"José Miguel"
Claro que era pedir demais que a Carmem ficasse calada e não armasse outro escândalo. Assim que ela se deu conta de que eu não estava brincando, ela começou outra vez.
- O que é isso? PAREM! PAREM COM ISSO! VOCÊS ESTÃO PROFANANDO O TÚMULO DA MINHA FILHA. - A Carmem começou a gritar e o Dr. Romeu fez sinal para os seguranças do cemitério que estavam acompanhando tudo. - Me soltem! José Miguel, você não pode fazer isso!
- Sim, Carmem, eu posso, porque eu sou o titular do túmulo e porque, quando a sua filha morreu, ela estava casada comigo, além do mais, eu registrei os bebês, entao tenho autoridade o suficiente para pedir a exumação dos restos mortais deles, destruir essa escultura decadente, pedir que sejam cremedos e enviados ao columbário. E é todo esse ritual que nós vamos assistir aqui hoje, quanto a isso você não pode fazer nada. - Meu aviso foi claro e o olhar de choque da Carmem foi dramático.
Ali ao lado o Matheus colocou para tocar de novo a música e assoviava alegremente o refrão. A Carmem fervia de raiva, ódio puro brilhando em seus olhos enquanto cada pedaço de granito era retirado daquele túmulo. Mas no momento em que os restos mortais começaram a ser retirados da sepultura, os olhos da Carmem marejaram e os lábios tremeram, até o Matheus teve o bom senso de desligar a música e ficar sério.
Quando os pequenos ossinhos dos bebês foram tirados a dor perpassou o meu coração. Eles nunca tiveram chance, sendo biologicamente meus ou não, não importava porque o meu coração doía por eles e eles nunca tiveram chance. Uma lágrima escorreu dos meus olhos por trás dos óculos escuros e a Eva deu um leve aperto em minha mão, me lembrando que ela estava ali comigo. E, no momento seguinte, quando começaram a remover os restos mortais da Cora eu dei as costas.
- Vou esperar no crematório, doutor. - Eu saí dali, acompanhado pela Eva, o Matheus e a Gabriele, eu não suportava sequer olhar para os ossos da Cora, não depois de tudo o que eu havia descoberto.
Nós quatro nos sentamos na recepção do crematório e esperamos em silêncio. Eu não pensei que aquilo seria tão difícil, mas foi, foi como cutucar uma velha ferida que parecia cicatrizada por fora, mas ainda ardia por dentro. E foi difícil porque agora eu sabia o que realmente tinha matado os meus filhos, porque agora eu sabia que a vida deles foi tirada pela própria mãe.
O advogado entrou e atrás dele vinha a Carmem seguida pelos seguranças, os olhos dela estavam vermelhos, mas o choro dela agora era de raiva, não havia um pingo de pesar pela morte da filha, apenas uma raiva afiada como lâmina. Ela parou a dois passos de mim.
- Você não tem perdão! Profanar o túmulo da sua esposa e dos seus filhos... você vai arder em culpa e sofrimento. - A Carmem praguejou.
- Carmem, basta! Minha decisão foi tomada e está feito. Se quiser acompanhar isso até o final fique quieta e calada ou os seguranças vão acompanhá-a até a saída! - Eu respondi frio, sem demonstrar nenhuma emoção na voz, mas eu queria gritar na cara dela que eu já sabia de tudo, dizer o quanto eu a odiava e odiava a Cora, mas eu me contive, porque naquele momento a idéia do Matheus em dar uma festa parecia para mim realmente muito boa.
Aquilo levou o dia todo e graças ao traquejo do Dr. Romeu o cemitério entregou as cinzas no columbário no final da tarde. Nós havíamos saído do cemitério, nos sentamos em um restaurante e passamos o tempo ali. Eu tentei focar no presente, no futuro que se apresentava para mim, mas era impossível naquele dia que eu não me sentisse em luto, mas era um luto diferente agora, não havia culpa, apenas um lamento pela perda dos meus filhos de forma tão trágica.
Por um momento eu precisei me afastar e ligar para o Nelson. Como sempre ele tinha o jeito certo de me acalmar e de me fazer perceber as coisas sem o véu da amargura e da culpa. Eu me senti muito mais tranquilo depois de falar com ele e pronto para enfrentar a parte final daquele dia.
No fim da tarde, quando voltamos ao cemitério, os funcionários já nos esperavam no columbário. As urnas com as cinzas foram colocadas naquele pequeno nicho juntamente com uma placa com os nomes "Cora Carvalho Rossi", "Caio Carvalho Rossi" e "Cecília Carvalho Rossi" e o vidro foi instalado. Não havia nada mais ali, apenas as urnas e os nomes e bastava.
Eu me aproximei, fiz uma prece silenciosa e o meu coração se despediu dos gêmeos. Eu estava soltando as mãozinhas deles, ou talvez eles estavam soltando as minhas, mas eu estava deixando que eles realmente descansassem em paz à partir daquele momento. Eu não pretendia mais voltar ali, porque eu sabia que eles não estavam mais ali, nunca estiveram e, mesmo que eu não fosse assim tão religioso, eu acreditava que existia um céu feliz onde eles podiam brincar na companhia dos anjos e estavam acolhidos com amor.
Quando eu terminei, eu me virei para a Eva, que me deu um sorriso doce e cheio de amor, apoio e compreensão. Eu apertei a sua mão na minha, eu jamais a soltaria e eu estava feliz por ela estar ao meu lado nesse dia que foi tão difícil. Eu agradeci aos funcionários e me virei para agradecer ao advogado. Depois me virei para a Carmem e a encarei.
- Você pode vir aqui chorar seus arrependimentos todos os dias se quiser, mas essa foi a última vez que eu me coloquei diante do túmulo deles e não é porque eu não tenha amado esses bebês, mas sim porque eu preciso deixá-los ir em paz. - Eu falei com a voz fria, não porque ela merecesse alguma explicação, mas porque eu queria deixar claro que eu tinha realmente seguido em frente.
- Matheus, esquece isso! Seja qual for o DNA, aqueles gêmeos estão no meu coração como meus. - Eu expliquei a ele e ele sorriu tranquilo.
- Eu sei! Mas, mesmo sabendo que você sempre os guardará no coração como filhos, até porque eles eram anjinhos inocentes, você merece a verdade e não uma dúvida eterna que um dia possa te atormentar. Aliás, não entendo mesmo porque você nao quis aproveitar a exumação para fazer um exame de DNA, era só retirar um fragmento de osso. - Ele me encarou em dúvida.
- Por dois motivos, o primeiro é que realmente não faz mais diferença, eu amei esses bebês, eu chorei por eles e eu vivi um luto doloroso por eles, pronto, está feito. E o segundo é porque eu não queria arrancar a diversão de você, eu sei o quanto você gosta dessas confusões que arranja e encontraria outro motivo para revistar o consultório do Mauro.
- Amigo, você me conhece! - Ele declarou solenemente com a mão no meu ombro, então se virou rindo e foi embora.
- E agora? - A Eva perguntou ao meu lado.
- Só quero ir pra casa, tomar um banho, comer alguma coisa e cair na cama com você. - Eu declarei.
- Então vamos, amorzinho que hoje eu vou te bagunçar! - Ela declarou, tirou a chave do carro das minhas mãos e abriu a porta do carona fazendo sinal para que eu entrasse. Quando ela se sentou ao volante eu estava rindo.
- Isso promete! - Eu declarei e ela riu nos tirando daquele lugar onde eu não pretendia voltar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...