O fato de ele ter devolvido o crachá tão prontamente surpreendeu Alícia.
Afinal, ele mantivera o passe de imprensa dela no carro o tempo todo.
Após recuperar sua credencial, Alícia acompanhou a polícia até o local do crime, enquanto seus colegas da emissora de TV também corriam para lá.
A cena do crime ficava em uma esquina de um beco, protegida por um toldo.
Dentro da faixa de isolamento, policiais montavam guarda; do lado de fora, uma multidão se espremia para ver.
A polícia, que agiu rapidamente após receber o chamado, não permitiu que ninguém mexesse na cena. As compras que Dona Maisa fizera pela manhã ainda estavam espalhadas pelo chão; aos pés de Alícia, jazia um tomate esmagado.
Ao ver aquela cesta de compras familiar, os olhos de Alícia se encheram de lágrimas.
— Quanta crueldade, matarem alguém em plena luz do dia. Essa pessoa deve ser um monstro!
— E era a babá da Família Lourenço... Esse assassino arrumou um problema enorme!
Os comentários dos curiosos ao redor chegavam aos ouvidos de Alícia.
Quando ela viu, caído no chão, metade para fora de um saco de papel engordurado, um churrasco no pão com pimentão, e ao lado um triciclo que vendia o lanche, ela paralisou.
Dona Maisa tinha ido até ali só para comprar churrasco no pão para ela.
As lágrimas de Alícia rolaram instantaneamente, e o tremor violento em seu peito quase a impedia de respirar.
Não muito longe dali, a polícia tomava o depoimento do dono da barraca de churrasco no pão.
— Isso, eu queria cortar caminho por esse beco para ir ao Mercado Leste. Ela me parou para comprar o lanche. Eu estava apertado para ir ao banheiro, mas ela insistiu em pagar mais... Ela pediu especificamente para colocar pimentão. Quase ninguém come assim, por isso lembro bem. Depois que ela pagou, eu não aguentei chegar ao mercado por causa da urgência e fui na hamburgueria na diagonal. Quando saí, ouvi dizerem que alguém tinha morrido.
O policial que anotava o depoimento imediatamente ordenou a um colega:
— Vá verificar isso.
Muitas das câmeras de segurança dentro do mercado estavam quebradas, mas havia várias lojas ao redor. Finalmente, Alícia e os policiais encontraram uma câmera na entrada de uma loja de artigos religiosos.
O dono colaborou e disponibilizou as imagens.
Vários pares de olhos fixaram-se na tela.
Até que, no meio da multidão agitada, surgiu a figura de Dona Maisa.
Alícia entrou no carro dirigido pelo segurança e voltou ao Jardim Sombrio.
Após ajudar a família a recolher os pertences de Dona Maisa, Alícia, como a senhora do Jardim Sombrio, serviu-lhes pessoalmente o almoço.
Ela também entregou a eles a compensação financeira que Kylen mandara preparar antecipadamente.
Diante da janela panorâmica do escritório, a luz do sol incidia sobre os ombros largos de Kylen. Ele fumava enquanto observava Alícia no pátio, consolando os familiares de Dona Maisa.
Atenciosa, digna e impecável.
Ele sacudiu a cinza do cigarro e disse com voz fria:
— Como você explica que alguém, supostamente de ressaca e mal conseguindo andar em linha reta, consiga garantir que cada golpe atinja com precisão a boca de Dona Maisa?
Ele não permitiu que Alícia visse o estado de Dona Maisa após a morte, mas ele mesmo entrou no necrotério para ver.
Não havia ferimentos acima do nariz em todo o rosto.
— O senhor quer dizer que aquele bêbado pode ser um bode expiatório? — A expressão de Vinicius escureceu.

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