Quando Tereza acordou, já estava claro lá fora.
Instintivamente, ela pegou o celular: o relógio marcava 10h17 da manhã. Ela se sentou de repente, sentindo uma pontada de dor nas têmporas, consequência de ter passado a noite em claro, algo que não acontecia com ela há muito tempo.
Quando terminou de lidar com a emergência do laboratório ontem, já eram quatro da manhã. Ela voltara ao quarto e capotara na cama, não esperando dormir até aquela hora.
Levantou-se, foi até o espelho, e os olhos estavam de fato muito vermelhos, com olheiras claras flutuando por baixo. Ela abriu a torneira e jogou água fria no rosto repetidas vezes, até a pele ganhar um pouco de cor, e só então se sentiu ligeiramente mais desperta.
O estômago roncava de vazio.
Ela vestiu uma roupa simples de ficar em casa, um cardigã de tricô off-white com calça cinza-clara, e prendeu o cabelo num coque baixo e solto, revelando o pescoço fino. Enquanto descia as escadas, pensava no que ia comer no café da manhã. Devia haver pão e leite na geladeira, bastava aquecê-los.
No entanto, ao chegar à curva da escada, os barulhos vindos da sala de estar a fizeram parar no meio do caminho.
Era a risada de uma criança, nítida e inocente.
E os sussurros gentis de Berta: — Erasmo, coma direito, não faça bagunça.
E... a voz de Adilson, carregada de uma suavidade que ela nunca tinha ouvido: — Deixe ele comer devagar, não há pressa.
Os dedos de Tereza apertaram o corrimão da escada sem perceber. Ela ficou parada ali, observando o que acontecia lá embaixo por entre os espaços do corrimão:
Na sala de jantar, a luz da manhã entrava pelas janelas e se espalhava em um tom quente sobre a longa mesa. Berta usava um vestido de tricô azul-claro, os cabelos longos caídos soltos sobre os ombros, e estava de cabeça baixa limpando a boca do menininho de três anos.
E Adilson, sentado ao lado da criança, segurava uma colherzinha, dando mingau para ele com paciência.
Ele usava uma roupa de casa cinzaescura, o cabelo ainda um pouco bagunçado, como se tivesse acabado de se levantar da cama. O contorno de seu rosto de perfil parecia muito mais brando à luz da manhã, e os cantos de seus olhos traziam até um leve sorriso quase imperceptível.
Aquela era uma expressão que Tereza jamais vira.
Na memória dela, Adilson estava sempre de terno e gravata, com a testa franzida e um distanciamento e indiferença no olhar. Mesmo em casa, ele se mantinha composto, como um iceberg que nunca derretia.
Mas agora, estava ali sentado, alimentando uma criança, com a expressão tão concentrada como se fizesse algo de suma importância.
— Adilson, não estrague tanto ele. — Berta falou baixinho, o tom misturando repreensão com carinho. — Deixe ele comer sozinho.
— Não tem problema. — Adilson pegou mais uma colher de mingau e aproximou da boca da criança. — O Erasmo se assustou muito ontem, vamos cuidar um pouco mais dele hoje.
O garoto abriu a boca e comeu de forma obediente, e então disse com voz infantil: — O tio Adilson é o melhor.
Adilson sorriu, erguendo a mão para bagunçar o cabelo da criança.
Naquele instante, Tereza sentiu seu coração ser esmagado por algo com força, doendo a ponto de quase não conseguir respirar.
Ela permaneceu parada na escada, sentindo-se como uma intrusa que invadira por engano a família de outras pessoas.
E foi bem nessa hora que Berta levantou a cabeça e a viu.
Seus olhares se cruzaram.
O sorriso gentil de Berta congelou por um momento, mas ela rapidamente se recompôs e levantou-se: — Srta. Tereza... você acordou.
Tereza segurou a xícara, as pontas dos dedos sentindo o calor vindo das laterais. Ela olhou para aquele rosto cheio de "culpa" de Berta e depois para Adilson — que estava de cabeça baixa limpando a boca da criança, como se tudo aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Ela de repente sorriu.
O sorriso era fraco, mas fez o coração de Berta apertar por algum motivo.
— Você é muito educada, Srta. Ramos — disse Tereza, com uma voz tão tranquila como se estivesse comentando o tempo. — Adilson é bondoso, não suporta ver uma mãe e um filho desamparados sofrendo. É natural que ele dê uma ajudinha.
Mãe e filho desamparados.
Aquelas palavras atingiram-na em cheio, e a expressão no rosto de Berta se alterou levemente.
Adilson também levantou os olhos, olhando para Tereza com um olhar de avaliação.
Porém, Tereza fingiu não ver, e continuou falando de forma pausada: — Mas a Srta. Ramos é jovem e a criança ainda é pequena. Com o tempo, você certamente vai encontrar a pessoa certa. Não pode ficar incomodando o marido de outra mulher para sempre, não acha?
O clima na sala de jantar ficou pesado e silencioso num instante.
Os criados atarefados na cozinha pararam os movimentos, prendendo a respiração e esticando os ouvidos para escutar o movimento lá fora.
O sorriso no rosto de Berta quase desmoronou; ela mordeu o lábio inferior e os olhos rapidamente ficaram vermelhos: — A Srta. Tereza tem razão... Fui mal considerada. Hoje mesmo eu levo o Erasmo para outro lugar...
— Berta. — Adilson a interrompeu, o tom trazendo uma clara irritação. — Você não precisa ir.

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