"Tatiana"
O Michel destrancou a sala do Mauro e nós entramos. Ele era uma boa pessoa, eu sabia que a enfermeira novata estava dando em cima dele e ele estava sendo mais gentil do que deveria e eu também sabia que ela não desistiria. Então eu cortei o mal pela raiz, já que ainda não éramos nada tão sério, era melhor terminar antes que ele plantasse os chifres na minha testa. Eu já tinha experimentado isso uma vez e não estava disposta a facilitar de novo.
- Muito bem, vamos começar. - Eu falei assim que fechei a porta atrás de nós e dei um pár de luvas para cada um dos rapazes.
Num segundo os rapazes dividiram a sala e se espalharam, cada um responsável por um canto. Enquanto o Érico se sentava e, com habilidades pouco convencionais, acessava o computador do Mauro, o Edson ficou com uma metade da sala que ia até a mesa de trabalho e o Zangado ficou com a outra parte.
Eu olhei por um momento os três homens, um mais bonito que o outro e, embora se parecessem bastante fisicamente, tinham personalidades completamente diversas. O mais velho tinha os cabelos já ficando grisalhos e um olhar experiente que suavizavba um pouco quando sorria. A barba farta e bem aparada que cobria o rosto, não estava ali porque estivesse na moda, era só um sinal de masculinidade e maturidade. O completo oposto do rosto delicado e completamente barbeado do mais novo, que ainda tinha os cabelos ainda totalmente pretos e um brilho divertido e despreocupado no olhar.
Mas o do meio era um caso à parte, toda a sua postura irradiava tensão, seus olhos lampejavam um brilho como se gritassem "afaste-se" e o seu mau humor era a coisa mais charmosa que eu já tinha visto, porque ele lutava para continuar parecendo irritado, mesmo quando algo o divertia. Eu percebi isso enquanto cantava "Bad Romance" no carro e notei no canto dos olhos, que ele revirava vezes demais, duas marquinhas que traíam a sua expressão de falso mau humor, quase como se os olhos dele sorrissem enquanto ele reprimia um sutil levantar dos cantos dos lábios.
Mas além daquela postura de "menino mau", meio brusco, talvez com atitude demais, ele também era um homem lindo, tão alto e forte quanto os irmãos. A barba parecia por fazer, como se fosse um descuido, quase como se ele quisesse demonstrar uma falta de vaidade que o resto dele não transmitia, e combinava com a postura dele, com o rosto perfeito e aquele nariz afilado. Seus olhos eram como dois poços escuros que atraíam para a beirada como se fossem te engolir. E as suas mãos grandes, com dedos longos, não tinham nada de delicadas e, enquanto ele abria e fechava gavetas e portas revirando papéis sem cerimônia, como se o pertencessem, eu me perguntava se ele tinha aquela mesma atitude resoluta, firme e abusada com as mulheres.
- Vai ficar só olhando, Estrela do Plantão? - O Elias resmungou sem nem se virar para mim.
Eu me levantei e comecei a ajudar nas buscas. Duas horas depois e nós ainda não tínhamos encontrado nada. Nos sentamos os quatro exaustos nos sofás e nos encaramos.
- Isso era para ser rápido! - O Elias reclamou, mas ele tinha razão, quanto mais tempo passávemos ali, maiores eram as chances de sermos pegos.
- E se esse cara não guardou nada? - O Érico sugeriu, mas para alguém como o Mauro, que era amigo de gente como a Carmem, guardar provas significava se manter seguro.
- Não, ele guardou. Ele é incompetente, mas não é burro. E tem que estar aqui ou por que ele manteria essa sala trancada? Apenas o Michel tem a chave e mesmo assim ele só conseguiu depois de três anos bajulando o Mauro. Até a faxineira, só entra aqui se o Dr. Mauro está. Um dia eu a vi reclamando que já estava cansada de ser vigiada enquanto trabalhava e ele não a deixava fazer o serviço direto, nem o lixo ele... - De repenbte uma idéia me passou pela cabeça. - Ah, cretino esperto! Vai, Zangado, pega o lixo infectante.
- Enlouqueceu de vez, Lady Agulha? Quer que eu enfie a mão em lixo infectante? Existe uma coisa chamada protocolo de segurança, sabia? E até eu, que não sou da área da saúde, sei que não se mete a mão em lixo infectante! - Ele reclamou e eu bufei.
- Relaxa, Zangado. Eu tenho certeza que lixo é tão falso quanto o diploma do Dr. Mauro. Agora seja homem, você está de luvas, enfia a mão lá e veja se tem um fundo falso. - E quando eu falei do diploma eu tinhe outra idéia. - Érico, me ajuda, pega o diploma de três reais na parede. Edson, procura um fundo falso na gaveta de amostras de remédios.
Enquanto o Elias tirava o saco de lixo da lixeira, o Érico me entregou o quadro do diploma e eu o virei, estava lá! Bem pregada atrás do quadro com fita, uma pasta até grossa. Eu caminhei até a mesa, peguei o estilete e cortei a fita cuidadosamente e abri a pasta.
- Te pegamos, "Dr. House da Shopee"! É o prontuário da defunta. - Eu ergui a pasta sorridente.
- Merda! Tem um fundo falso mesmo. - O Elias se ergueu do lixo segurando um caderno com capa de couro preta. - É um caderno de anotações. Tem os nomes da Cora e da Carmem repetidas vezes.
- Tati, a gente... - Ele começou e eu sabia a a choradeira que viria.
- Michel, não! Nós tivemos um lance legal, mas você pisou na bola e acabou. Vamos ficar amigos e está tudo certo. - Eu fui firmne, de jeito nenhum ia ser feita de trouxa de novo.
Nós saímos do hospital do mesmo jeito que entramos e quando eu me sentei ao lado do zangado no carro ele tinha uma ameaça de um sorrisinho no rosto.
- Você foi má com ele. - Ele falou enquanto colocava o cinto.
- Você nunca foi traído não é, zangado? - Eu perguntei e ele me olhou sério.
- Não, já mentiram pra mim, mas traído nesse sentido de a outra pessoa se envolver com um terceiro, não. - Ele respondeu de um jeito bem sombrio.
- Então você não vai entender porque eu corto o mal pela raiz. - Eu respondi e ele bufou e olhou pelo retrovisor antes de sair com o carro da vaga.
- Talvez eu entenda mais do que você pensa! Liga o rádio, Lady Agulha! Só não coloca Lady Gaga de novo. - Ele me fez rir. Eu não coloquei Lady Gaga, mas o Érico e eu cantamos "Like a Virgin" com os braços erguidos como se estivéssemos em um show, até o Edson cantou e algumas vezes o Zangado nem conseguiu esconder o sorriso.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...