O despertador tocou apenas uma vez e ela abriu os olhos. Com movimentos mecânicos, pegou o celular na cabeceira, abriu o discador e digitou o número de Kylen, que já sabia de cor.
Assim como na noite anterior, o telefone tocou até cair a ligação, sem resposta.
Ela discou novamente para o número de Vinicius.
Desta vez, a chamada foi atendida.
Com a voz rouca, Alícia foi direta:
— Quero falar com o Kylen.
— O Diretor Lourenço está em uma reunião muito importante agora.
— Eu quero falar com o Kylen — repetiu Alícia.
Seu tom era assustadoramente calmo, o que fez Vinicius franzir a testa do outro lado da linha.
Alícia sentou-se na beira da cama, curvada, ouvindo os passos do outro lado do telefone. Parecia ser um lugar amplo, e logo o vento uivava do outro lado da linha.
— O que foi?
A voz fria e distante do homem soou.
Lágrimas brotaram nos olhos raiados de sangue de Alícia. Quanto ódio ela sentia!
Ela respirou fundo, mas não conseguiu evitar que sua voz tremesse.
— Você quer ficar com a Yolanda? Eu realizo seu desejo. Depois do divórcio, não quero nada, exceto a casa da Mansão Ocidental. Eu quero a minha casa!
A voz da mulher, contendo o choro, começou lenta e terminou com a respiração acelerada, perdendo o controle entre dentes cerrados.
Kylen estava com metade do corpo na sombra. Ele tirou os óculos e, semicerrando os olhos, observou as nuvens cinza-escuro que se agitavam no horizonte. Seus sapatos de couro pisaram na fina camada de neve do terraço, emitindo um leve rangido.
Após um longo silêncio, ele soltou um riso de escárnio.
— Nem em sonho.
O som de ocupado ecoou no celular, ele havia desligado.
Ela olhou fixamente para a impressora, distraída. Sua mente estava uma confusão, como um novelo de lã emaranhado. Conforme as folhas A4 deslizavam uma a uma, seu coração apertava.
Passos soaram fora da sala de impressão. Outros colegas entraram para imprimir materiais, e Alícia voltou a si, pegou o acordo e retornou à sua mesa.
Justo quando se preparava para assinar o documento, a porta da sala do editor-chefe se abriu.
Lucas saiu apressado, com expressão séria e urgente:
— Acabou de ocorrer uma explosão em uma fábrica química na periferia. Os bombeiros já estão a caminho. Quem tiver disponibilidade, vá para o local agora.
— Eu vou.
Alícia enfiou o acordo de divórcio na bolsa. Sem esperar Lucas falar, abriu a gaveta, tirou de lá uma máscara preta com gestos habituais, agarrou a mochila e, com dedos ágeis, prendeu o cabelo num rabo de cavalo.
Lucas olhou para ela com preocupação.
— Tem certeza de que está bem de saúde?
— Estou ótima — respondeu Alícia de forma seca.

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