A louça estava quase toda lavada. O relógio da parede marcava 21h36. A cozinha ainda exalava o cheiro acolhedor de comida feita com carinho, mas agora era o aroma do café fresco que dominava o ambiente. Zoe, de meias, já tomava sua segunda xícara na varanda, observando o céu estrelado, enquanto David e Tiago estavam enfiados na sala disputando videogame.
No corredor, April ajustava discretamente o cabelo, agora meio solto, com algumas ondas caídas. Ela passava os dedos nos fios com ansiedade contida. Sabia que a noite chegava ao fim e com ela, um momento que, de algum modo, parecia inaugurar uma nova fase em sua vida.
Tomás estava do lado de fora da casa, parado no alpendre, com as mãos nos bolsos e um sorriso pequeno nos lábios. Ele olhava para o jardim iluminado pelos postes baixos de luz suave, e parecia… tranquilo. Como se aquele fosse o lugar exato onde ele deveria estar.
April abriu a porta devagar, saindo sem fazer barulho. Ele se virou ao notar a presença dela.
— Achei que você já tivesse ido. — ela disse, sussurrando quase sem querer.
— Não sem me despedir de você. — respondeu, com aquele tom de voz que parecia ser feito só pra ela.
Houve um instante de silêncio entre os dois. Nada desconfortável. Pelo contrário: era um daqueles silêncios cheios de significado, onde o mundo ao redor diminuía de volume.
— Você… falou coisas tão bonitas lá dentro. — April começou, olhando para o chão. — Eu nunca tinha… ouvido ninguém falar de mim assim.
— Porque ninguém te viu como eu vejo. — Tomás respondeu com calma. — Você me inspira a ser melhor. E nem estou falando só das suas notas altas ou do seu jeito organizado de anotar a matéria. É você, sua essência.
Ela sorriu, tímida, mordendo o canto do lábio.
— Eu estava nervosa a noite inteira. Achei que meu pai fosse te expulsar.
— Ele tentou. Com os olhos, pelo menos. — Tomás riu. — Mas no fim… acho que ele me entendeu. E sabe, April, eu respeito tanto vocês, sua casa, seus pais… Só de estar aqui já é muito mais do que imaginei.
— E pra mim… — ela falou baixinho, se aproximando um pouco mais — ter você aqui hoje fez tudo valer a pena. Até o pânico.
Eles ficaram frente a frente.
Tomás estendeu a mão. Ela entrelaçou os dedos nos dele.
— Posso te dar um beijo? — ele perguntou, num tom que era mais uma oferta gentil do que um pedido.
Ela assentiu. Os olhos fixos nos dele. O coração disparado. E então ele se inclinou.
O beijo foi breve, leve, mais doce do que qualquer outra coisa. Um toque de lábios que dizia “eu estou aqui” e “eu te vejo”, mais do que qualquer discurso bem ensaiado. Quando se separaram, ainda estavam de mãos dadas. April sorriu, ainda com os olhos fechados por um instante.
— Isso foi… — ela começou.
— Real. — ele completou.
Tomás passou o polegar delicadamente pela mão dela, depois se afastou um passo.
— Boa noite, April. — disse, e havia ternura no nome dela.
— Boa noite, Tomás.
Ele saiu pelo portão, acenando, e ela ficou ali por um minuto inteiro, parada, sentindo o coração ainda pulsando em festa dentro do peito.
Dentro da casa, Ethan observava a cena da sala, de pé, com os braços cruzados. Helen se aproximou em silêncio, encostando a cabeça em seu ombro.
— Já pode respirar. — ela sussurrou.
— Eu respirei o tempo todo. — respondeu, fingindo firmeza.
— Claro. E o fato de ter mastigado o guardanapo de papel durante o beijo foi… um novo hábito alimentar?
Ethan bufou, sem conseguir esconder o sorriso.
— Ele falou bonito demais. Tem alguma coisa errada com um garoto de dezessete anos que sabe o que é “gentileza emocional”.
Helen riu e o puxou até a cozinha, onde a luz estava mais suave.
Sentaram-se à mesa. Os sons da casa eram baixos agora. Tudo parecia envolto numa névoa leve de fim de noite e lembranças sendo arquivadas.
— Você sabia que a primeira vez que senti a April chutar na minha barriga foi ouvindo uma música da Norah Jones? — Helen disse de repente.
Ethan olhou para ela, surpreso.
— Ela chutou bem na hora do refrão. Era “Don’t Know Why”.

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