cuidado, Sky.
Ela assentiu devagar.
Não prometi que Rocco acordaria amanhã. Eu não sabia. Nathan também não.
Voltei para a poltrona, mas minha cabeça já tinha retornado à ligação que ele recebeu no Ambrosia. Passei distraidamente os dedos pela manga da jaqueta sobre meu colo enquanto observava as duas.
Lorenzo.
Quase um bilhão de reais.
No meio da noite.
Christian e Diego sem atender.
Nathan tinha achado estranho.
Eu também.
— Posso perguntar uma coisa?
Moon estava sorrindo para alguma coisa no celular, mas Sky levantou os olhos.
— Pode.
Hesitei por um momento antes de continuar.
— Já aconteceu alguma coisa entre a família de vocês e os Blackwood?
O sorriso de Sky diminuiu.
— Por quê?
— Curiosidade.
Ela me lançou um olhar que dizia claramente que não acreditava.
— Sakura.
Soltei o ar e me ajeitei na poltrona.
— Tá. Não é só curiosidade.
Moon também ergueu os olhos do telefone. Escolhi as palavras antes de continuar. Não queria mencionar a transferência ainda. Muito menos deixar Sky nervosa sem saber se aquilo significava alguma coisa.
— Eu sei que existe alguma coisa entre as famílias. Só nunca entendi direito.
Sky mexeu a colher dentro da tigela, misturando o chocolate ao leite condensado.
— É complicado.
— Pode resumir.
Ela respirou fundo e apoiou a cabeça no encosto.
— Meu pai desenvolveu uma inteligência artificial anos atrás. Houve problema com licenciamento, direitos sobre a tecnologia, gente querendo assumir coisas que não tinha criado... e a Blackwood entrou no meio disso. Teve processo.
Franzi a testa.
— Contra seu pai?
— Sim.
— Então os Blackwood achavam que a tecnologia era deles?
Sky passou a mão livre pela barriga antes de responder:
— A história é mais complicada que isso. Mas, resumindo muito, meu pai acabou sendo tratado como se tivesse feito coisa errada quando aquela IA era trabalho dele.
Recostei-me na poltrona.
Aquilo explicava muita coisa e, ao mesmo tempo, não explicava quase nada.
— Por isso o avô do Rocco odeia tanto vocês?
Sky deu de ombros, mas percebi a tensão em seu rosto.
— O sobrenome Bittencourt nunca foi exatamente bem recebido naquela família.
Eu sabia.
Tinha visto.
Heitor praticamente expulsou Sky da UTI enquanto Rocco estava entre a vida e a morte.
Baixei os olhos para a jaqueta em meu colo e comecei a ligar as informações que realmente conhecia.
Havia um processo antigo entre os Bittencourt e a Blackwood por causa da inteligência artificial criada por Otávio.
Heitor claramente tinha problemas com Sky e com o sobrenome dela.
Christian tinha discutido com Lorenzo e falado para o próprio pai não fazer mal a elas.
E agora Lorenzo queria movimentar quase um bilhão de reais no meio da noite, quando Christian e Diego não estavam disponíveis para confirmar a operação.
Dinheiro, processo, tecnologia e ressentimento podiam explicar parte daquela hostilidade.
Mas não explicavam tudo.
Antes que eu perguntasse qualquer outra coisa, o celular de Moon começou a tocar. Ela olhou para a tela, e a transformação em seu rosto foi imediata. O sorriso apareceu antes mesmo de atender.
Cruzei os braços e observei.
— Christian?
Moon tentou esconder a expressão.
— Talvez.
— Essa cara idiota entrega.
— Cala a boca.
Ela deslizou o dedo pela tela e levou o telefone ao ouvido.
— Oi, amor.
Revirei os olhos. Sky riu baixinho enquanto pegava outro morango.
Moon se levantou e começou a caminhar na direção do corredor.
— Também estou com saudade.
Não resisti.
— Vai fazer sexo por telefone?
Moon girou no meio do caminho, horrorizada.
— SAKURA!
Sky quase engasgou com o morango. Comecei a rir e me encolhi na poltrona quando Moon apontou para mim.
— Ué! Aproveita!

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