Ela caminhou lentamente pelo corredor e ergueu os olhos para o relógio digital: duas da madrugada.
Ainda faltava muito tempo para o sol nascer.
O corredor estava silencioso demais. Perto do posto de enfermagem, apenas algumas luzes permaneciam acesas, reduzindo o brilho do teto. Com a distância entre os focos luminosos, a silhueta de Alícia se alongava em sombras profundas contra a parede.
Usava sapatos de solado macio e andava sem pressa. Não havia o menor ruído.
Kylen fumava à beira da janela no canto do corredor. Assim que uma sombra longa rastejou pelo chão e tocou a quina da parede, a mão que sacudia as cinzas parou no ar. Ele ergueu o olhar na direção de onde a sombra emanava.
Os olhares se encontraram.
Mas Kylen foi mais rápido do que a percepção dela e apagou imediatamente o cigarro.
Ele o esmagou e empurrou para cima a pequena janela — que só abria pela metade — até o seu limite.
A fumaça foi devorada pela ventania lá fora.
Alícia notou então que os olhos dele exibiam um leve tom avermelhado.
A razão para que ele fumasse num canto sombrio, às duas da manhã, era a mesma de sua insônia torturante.
Ela e Kylen não possuíam mais qualquer relacionamento amoroso, mas eles compartilhavam o amor ao filho de ambos.
— Por que ainda não dormiu?
A voz de Kylen rompeu o absoluto silêncio do corredor.
O cigarro recente o deixou com uma rouquidão arrastada.
As duas sombras se misturavam na superfície do piso. Alícia o observou com quietude por alguns segundos, antes de finalmente responder:
— Não consigo dormir.
Quando toda a fumaça se desfez na noite, Kylen inspecionou o pijama de paciente, de tecido tão fino, que ela vestia e fechou rapidamente a fresta de ventilação do vidro. A estação mais rígida do ano da Cidade Linvar já havia partido, mas a ventania noturna continuava gelada.
— Vou te levar para dar uma volta lá embaixo? — Kylen tomou a dianteira mais uma vez.
Alícia nem respondeu, e ele virou o rosto para as esquinas escuras das passagens adjacentes à ala.
— Busquem casacos quentes.
— Imediato.
De súbito, a forma corpulenta e silenciosa do vigia de plantão ruiu para além do beco escuro da interseção trazendo logo em mãos não um abrigo espesso; mas dois. A Kylen cabia uma jaqueta forte para reclusões exteriores em invernos mortificados nas baixas gélidas, a contraparte frouxa ficaria envolta pela anatomia trágica, melancólica de Alícia na passagem exígua na friagem dos caminhos para a madrugada de vento insípido sob o vazio do refúgio.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Adeus, Meu Ontem!
Não tem mais capítulos???...