"José Miguel"
A Eva e eu voltamos para a sala do Matheus e aquilo fervilhava como se ele estivesse dando uma festa, parecia antinatural para aquela sala sempre tão agradável, reconfortante e silenciosa. E eu sabia que estava assim por mim, o que me fez sentir um pouco culpado por invadir o espaço dele com todo o caos que a minha vida estava.
- Bertinha eu ainda não entendi, como você colocou o remédio no energético da cobra de botox essa tarde? - A Gabriele perguntou ainda rindo.
- Ah, isso foi fácil. Quando ela pediu para comprar o energético, nós compramos aqueles de garrafinha. Aí foi só ter paciência de remover todo o energético com a seringa e colocar guaraná no lugar e depois eu coloquei as gotinhas com a seringa também. Porque a gente não quer matar a Urtiguinha, não é?! É só um soninho reparador e não dá pra misturar o remedinho com energético. - A Berta explicou e a Gabriele caiu na risada.
- Ai, gente, e a louca nem se deu conta que estava tomando guaraná. - A Gabriele estava rindo com a cabeça no ombro da Berta.
- Por que a Carmem queria tomar energético? - Eu perguntei ainda não entendendo bem a dinâmica da Berta e da Carmem e sabendo que a Carmem não tomava esse tipo de bebida.
- É assim, patrão, todos os dias à tarde ela me chama para ver o terço pensando que vai me dopar. Eu levo um suco para ela e um chá para mim. Ela coloca remédio pra dormir na minha xícara e eu finjo que não vejo. Aí eu coloco remédio para dormir no copo dela, sem ela ver. Ela tira um cochilinho agradável todas as tardes e isso a mantem em completa segurança no lar. Se não fosse o pó de mico ainda nas roupas dela, que a deixam louca coçando, eu diria que a pele dela está até melhor, de tão descansada. - A Berta explicou seriamente, com ares de que tudo era pensado no conforto da Carmem e eu não pude evitar o riso.
- Pó de mico, Matheus?! - Eu encarei o meu amigo.
- Pó de mico é um clássico, Rossi! Tipo almofada de pum, mas essa eu não usei porque a Evita tinha aquele laxante denomenal! - O Matheus sorriu para a Eva. Esses dois juntos era sinônimo de confusão.
- Vocês dois não vão ensinar essas coisas para o bebê! - Eu avisei e eles se olharam com cumplicidade. O meu filho ia ser o terror da professora, eu tinha certeza. Eu balancei a cabeça e me virei para a Berta. - O remédio que você encontrou escondido no quarto dela e trocou por água. Então o plano dela era se livrar de você. - Eu me lembrei e a Berta sorriu.
- Patrão, ela pode tentar usar aquilo com qualquer um. Mas ela ficou desesperada hoje quando acordou e percebeu que tinha dormido a tarde toda. Ela está preocupada, acha que está doente. Até tentou falar com o Dr. Mauro, mas não conseguiu. O que ela estava planejando, eu não sei, mas ela quer sair de casa sem mim, o que é impossível para ela. - A Berta contou orgulhosa.
- Mas acontece que, depois da festa, ela vai estar livre para aprontar. Será que não é melhor descobrirmos o que ela tem em mente enquanto temos algum controle sobre a situação? - A Eva comentou parecendo preocupada.
- O que você está sugerindo, amorzinho?
- Vamos soltar a cobra de aplique! Deixar a cobra de aplique sair e seguí-la. Descobrir o que ela quer tanto aprontar. Assim nós podemos nos preparar para o ataque dela de alguma forma. - A Eva tinha um ponto, mas eu tinha medo.
- Não quero te colocar em perigo, Eva. E eu tenho certeza de que ela vai direto até você. - Eu respondi.
- Mas ela não sabe como me encontrar. Eu não voltei para a Lince. E eu posso ficar bem quietinha em casa enquanto a cobra de aplique sai para pegar sol. - A Eva sorriu como se fosse um plano perfeito, mas alguma coisa ali não me agradava.
- Rossi, a Evita tem razão. Seguir a invocação do mal, descobrir quais espíritos malignos ela invoca quando o Dr. Tretas e Mutretas não está disponível, isso nos dá uma vantagem. - O Matheus concordou, mas eu não gostava daquilo. - Ou você tem a ilusao de que ela vai engolir o desaforo calada e sumir da sua vida?
- Você é voto vencido, amorzinho! - A Eva me deu um selinho com ares de vencedora.
- Nós podemos seguir a apocalíptica. - O Elias ofereceu.
- Não, vocês estiveram no hospital, se ela for até lá vocês podem ser reconhecidos. - O Matheus o lembrou. - Eu adio um pouco a viagem. Entendeu o plano, Bertinha? - O Matheus perguntou.
- Aparentemente o Reinaldo já sabia com quem estava se metendo. - O Matheus sorriu amavelmente para a Julia. - Vamos nos sentar que a noite vai ser longa. Acho que vou pedir pizza?!
Enquanto o Matheus pedia pizza o suficiente para alimentar o nosso pequeno exército, nós nos sentamos pela sala como um grupo prestes a compartilhar lendas urbanas num acampamento.
- E então, por onde começamos? - Eu perguntei.
- Acho melhor começar pelo Dr. Molina, porque ele é o único que pode precisar sair correndo para atender a uma emergência. - A Eva sugeriu e ganhou um sorriso caloroso do médico.
- Eu espero que não, Eva, porque eu estou intrigado com essa história e quero saber de tudo. - O medico sorriu. - Vamos lá, Aroldo e Morgana Pinheiro, dois espertos que estavam tentando se dar bem.
- Como eles foram trabalhar no hospital? - Foi a primeira pergunta do Matheus.
- Ele era sobrinho de um representante de produtos hospitalares, que me perguntou se poderia deixar um currículo do sobrinho que havia se mudado para a cidade há pouco tempo. O Aroldo tinha um bom currículo, experiência e ele era da fato um bom emergencista. Ele se adaptou muito bem e caiu nas graças do então chefe do setor, que estava para se aposentar e treinou o Aroldo para substituí-lo. Foi uma substituição muito natural. Depois o Aroldo levou a irmã enfermeira para trabalhar com ele, nada demais.
- E quando começou o desvio dos medicamentos? - Eu perguntei, tentando entender como a Carmem chegou a eles e o que eles fizeram por ela.
- Uns oito meses depois que a Morgana entrou no hospital. Era muito sutil no início e depois pareceu ficar maior. Os prejuízos eram enormes para o hospital e parecia uma torneira aberta escoando dinheiro pelo ralo.
- Qual empresa o tio dele representava, Dr. Molina? - O Edson perguntou e o Molina sorriu.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...