Ela puxou o capuz do casaco sobre a cabeça e saiu sob a garoa fina, entrando num beco caindo aos pedaços. Jogou o lixo no latão e, de repente, uma fisgada de frio aguda e lancinante atravessou seus pés, como se estacas de gelo se cravassem entre os ossos.
Baixou os olhos e só então percebeu que havia saído de chinelo. Esquecera de calçar as meias e os sapatos de tecido. Os dedos dos pés estavam sujos da água da chuva e da lama da rua, tão gelados que já tinham perdido a cor.
Ela apressou o passo e correu até o mercadinho logo adiante.
Assim que entrou, pegou cinco garrafas de água mineral, dois pacotes grandes de pão de forma, daqueles com validade de seis meses, dois pacotões de macarrão instantâneo e um pacote de lenços de papel. Depois, foi direto para o caixa.
Enquanto a caixa passava as compras, ela ligou o celular, pensando em pagar por Pix.
No instante em que a tela acendeu, uma enxurrada de mensagens e notificações de chamadas perdidas surgiu de uma vez só, preenchendo a tela inteira em silêncio.
Ela não deu atenção a nenhuma.
Mas, ao abrir o aplicativo do banco para fazer o pagamento, percebeu que todo o dinheiro que havia transferido para Henrique tinha voltado para a conta, sem faltar um centavo.
O coração dela pareceu despencar num mar negro, afundando sem parar rumo a um abismo sem fundo. Ficou ali, atordoada, incapaz de reagir.
Só voltou a si quando a caixa a chamou.
— Moça, deu quarenta e cinco reais.
Carolina saiu do torpor, abriu o aplicativo do banco e escaneou o QR Code do caixa.
Com as compras pesadas nos braços, saiu do mercadinho, tornou a puxar o capuz do casaco e seguiu sob a chuva fina, que não dava trégua.
O vento gelado, misturado à chuva, encharcou seu rosto. A pele ardia, açoitada pelo frio.
Os pés, metidos apenas nos chinelos, já estavam dormentes de tanto frio, castigados pela chuva primaveril e pela umidade cortante.
Quando voltou ao quartinho mergulhado na escuridão, largou tudo no chão, correu para o banheiro, lavou os pés com água fria, arrancou o casaco encharcado e se enfiou debaixo das cobertas.
Mas então por que ainda ligava? Por que continuava mandando mensagens no WhatsApp?
Nos últimos dias, seu coração mal começara a se acalmar de novo. Já não doía como antes, e ela realmente não queria arrancar a crosta da ferida só para esfregar sal em cima.
Ainda assim, não conseguia conter a necessidade de saber o que Henrique lhe dissera naqueles dias.
Ele estava tentando fazê-la voltar? Ou a estava xingando? Era raiva? Ódio?
Depois de hesitar por um bom tempo, criou coragem e abriu a conversa com Henrique. Havia mais de dez mensagens, todas em áudio. Desde o segundo dia depois de descobrir que ela tinha ido embora, ele vinha mandando uma mensagem ou outra, de tempos em tempos.
A mais recente era de hoje, às oito da manhã.
Os olhos se encheram d’água, e a tela à sua frente ficou turva. Com as pontas dos dedos tremendo de leve, ela respirou fundo, tomou coragem e deu play no primeiro áudio.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amar Foi Perder o Controle
Pq está dando erro na leitura do livro...
É sério . Está dando, pedindo pra acessar mais tarde, porém está cobrando dinheiro vulgo moedas, é errado isso...
Pq está cobrando moedas verso dinheiro e não estou conseguindo acessar o livro, pq dar um jeito de dar o acesso às moedas cobradas...
É possível obter o e-book completo?...