"José Miguel"
Eu tinha uma consulta marcada com o Nelson esta manhã. Depois de toda a intensidade que eu vivi no cemitério no dia anterior, uma conversa com ele me faria bem, mesmo que a Eva tenha se encarregado de tornar a minha noite mais leve com aquele filme bobo que ela insistiu em ver enquanto massageava os meus ombros e me dava os beijos mais amorosos.
Eu a deixei na casa da mãe dele esta manhã e, enquanto aguardava na sala de espera do Nelson, eu estava pensando sobre a idéia do Matheus de comprar uma casa. Eu queria estar perto dela todos os dias, queria acompanhar cada momento da gravidez e ajudá-la com o nosso filho, mas para isso eu precisava de mais que um apart. Isso precisava ser resolvido.
O Nelson me chamou e nós passamos a hora seguinte falando sobre os últimos acontecimentos, como sempre, falar com ele me trazia uma clareza de pensamento que eu não tinha há muito tempo. Era um verdadeiro alívio na verdade, poder falar tudo o que eu estava sentindo sem ser julgado, ouvir conselhos que realmente me ajudavam a melhorar e até ouvir a mim mesmo.
- Nelson, você deve ser algum tipo de bruxo. Incrível como eu me sinto melhor, mais calmo e capaz de tomar decisões melhores depois de falar com você. - Eu comentei com um sorriso no rosto ao final da nossa conversa e ele riu.
- Mas o que é isso, acha que eu estou enfeitiçando você com palavras mágicas? - Ele brincou.
- É bem por aí! - Eu confirmei e ele riu. - E pensar que tudo começou tão por acaso. - Eu me recordei daquele dia na capela do hospital e então eu me lembrei de algo que eu já havia me esquecido há muito tempo. - Nelson, você poderia verificar um exame pra mim?
- Um exame? Claro. Você está bem? - Ele me olhou curioso.
- Sim, eu estou bem. O exame não é meu. É da Carmem, daquele dia em que nos conhecemos no hospital. Quando eu cheguei ao quarto dela a enfermeira comentou que a dose de remédio que ela havia tomado era inofensiva e me mostrou o exame. Ela me permitiu fazer uma foto com o celular. Eu confesso que isso tem me incomodado.
- Me deixe ver. - Ele pediu.
Eu abri o arquivo e passei o celular para ele. O Nelson olhou atentamente o exame e riu ao me devolver o celular.
- O que o médico dela te disse? - O Nelson quis saber, um sorriso brilhava divertido no rosto dele como se já prevendfo o que eu responderia.
- Que ela quase morreu. Que tomou comprimidos suficientes para que mal tivesse tempo de ser socorrida e que foi uma grande sorte que ela foi encontrada e levada ao hospital a tempo.
- E quem a socorreu?
- Uma pessoa da minha total confiança. Ela ligou para o médico e ele enviou a ambulância.
- José Miguel, sem medo de errar eu te digo que essa dosagem desse remédio apenas a colocou para dormir, um sono agradável e reparador. Isso jamais a materia. Me atrevo a dizer que essa dose foi calculada, provavelmente orientada pelo médico. Eu conheço a reputação do médico dela e, sinceramente, não é das melhores.
- Eu fui feito de bobo! - Eu bufei, mas aquilo nem me surpreendia. - Como eu pude ficar cego por tanto tempo, Nelson? Essa mulher e a filha dela me dominaram, me manipularam, me infernizaram e tudo com o meu próprio consentimento. Como eu permiti isso? Como eu não percebi?
- Me desculpe, senhor, o doutor tem o péssimo hábito de se meter onde não é chamado. - A resposta dela era direcionada a mim, mas parecia mais uma indireta para o médico. - Eu cobri uns plantões no outro hospital. E sim, me lembro do senhor. Soube que contratou a Berta.
- Sim e eu queria te agradecer, a Berta tem sido maravilhosa. - Eu respondi e ela sorriu gentil.
- Fico feliz que tudo tenha dado certo. - Ela repsondeu no momento em que o elevador abriu as portas novamente e nós saímos. - Bom, eu preciso ir. Foi um prazer vê-lo.
- Tatiana, muito obrigado, por ter me mostrado aquele exame e me tranquilizado e por ter me indicado a Berta. Você não tem idéia da diferença que fez na minha vida.
- Não há o que agradecer, foi um prazer ajudar. - Ela sorriu de forma profissional e se virou. Eu observei ela dar dois passos, mas eu tinha que dizer mais uma coisa.
- Tatiana. - Eu chamei e ela se virou. - Aquele hospital, não é o tipo de lugar que você quer no seu currículo. - Eu me sentia na obrigação de alertá-la, afinal, ela tinha sido muito gentil comigo.
- Eu percebi, senhor. - Ela abriu um grande sorriso. - Eu já não dou plantões lá! - Com isso ela se virou e disparou pelo corredor em um caminhar apressado. Eu ri, qualquer um diria que ela tinha pressa em se livrar de mim.
Eu saí do hospital e fui em direção ao meu carro no estacionamento, mas enquanto eu caminhava uma coisa estalou na minha mente, uma ligação imporvável, afinal, quais eram as chances? Não, não podia ser a mesma pessoa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...