O restaurante tinha aquele burburinho discreto de gente poderosa fingindo que não repara em ninguém.
Natan escolheu a mesa de sempre, encostada na janela, onde o sol filtrado pela película deixava tudo com um brilho caro.
Pediu um tartare, água com gás, e tirou o celular do bolso, pronto pra mais um almoço em que ele seria a pessoa mais importante do recinto. Na cabeça dele, sempre foi.
Demorou exatos três minutos para notar o primeiro olhar torto.
Um casal na mesa ao lado cochichou e desviou rápido quando ele encarou de volta.
“Inveja”, pensou, ajeitando a manga do paletó.
O garçom se aproximou com uma educação rígida demais, mecânica, como quem cumpre tabela.
Ao apoiar o prato, a mão tremeu um nada. Natan ergueu o queixo.
— Algum problema? — a voz saiu fria.
— Nenhum, senhor — respondeu o garçom, e sumiu como se tivesse sido engolido pelo salão.
As notificações começaram a pipocar. Primeiro o grupo de diretores da empresa: URGENTE.
Depois, mensagens não lidas de números desconhecidos, alguns com thumbnails de vídeo.
Natan ignorou.
Cravou o garfo na carne. Outro sussurro. Outra cabeça virando.
O celular vibrou de novo, incessante, e ele, irritado, abriu a primeira mensagem. Um link. Clicou.
A tela exibiu a fachada da mansão Villeneuve. Ele reconheceu na hora. O coração deu uma batida seca, impaciente.
O vídeo não tremia: câmera de segurança.
E lá estava ele. Segurando o rosto de Francine. Forçando o corpo dela contra a pilastra. O momento do beijo, enquadrado num ângulo que não deixava margem pra desculpas.
A boca de Natan ficou seca. O barulho do salão pareceu afastar-se, como se alguém tivesse enfiado a cabeça dele num aquário.
Ao final do vídeo, uma tela preta com uma legenda simples: “violência contra mulheres não é romance.” Sem nomes. Sem marca d’água. Só a imagem, incontestável.
— Senhor, deseja mais alguma coisa? — o garçom reapareceu, a pergunta atravessada por um nervosismo mal disfarçado.
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