O relógio marcava 17h48 quando April entrou no quarto carregando dois cabides. Em um deles, um vestido azul-marinho com bolinhas brancas, no outro, uma blusa rendada creme e uma saia plissada rosê que ainda exalava o perfume da última lavagem.
Mel já estava jogada na cama como se tivesse caído ali do teto, com os pés descalços balançando no ar e o celular apoiado no peito. As unhas recém-pintadas de vermelho cereja brilhavam sob a luz do abajur, e seus cabelos castanhos estavam presos em dois coquinhos desfeitos, no “modo espera”.
April largou os cabides sobre a cadeira do computador, passou os olhos pela bagunça cuidadosamente organizada do quarto e soltou um suspiro nervoso.
— Me ajuda. Eu tô entrando em pânico.
Mel rolou para o lado, sem tirar o celular do peito.
— Mas você ainda nem vestiu nada.
— Exato. E já tô suando nas axilas. É um bom sinal?
Mel riu e se levantou num pulo.
— Não. Mas é totalmente normal. Tá oficialmente entrando para o clube das “meninas que vão se declarar pela primeira vez sob vigilância paternal severa”.
April fez uma careta.
— Ai, não fala assim. Eu já tô com medo do meu pai arrumar um detector de mentiras na A****n.
— Confia. A mamãe vai dopar ele com vinho. E se não der certo, a tia Helen já prometeu enfiar uma colher de purê de batata na boca dele a cada provocação.
Elas riram juntas, e por um momento, o nervosismo deu lugar a um calor de cumplicidade.
— Tá — April retomou o foco — me ajuda a escolher a roupa. Quero parecer linda, mas casual. Interessada, mas não desesperada. Sexy, mas… você sabe. Aprovada pela ONU e pela minha avó.
— Você não vai encontrar isso no guarda-roupa. — Mel deu uma risada debochada, depois pegou o vestido azul-marinho e ergueu contra a luz. — Esse aqui é perfeito. Rodadinho, mas discreto. Marca a cintura sem parecer que foi feito pra causar infarto no tio Ethan.
— Você acha?
— Eu sei. — Mel piscou. — Usa com aquele colar de estrela e o brinco de argola pequena.
April pegou o vestido e entrou no banheiro. Enquanto a amiga fechava a porta, Mel voltou a sentar-se na cama, agora cruzando as pernas e olhando para a própria imagem refletida no espelho.
Passou os dedos nos lábios, pensativa. Depois, como se não aguentasse mais guardar o segredo, falou em voz alta:
— Ontem eu beijei o Richard lá em casa.
A água da torneira foi desligada do outro lado da porta.
Silêncio.
— Você o quê?! — April gritou de dentro, com o susto de quem ouviu que a melhor amiga tinha se casado escondida.
Mel sorriu, satisfeita com o impacto causado.
— É isso mesmo. Nos beijamos no sofá, foi quente, meu corpo todo estremeceu.
April abriu a porta devagar, ainda segurando o vestido na frente do corpo, com a boca entreaberta.
— Sério?
— Serissimo. — Mel deu dois tapinhas na cama. — Vem sentar. Eu te conto tudo.
April sentou-se, ainda de olhos arregalados.
— Como assim? E o tio Liam? Onde ele estava?
— Ele estava fora de casa. — Mel respondeu com naturalidade. — Mas quando ele chegou nos viu… e você imagina o melodrama.
— Melodrama?
— Sim. Papai deu um gritinho e por pouco quase desmaiou — Mel gargalhou. — Mas a mamãe chegou logo em seguida e foi minha salvação, porque o papai já estava encarando o Richard com a cara de um psicopata!

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