O celular de Natan tremeu de novo.
As mensagens chegavam sem parar, uma atrás da outra. Desta vez, uma mensagem do jurídico:
“Liminar improvável. Material legítimo. Danos de imagem em curso.”
Em seguida chegou outra, da assessoria:
“Canais pedem posicionamento. Não fique em silêncio.”
Ele apertou o botão lateral com força demais, como se pudesse esmagar as vozes.
— Isso é coisa dela — murmurou, começando a andar de um lado pro outro, como um predador enjaulado. — Ela me provocou, ela montou isso, ela deve estar aqui, por perto, rindo. Essa… — ele parou, a respiração acelerada — eu vou revirar essa cidade de cabeça pra baixo. Eu vou achar a Francine e…
— E vai fazer o quê? — André interrompeu, o olhar duro, quase com pena. — Vai provar que o vídeo estava certo? Natan, por Deus. Senta. Respira.
Natan sentou só no corpo, a cabeça não obedeceu. Uma náusea subiu com o gosto da humilhação.
As cenas do restaurante, do copo no vidro, do segurança impassível… tudo latejava.
Ele tentou se agarrar ao velho roteiro interno: sou respeitado, sou temido, nada me atinge.
Mas as fissuras já estavam expostas.
— Vamos ser práticos — continuou André, deslizando um documento pela mesa. — Aqui está um comunicado de afastamento temporário. Você assina, nós soltamos agora. Em seguida, você grava um vídeo curto, sem admitir crime, mas reconhecendo a gravidade da imagem, dizendo que procurará ajuda, que repudia qualquer forma de violência, que se recolhe. O mínimo pra estancar a sangria.
— Eu não vou me recolher. — Natan levantou, as veias na têmpora pulsando. — Eu vou caçar quem fez isso comigo. Isso é uma orquestração. É guerra.
— É crise de reputação — corrigiu André, cansado. — E você está perdendo porque continua achando que é guerra de ego. Natan, se você não colaborar, eu vou fazer isso sem você. O contrato permite afastamento em caso de risco grave à imagem institucional. E, acredite, a imagem está ardendo em chamas.
Uma batida na porta. A chefe de Relações Públicas entrou com o rosto duro, um tablet na mão.
— Cresceu. — Ela projetou no telão a curva de engajamento. — Hashtags nos trending topics. Pedidos de boicote. Perfis de influenciadoras comentando. Um jornalista quer entrevista hoje. E esta é a primeira denúncia que chegou ao nosso canal de compliance agora de manhã — deslizou outro documento. — Funcionárias relatando comportamentos intimidadores seus. O momento é péssimo, Natan.
Ele sentiu a sala diminuir. As paredes, antes sólidas, pareciam elásticas, refletindo o rosto dele de ângulos que não perdoavam.
No fundo, uma parte ínfima de si tentou sussurrar: você passou do ponto, mas a voz foi esmagada por outra, muito mais alta: não vão te destruir.
— Saiam. — O comando saiu baixo, cortante. — Todos.


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