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Amor irresistível: O segredo do chefe romance Capítulo 150

"Eva"

Eu já estava há três dias nesse lugar no meio do nada, cercada pela natureza, grilos e muitos mosquitos. Nesse lugar onde a vida parecia passar diferente, quase em câmera lenta. Até o sinal de celular era praticamente inexistente e, ainda que fosse possível, em algum lugar no meio daquelas árvores conseguir algum sinal, o meu celular estava ainda sem bateria no fundo da bolsa e eu não sentia a menor vontade de trazê-lo de volta a vida. O rio passava calmo e constante alguns metros abaixo da pequena casa e o canto dos pássaros era um lembrete de que ali, embora quieto, silencioso e no meio do nada, havia muita vida.

E naquele silêncio que parecia gritar mais que um centro urbano apinhado de gente, além das poucas palavras que eu trocava com o Elias quando ele não estava no rio, eu estava sozinha com os meus próprios pensamentos e eles eram ensurdesedores.

- Você está bem? - O Elias apareceu molhado e com as botas sujas de barro na pequena varanda onde eu estava sentada na mureta com as pernas esticadas e segurando uma caneca de café.

- Não. - Eu respondi sincera demais depois de um longo suspiro. - Esse lugar me deixa nervosa.

- A moça da cidade não aguenta uns diazinhos na paz do campo? - Meu irmão falou num tom zombeteiro e deu uma risada.

- O problema não é a paz do campo, são os ruídos na minha cabeça. - Eu declarei e tomei um gole do café. Ele se aproximou e tirou a caneca das minhas mãos. - Acho que você precisa de um banho.

Eu observei o sorriso preguiçoso no rosto bonito do meu irmão, ele quase nunca sorria e ele tinha um sorriso de tirar o fôlego, talvez porque o sorriso dele fosse tão raro e dado apenas com total sinceridade. Ali naquela varanda, onde o sol do final da tarde tinha um brilho muito mais dourado e límpido que o de uma barra de ouro, seu rosto estava iluminado pela luz radiante do dol e pelo sorriso que certamente fazia corações palpitarem.

- Sim, eu realmente preciso de um banho. - Ele concordou olhando para si mesmo. - Eva, nós podemos voltar quando você quiser. Um conhecido meu veio até o rio hoje, eles já foram embora.

Eu demorei por um momento com aquela informação. Eles já tinham ido embora. Eu sequer valia a briga ou o esforço para jogar na minha cara que eu não prestava? Eu era tão insignificante assim? Uma sombra cobriu o meu peito como se uma tempestade estivesse se instalando ali, outra tempestade, porque eu queria pelo menos que ele gritasse comigo e me ofendesse, para que eu tentasse odiá-lo. Eu queria pelo menos... a quem eu enganava? Eu ansiava que ele me ouvisse e que acreditasse em mim. Eu queria que as coisas entre nós pudessem ser resolvidas. Talvez o suspiro que eu dei tenha dito mais do que qualquer palavra que eu usasse, porque os olhos do meu irmão cravaram em mim por mais tempo que o necessário, como se me escrutinassem.

- Vai tomar um banho, eu recolho tudo. - Eu me levantei depressa e comecei a juntar todas as nossas coisas. Se eu ficasse mais um dia naquele silêncio, eu ficaria louca.

Quando eu vi aquela casinha ficando para trás, eu pensei que talvez eu pudesse voltar para casa e só seguir em frente sem nunca mais ver o José Miguel, que talvez ele já tivesse ficado para trás, como aquela casinha. Meu filho era meu, eu não seria nem a primeira e nem a última mulher a criar o filho sem um pai. Talvez eu devesse ligar para a minha mãe e descobrir como as coisas estavam. Eu não podia passar o resto da vida com a cabeça enfiada na areia.

