A sala da audiência era mais simples do que o peso emocional da situação fazia parecer.
Mesa central.
Computador.
Cadeiras alinhadas.
Pouca decoração.
Luz branca demais.
Nada ali estava preparado para acolher dor, medo ou história. Só para registrar, decidir e prosseguir.
Ema sentou-se ao lado de Helena. Givaldo ficou um pouco mais atrás, na condição processual que haviam combinado.
Do outro lado, Alípio se sentou com seus advogados.
Ele não olhava ao redor.
O olhar permanecia fixo, baixo, controlado.
Mas Ema sentia sua presença como se ocupasse muito mais espaço do que o físico.
A juíza entrou poucos minutos depois. Houve as formalidades de praxe, a identificação das partes e a breve contextualização do objeto do processo.
A magistrada folheou algumas páginas e disse, em tom neutro:
— Estamos diante de uma situação delicada envolvendo reconhecimento de paternidade, convivência e preservação de estabilidade de três menores. Quero deixar claro desde o início que o foco desta audiência não é punir o passado afetivo dos adultos, e sim proteger o presente e o futuro das crianças.
A frase ajudou Ema a respirar melhor.
Era, ao menos, um bom começo.
A juíza então concedeu a palavra ao advogado de Alípio.
O homem falou com eloquência controlada, sustentando exatamente a narrativa que Helena previra:
um pai que tomou conhecimento definitivo da paternidade apenas tardiamente,
que deseja exercer o direito e o dever de vínculo,
que não quer ruptura traumática, mas aproximação responsável,
que lamenta a ausência de quatro anos e busca corrigir, o quanto possível, esse vazio.
Enquanto ouvia, Ema sentia a raiva subindo como água quente.
Não porque a construção fosse tecnicamente ruim.
Mas porque era insuportavelmente hábil.

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