A porta foi empurrada.
Tereza estava sentada atrás da mesa escrevendo um prontuário, e levantou a cabeça ao ouvir o som da porta. Quando viu Caio e o buquê de rosas roxo-escuras nas mãos dele, a mão que segurava a caneta parou visivelmente.
O olhar dela passou primeiro pelo terno formal demais de Caio, depois caiu sobre o buquê de cor única, e por fim voltou para o rosto dele.
— Sr. Mendes, — Tereza abaixou a caneta, a voz calma — sente-se.
Caio entrou no escritório, entregou o buquê para Renan, indicando para ele segurar, e sentou na cadeira em frente a Tereza. Renan entrou com passos leves, fechou a porta e foi para o canto da parede segurando o buquê por conta própria — tentando diminuir a presença ao máximo, mas os olhos não aguentavam e ficavam varrendo entre os dois.
— Onde o Sr. Mendes não está se sentindo bem hoje? — Tereza abriu um prontuário novo, pronta para anotar.
Caio olhou para a atitude profissional e distante dela, ficou em silêncio por dois segundos e então disse: — A Dra. Tereza não disse que eu estava doente? Vim para o retorno.
Tereza levantou os olhos para olhá-lo, os cantos da boca se curvaram de forma quase imperceptível: — Então eu preciso ouvir primeiro, quais são os sintomas exatos do Sr. Mendes?
O tom dela era totalmente de consulta médica, estritamente profissional.
Caio ajustou a postura, inclinando o corpo levemente para frente: — Ultimamente... sempre quero me aproximar de uma pessoa sem perceber.
— Hum. — Tereza anotou. — Manifestações específicas?
— Quando eu vejo ela, sinto vontade de ficar perto dela. Quero dar a ela o que há de melhor, protegêla, e também... — Caio fez uma pausa — saber o que ela está fazendo e com quem está.
Tereza não levantou a cabeça: — Aumento do desejo social, acompanhado de leve tendência de controle. Tem mais?
— Tem mais, — Caio continuou, a voz mais baixa — saber que ela está sozinha com outro homem me deixa desconfortável.
— Que tipo de desconforto?
— Azedo. — Caio foi direto. — Um gosto azedo sobe pelo peito, dá vontade de correr até lá na hora e tirá-la de perto daquela pessoa.
A ponta da caneta de Tereza parou no papel por um instante, e depois continuou anotando: — Flutuação emocional, aparecimento de reação de ciúme evidente. Duração?
— Uns três dias.
— Fator desencadeante?
— Foi depois de vê-la. — Caio encarava Tereza. — Para ser exato, foi depois de saber que ela estava sozinha com outro homem.
Tereza finalmente levantou a cabeça, olhando para ele com um olhar calmo: — Tem mais?
— Tem coisa mais grave. — O tom de Caio ficou mais grave. — Às vezes surgem alguns... pensamentos não muito racionais.
— Por exemplo?
— Por exemplo, sinto vontade de trancála em um lugar onde só eu consiga vêla, impedindo que qualquer pessoa se aproxime dela. — Caio disse, pronunciando cada palavra devagar.

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