Naquele fim de tarde, Ema saiu mais cedo para buscar as crianças.
No caminho até a escolinha, repetia mentalmente tudo o que precisava ajustar: autorizações, rotina, documentos, segurança...
Tentava manter a mente ocupada com o prático.
Mas a mensagem de Henrique insistia em voltar.
Cartório.
Clínica.
DNA.
Quando estacionou, demorou alguns segundos antes de desligar o motor.
Respirou fundo e forçou o corpo a sair do carro.
Assim que as crianças apareceram no portão, correndo na direção dela, todo o resto pareceu recuar por um instante.
Dário segurou a barra do casaco dela.
— Mamãe, hoje você veio cedo.
Kleber completou:
— A gente achou que você ia demorar.
Érica se jogou nas pernas dela e declarou:
— Eu senti saudade.
Ema se abaixou, abraçou os três e fechou os olhos por um segundo.
Era por eles.
Tudo era por eles.
No carro, enquanto os pequenos falavam sobre o lanche da tarde e uma disputa boba por lápis de cor, Ema ouviu tudo com atenção.
Sabia que precisava guardar aquele tipo de normalidade com as duas mãos.
Porque era exatamente isso que Alípio colocava em risco.
...
À noite, depois do banho e do jantar, Érica apareceu na sala carregando um desenho.
— Mamãe, olha.
Ema pegou a folha.
Era um desenho da “família”.
Os três pequenos no centro. Ema de um lado. Givaldo do outro.
Todos de mãos dadas, sob um sol enorme e sorridente.
O peito dela apertou.
— Ficou lindo.
Érica apontou para o desenho com toda a naturalidade do mundo:
— Esse é você. Esse sou eu. Esses são meus irmãos. E esse é o papai Givaldo.
Ema manteve o sorriso por fora.
Por dentro, a palavra “papai” a atingiu de um jeito difícil de explicar.
Porque era prática. Porque era proteção. Porque era a forma como as coisas tinham sido construídas.
Mas também porque sabia que, se tudo explodisse, até isso seria questionado.
— Você gostou? — perguntou Érica, ansiosa.
Ema beijou a testa da filha.
— Gostei muito.
Mais tarde, quando os três já dormiam, ela deixou o desenho sobre a escrivaninha do quarto e ficou olhando para ele em silêncio.
Não era um documento jurídico.
Não servia como prova formal.
Mas, de certa forma, ali estava condensado tudo o que realmente importava.
Vínculo.

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