"Berta"
Foi uma noite divertida, mas nós não encontramos nada. Quer dizer, o Matheus encontrou um caderno preto, mas o tal diário não estava na casa. Depois que terminamos a nossa inspeção, nós nos sentamos para tomar um café. O dia já estava quase amanhecendo. O coitado do Matheus ainda parecia perturbado com o sonho da megera da Carmem, mas ele chegou à sala tão apavorado que nós não conseguíamos parar de rir depois que a Gabriele contou o que tinha acontecido.
- Quem diria, Carrapato, que a cobra de botox quer o seu corpinho! - A Gabriele o provocou mais uma vez.
- Ah, peste, para de repetir isso, você não percebe que eu estou traumatizado. - O Matheus choramingou. - Candi, tem mais algum lugar nessa casa que pode ter um esconderijo onde esse diário foi parar?
- Matheus, o quintal é grande e tem o quartinho de ferramentas, mas eu não acredito que ela tenho colocado lá. Talvez o porão, mas não é um lugar muito agradável e eu não me lembro de tê-la visto rondando a porta que vai até lá. - A Candinha pensou por um momento. - Mas esses lugares a Berta e eu podemos vasculhar. Só que eu estou pensando numa coisa. Dentre as coisas dela que o José Miguel tirou da casa tinha alguns móveis, será que não podia ter um esconderijo em algum? Por exemplo, ela passava muito tempo sentada naquela poltrona horrorosa do salto alto, era o lugar preferido dela na casa e ela não deixava nem a mãe sentar lá. Certa vez a Carmem queria mandar trocar o forro daquilo, porque estava desgastado já, mas a Cora deu um show e disse para a mãe não tocar nas coisas dela. Nesse dia as duas brigaram feio e foi poucos dias antes da Cora morrer.
- Eu tinha me esquecido dos móveis dela, Candi! Ainda bem que eu sei para onde foram doados. Vou até lá, com sorte ainda estão no bazar ou sendo usados no lar. E vocês procuram no porão e no quintal. - O Matheus decidiu. - Berta, você está vigiando a Carmem pela câmera?
- Você deve ter encontrado o remédio. Foi aquele traste do Dr. Mauro que trouxe. Eu vi quando ele colocou no bolso dela, mas eu me fiz de boba. Ela acha que o José Miguel está na sua casa, ia reclamar disso, mas o médico foi embora depressa, acho que ele está se cansando dela. Depois eu a vi mexer no frasco pela câmera. Pode ficar tranquilo, eu já joguei o remédio fora e coloquei água no vidro. - Eu expliquei.
- Estranho ela pensar que ele está comigo, ela sabe que ele tem o apart. E você já sabe o que ela pretende? - O Matheus quis saber.
- Acho que ela quer me fazer dormir para escapar. Mas não sei em quem mais ela quer usar aquilo, por isso eu joguei fora e coloquei água. Tati, trouxe o que eu te pedi? - Eu olhei para a Tati que sorriu graciosamente.
- Vocês são as pessoas mais divertidas que eu conheci na vida! - A Tatiana riu. - Aqui, Bertinha, você sabe como funciona.
- Minha urtiguinha vai pensar que colocou o remedinho no lugar errado! - Eu sorri. Se aquela insuportável achava que poderia me dar a volta de novo, ela estava enganada. - Matheus eu te encaminhei o trecho do vídeo. Eu ia te ligar depois que ela dormisse, mas você ligou para a Candinha, então eu esperei para te contar pessoalmente. Ela ligou para um tal de Leon.
- Leon? - A Gabriele me encarou. - Não, não é possível ser o mesmo cretino. Ou é? - Ela olhou para o Matheus.
- Olha, eu não sei quem é, pensei que fosse um detetive, porque ela perguntou se ele tem "visto os dois" e "quantos irmãos ela tem". Mas ela falou no final algo como "é por isso que você a quer de volta". Então pode ser um ex namorado, mas de quem também eu não sei. Só sei que é ele quem vai ficar esperando por ela amanhã na esquina. - Eu expliquei e o Matheus riu.
- Só pode ser aquele cretino! Mas ele vai ter uma surpresinha. Berta, depois que a invocação do mal dormir, você vigia a esquina, sem ser vista, e me avisa quando o idiota estacionar. - O brilho no olhar do Matheus era de quem estava tendo alguma idéia.
Depois que o Matheus, a Gabriele e a Tatiana foram embora, a Candinha e eu organizamos o café da manhã e fomos descansar um pouco. Eu já estava acostumada a dormir pouco e sabia que a megera ia acordar um pouco mais tarde, mas eu também sabia que ela acordaria com a leve suspeita de que algo tinha acontecido, porque enquanto a Tatiana aplicava a medicação ela quase acordou e talvez tenha visto a Tatiana no quarto. Mas eu estava pronta para dizer que foi tudo um sonho ou um delírio, assim como estava curiosa para ver os efeitos das brincadeirinhas do Matheus e foi por isso que eu fiquei grudadinha na minha nova programação preferida.
Quando a megera acordou a expressão dela ao sentir o perfume do Matheus foi de desgosto. Ela praguejou e jogou as cobertas longe. Então ela se sentou na cama, calçou os chinelo e se levantou, mas quando tentou dar o primeiro passo ela caiu, de cara no chão, talvez ficasse roxo. Eu estava rindo quando ela entrou no banheiro e começou a gritar, agora eu tinha que esperar até ela sair do quarto.
- EU NÃO SOU SONÂMBULA! QUE INFERNO! - Ela foi bufando até a sala e pegou a agenda de telefones, pegou o celular e discou um número. - Preciso dos seus serviços agora! - Ela falou e passou o endereço.
- Vou mandar trocar a chave daquela porta e vou colocar uma tetrachave também, quero ver depois disso! - Ela andou se coçando até a mesa e se sentou. - Depois do café, Cândida, mande a faxineira limpar o meu quarto e trocar a roupa de cama, inclusive o edredom. Está com o perfume daquele demônio de novo.
- Fede a enxofre? Talvez a gente deva chamar o padre, Urtiguinha! - Eu a provoquei e ela grunhiu.
- É pior do que enxofre! Fede a Matheus Bittencourt! - Ela reclamou e mordeu uma fatia de bolo.
- Ih, isso está parecendo paixão recolhida, hein, Urtiguinha, daquelas que mexem com a gente, aquela que é difícil esquecer. Até lembrei da música, aquele cantor que tinha um vozeirão, sabe qual? Aquela assim "deixa o coração te seduzir, não dá mais pra disfarçar, deixa o sentimento"...
- CALA A BOCA, INÚTIL! - Ela bateu a mão na mesa irritada. - Que coceira infernal...
- Isso é estresse, Carmem, você anda nervosa demais. Quer um cházinho? - A Candinha perguntou e o olhar de ódio da Carmem poderia matar alguém.
Ela passou a manhã inquieta, ansiosa, com sorrisinhos, enquanto eu fingia que era só mais um dia e tagarelava qualquer bobagem atrás dela, só porque eu sabia que a irritava. Ah, o meu dia estava tão divertido!

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...