Eu não sei em que momento eu peguei no sono, um sono profundo e sem sonhos, só a exaustão de dias lidando com o turbilhão de sentimentos que estavam me consumindo, mas quando eu acordei as luzes da cidade brilhavam a minha frente e eu sentia que tinha dormido mais do que o tempo que levava a curta viagem do sítio até a cidadezinha onde meus irmãos moravam. Foi só quando o meu irmão parou no primeiro semáforo da cidade que meus olhos piscaram em reconhecimento.

- O que você fez? - Eu perguntei baixo, sem acreditar, olhando para frente, sem conseguir encará-lo.

- Te trouxe de volta. Já chega, Eva! Vamos parar de fugir dos problemas e encarar a realidade. Você e eu. Olha o que eu consegui indo pelo caminho fácil, o caminho sem conflitos. Eu me casei com a pessoa errada e estou enfrentando um divórcio complicado, porque eu tive medo de encarar a briga. Então vamos parar de agir como covardes e vamos começar a limpar a bagunça que fazemos. - As palavras do Elias cortaram o ar como uma faca quente na manteiga, deslizando fácil entre nós, porque eram a mais pura verdade.

- O que você quer dizer com isso, Elias? - Minha mente era um borrão e as lágrimas já embaçavam os meus olhos, mas ele não ia facilitar para mim, não dessa vez.

- Ótimo! Eu serei o seu motorista e garantirei que você não mude de idéia. - Ele virou a esquina pegando o caminho para a nossa casa.

Quando nós entramos, nossa mãe quase congelou de surpresa, ela não esperava por nós, mas seu olhar se suavizou para mim e ela me deu aquele abraço de quem fica feliz com o seu retorno. Depois de trocarmos umas poucas palavras eu fui para o meu quarto, estava realmente cansada e com muito sono.

Assim que eu entrei no meu quarto eu fiquei um pouco confusa, alguma coisa estava fora do lugar ali, como se alguém tivesse usado o meu quarto, e havia um resquício de um perfume no ar, algo amadeirado, com um toque terroso, algo como o cheiro dele.

- Você está muito louca, Eva! Tão louca por esse homem que sente o cheiro dele no seu quarto agora. - Eu murmurei para mim mesma.

Eu deixei a minha mala no canto e fui direto para o banheiro, eu precisava de um banho para tirar aquele cheiro de natureza extrema de mim, definitivamente eu era uma mulher totalmente urbana! Mas ao passar pela minha penteadeira eu notei a ausência do porta retrato, minha mãe insistia em deixar aquela foto ali, mas... eu passei os olhos pelo quarto e o vi sobre a mesinha de cabeceira. Eu não pude deixar de sorrir, a D. Marta estava sempre mudando as coisas de lugar.

Eu tomei um banho, coloquei o meu pijama e me jogei na cama, eu só queria dormir, mas quando eu me deitei, o cheiro me atingiu outyra vez, muito mais potente agora, era como se ele estivesse ali, parecia tão real, como se o perfume dele estivesse na minha cama. Naquele momento eu entendi o que significa memória olfativa. Provavelmente o meu cérebro estivesse me pregando uma grande peça pelo fato de eu ter decidido que estaria frente a frente com o José Miguel no dia seguinte.

Eu sentia o cheiro dele, mesmo que não fosse real, mas eu sentia, e isso me atingiu com algo que atiçou a brasa dolorosa no meu peito e as lágrimas começaram a cair outra vez. Eu abracei o travesseiro e deixei o choro cair até me exaurir, até que o sono me embalou e eu adormeci. Em algum ponto da noite, meio que exausta, meio que entorpecida, um sonho me levou de forma quase realista, eu senti o colchão se afundar ao meu lado, senti o calor nas minhas costas e o peso de um sonho bom sobre o meu corpo. Aquele cheiro estava lá de novo. Eu nem abri os olhos, eu me aconcheguei mais na cama e deixei aquele sonho das noites ao lado dele me levar outra vez para um sono profundo, mas muito mais tranquilo.

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