O cheiro de cebola dourando na manteiga se espalhava como um abraço morno pela cozinha. Era um daqueles aromas que antecedem algo especial, como um convite para sentar à mesa com o coração aberto. A panela alta, onde se preparava o risoto de parmesão, borbulhava com ritmo próprio. Pedaços de abobrinha já cortados esperavam pacientemente sua vez. Na outra boca do fogão, o frango ao molho de limão e ervas ganhava cor e brilho sob o olhar atento de Helen.
Zoe, de avental florido e sorriso largo, picava salsinha como quem bordava. Cada movimento era leve, quase ensaiado. Elas não falavam muito nos primeiros minutos. Dividiam aquele espaço com a intimidade silenciosa de quem construiu memórias lado a lado durante anos.
Até que Helen suspirou fundo, enxugando a lateral do olho com o ombro da blusa.
— Eu juro que ontem ela ainda brincava com bonecas no sofá. A April fazia teatrinho com o Tiago, lembra? E agora… ela tá lá em cima, escolhendo batom.
Zoe parou de picar. Largou a faca com delicadeza e virou-se para a cunhada.
— Eu lembro dela correndo de pantufa pelo corredor com um lençol amarrado no pescoço, dizendo que era uma super-heroína. “Super-April, salvadora dos coelhinhos”.
Helen riu, a voz embargada.
— E agora ela é só… super apaixonada.
Zoe se aproximou, abraçando Helen de lado.
— Ai, amiga… isso é tão bonito. Eu sei que dói, mas é lindo. Você criou ela com tanto amor, tanta liberdade, tanto exemplo bom… claro que ela ia escolher um menino gentil.
— Sim, mas não precisava escolher já. — Helen fungou. — Ainda não ensinei ela a dobrar lençóis sozinha, ou a calcular o IPVA, ou…
— Ninguém calcula o IPVA, Helen. A gente só paga e chora.
As duas riram.
Helen virou-se para o risoto e começou a mexer com a colher de pau, tentando se distrair da onda de emoção que ameaçava transbordar de novo.
— Sabe o que é pior? — murmurou. — Não é só a April. É a Mel também. Ela tá crescendo tão rápido. E agora tem aquele tal de Richard…
— Que, segundo ela, beija bem. — Zoe completou, com um sorrisinho maroto.
Helen parou a colher no ar.
— Ela te contou?
— Claro! Ela conta tudo pra mim. Ou melhor, quase tudo. Ontem chegamos do mercado e eles estavam no maior amasso no sofá.
— MAIOR AMASSO?
— Shii fala baixo sua louca. — brincou Zoe com a cunhada. — Esqueceu que ela é minha filha? Nunca fui santa cunhadinha.
— E o Liam? E-ele viu?
— Viu.
— E ai?
— Quase teve um infarto. Primeiro ficou em choque, depois quase quis avancar para cima do menino e a sorte dele foi eu.
Helen arregalou os olhos.
—Meu Deus eu imagino..
— Sabe qual é o problema? O Liam achava que ela ainda achava os meninos “nojentos”. — Zoe sorriu com pena do marido. — Eu deixava ele viver nessa ilusão mas infelizmente o sonho acabou.
Helen balançou a cabeça, com um sorriso de canto.
— Homens…
— A gente dá vida pra essas criaturas e eles desmoronam quando a filha passa um blush. — Zoe riu. — Mas olha, eu acho fofo. O Ethan com cara de assassino passivo-agressivo, o Liam suando frio só porque o Richard falou “senhora” com simpatia…
— E nós aqui, preparando jantar como se fosse o banquete da ONU.

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