Damon
Acordei antes do sol nascer, como de costume. Após um banho rápido, vesti minha roupa de corrida, ajustei o cadarço dos tênis e peguei o celular para registrar mentalmente uma nota: passar em alguma padaria na volta. Violet merecia um café da manhã decente, e pão fresco parecia um bom começo.
As ruas ainda estavam quase desertas, envoltas em uma penumbra tranquila. A cidade parecia respirar mais devagar nesse horário, com o silêncio quebrado apenas pelo som rítmico dos meus passos e da minha respiração controlada. O ar frio da manhã entrava pelos pulmões, clareando minha mente, mas não o suficiente para afastar as lembranças da noite anterior.
A conversa com Violet, o peso das palavras dela, e, claro, aquele maldito telefonema ainda martelavam na minha cabeça. O casamento que começou como um contrato já estava gerando consequências — meu número pessoal vazado, um repórter cavando informações, e, pior, a vida de Violet sendo dissecada por estranhos. Eu sabia como era lidar com isso, mas ela não deveria precisar passar por algo assim.
A irritação cresceu dentro de mim, e, sem perceber, acelerei o ritmo. Meus passos ficaram mais fortes, quase como se eu pudesse correr para longe daquela confusão. O som do impacto contra o asfalto ecoava mais alto, minha respiração ficou mais pesada. Corri ainda mais rápido, como se isso pudesse dissipar o peso que carregava, como se o movimento pudesse me deixar à frente de tudo o que estava prestes a desmoronar.
Mas não importa o quanto eu corra, algumas coisas sempre me alcançam.
As lojas começavam a abrir, e o burburinho da cidade despertando para o domingo preenchia o ar. Passava por vitrines que iam sendo iluminadas, o cheiro de café fresco escapando das padarias e se misturando com o aroma da manhã fria. Eu mantinha o ritmo da corrida, os passos firmes no asfalto, até que o toque irritante do celular me obrigou a parar.
Olhei para a tela e, ao ver o número desconhecido, respirei fundo, tentando encontrar uma calma que eu honestamente não sabia onde estava. Ótimo, pensei, porque lidar com isso em um domingo de manhã cedo era exatamente o que eu precisava.
Sem atender, desbloqueei o celular e entrei no portal da empresa, mandando uma mensagem rápida para Stevens: "Segunda-feira, encomende um número novo para mim. Esse já era." Depois de enviar, silenciei o aparelho e o guardei de volta no bolso.
Continuei parado por um momento, observando a cidade ao meu redor. Por mais que quisesse ignorar, sabia que o vazamento do meu número era só o começo. A imprensa era incansável, e isso me colocava em um jogo que não era mais só meu. Agora havia Violet. E, por mais que fosse difícil admitir, isso tornava tudo mais complicado.
Respirei fundo mais uma vez antes de voltar a correr.
*
Antes de subir para o apartamento, fiz uma rápida parada na padaria mais próxima. Não era algo que eu costumava fazer — café da manhã nunca foi meu forte —, mas Violet não parecia o tipo de pessoa que ignorava essa refeição. Peguei uma sacola de pães ainda quentinhos e segui para casa.
Cumprimentei o porteiro com um breve aceno, entrei no elevador e, ao chegar à cobertura, destranquei a porta. Assim que entrei, me deparei com Violet parada no meio da cozinha.
Ela estava um caos adorável. O rosto amassado, o cabelo bagunçado de quem claramente acabara de levantar, e ainda vestindo o mesmo pijama de dinossauros da noite anterior. Seus olhos mal estavam abertos, quase fechados enquanto ela parecia inspecionar a cozinha como se tentasse lembrar onde estava ou, talvez, o que deveria fazer ali.
Por um momento, não consegui conter o sorriso que se formou nos meus lábios. Ela era um contraste perfeito com o ambiente organizado e moderno ao seu redor. E, de alguma forma, fazia tudo parecer mais vivo.
— Bom dia — falei, tentando não rir, enquanto erguia a sacola com os pães. — Parece que você acabou de sair de um daqueles documentários sobre dinossauros ressuscitados.
Violet nem reagiu ao meu comentário, como se as palavras não tivessem alcançado o cérebro dela ainda. Parecia que ela estava em piloto automático, perdida entre o sono e a vigília.
Coloquei a sacola de pães na mesa e me aproximei, segurando-a gentilmente pelos ombros.
— Vem, senta aqui — falei, guiando-a até uma das cadeiras. — Eu faço o café. Você só precisa ficar acordada... ou pelo menos tentar.
Ela apenas balançou a cabeça em um gesto mínimo de concordância e se deixou cair na cadeira. Assim que se acomodou, deitou a cabeça sobre os braços cruzados na mesa, parecendo pronta para voltar a dormir ali mesmo.
Dei uma risada baixa enquanto ia até o armário pegar o que precisava. Fazer café não era exatamente o meu ponto forte, mas pelo estado dela, acho que só o cheiro já ajudaria. Como alguém pode ser tão caótica e tão... adorável ao mesmo tempo?
Coloquei a cafeteira para funcionar e comecei a organizar os pães na mesa, lançando olhares rápidos para ela de vez em quando. Por mais inusitado que fosse, aquela cena parecia... normal. E, de alguma forma, reconfortante.
Em poucos minutos, a mesa estava pronta. Não era nenhuma obra-prima, mas considerando que eu nunca tinha feito um café da manhã na vida, estava até orgulhoso do resultado. Peguei algumas frutas, manteiga, geleia e o que mais encontrei na geladeira, tentando dar a impressão de que sabia o que estava fazendo.
Enquanto colocava uma caneca de café fumegante na frente dela, senti seus olhos sobre mim. Levantei o olhar e vi Violet me observando, a cabeça ainda apoiada em uma das mãos, o rosto mais acordado agora, mas ainda com aquele charme desajeitado de quem saiu da cama há pouco tempo.
— Você não é uma pessoa muito matinal, é? — perguntei, um sorriso brincando nos lábios enquanto me sentava à sua frente.
— Você é daqueles tipos estranhos de pessoa que levanta para correr às seis da manhã? — Violet perguntou, a voz ainda carregada de sono, mas com um toque de sarcasmo.
— Cinco e meia — corrigi, segurando o sorriso ao levar minha caneca de café aos lábios.
Ela arregalou os olhos, como se eu tivesse acabado de confessar o maior absurdo do mundo.
— Ok, isso é ainda mais estranho. Você realmente escolhe fazer isso?
— Ninguém escolhe ser normal, Violet. — Dei de ombros, mantendo o tom leve, e acrescentei: — Além disso, correr é bom para clarear a mente.
— Ou para me fazer questionar suas escolhas de vida. — Ela respondeu, finalmente se endireitando na cadeira e estendendo a mão para a caneca de café. — Porque, sinceramente, nada parece pior do que estar acordada antes do sol.

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