Naquela noite, depois de colocar as crianças para dormir, Ema não desceu imediatamente.
Ficou sentada entre as camas por um bom tempo, no chão, ouvindo a respiração tranquila dos três.
Tentava imaginar o que significaria, de forma concreta, eles serem observados em ambiente neutro, sem ela por perto.
A simples ideia já a deixava fisicamente mal.
Não porque não confiasse neles.
Mas porque sabia como a ausência da figura de segurança muda tudo para criança pequena.
Ainda mais quando há tensão no ar.
Quando finalmente desceu, encontrou Givaldo na cozinha, terminando uma ligação.
Assim que a viu, desligou e perguntou:
— Foi a Helena?
Ema assentiu.
— Eles querem observação sem minha presença.
O rosto dele fechou na mesma hora.
— Óbvio.
Ela lançou um olhar cansado.
— Você já está prevendo tudo ou está só ficando insuportável de propósito?
— Um pouco dos dois.
Apesar de tudo, ela soltou um suspiro que quase virou riso.
Givaldo se aproximou da bancada e se recostou nela.
— O que a Helena disse?
— Que vai resistir. Mas que eu preciso me preparar para a possibilidade.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois respondeu:
— Então vamos preparar essa resistência direito.
Ema cruzou os braços.
— Estou começando a odiar a frase “vamos preparar”.
— Eu sei. Mas continua funcionando.
Ela apoiou as mãos na madeira da bancada e baixou os olhos.
— Às vezes eu tenho a sensação de que, para proteger meus filhos, preciso me deixar ser desmontada em partes pequenas e controladas.
A frase saiu tão honesta que o silêncio que veio depois pareceu ainda mais denso.
Givaldo respondeu com cuidado:
— Talvez. Mas desmontar não é o mesmo que quebrar.
Ema ergueu os olhos para ele.
— Você anda cheio dessas frases.
Ele deu de ombros.
— Infelizmente, estou convivendo com muita tragédia elegante ao mesmo tempo.
Ela acabou sorrindo, breve.

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