A segunda-feira começou cedo, e Dorian saiu da cozinha e atravessou o corredor em silêncio, ainda com a imagem de Francine acesa no fundo dos olhos.
Malu havia mostrado a ele uma foto que Francine havia enviado, onde ela aparecia meio distraída, como se tivesse sido pega de surpresa.
Tão linda quanto ele se lembrava.
Pegou o paletó da cadeira do hall, ajustou a gravata com um gesto automático.
Foi quando Denise surgiu da ala de serviço com a prancheta de sempre, os óculos escorregando na ponta do nariz.
Parou diante dele como fazia desde que ele era adolescente: firme, discreta, eficiente.
— Senhor Dorian, uma coisa rápida antes do senhor sair — disse, folheando as anotações. — Os jardineiros perguntaram se o senhor prefere a poda das árvores ainda esta semana. E as roseiras do canteiro central… mantemos ou trocamos pelas novas mudas que chegaram?
Ele demorou um segundo para responder, como se a mente precisasse voltar do lugar onde tinha ficado.
Passou os dedos nos botões da camisa, respirou.
— Pode fazer a poda, sim… — falou mais baixo que o habitual.
Denise ergueu o olhar por cima da prancheta, avaliando-o com a facilidade de quem conhecia cada microexpressão naquele rosto.
— Certo. — Anotou e fechou a prancheta. — E o senhor quer que a equipe faça também a limpeza dos lustres na sexta ou deixamos para a outra semana?
— Sexta está bom.
Ela não se moveu. Apenas inclinou a cabeça, suave, notando o semblante triste do chefe.
— Está assim por causa dela ainda, não é?
O ar pareceu pesar um pouco no corredor.
Dorian ajeitou a gravata de novo, como se o nó fosse a única coisa que podia controlar naquele instante.
— Ela fez a escolha dela — disse, por fim, sem rodeios — E eu… estou tentando respeitar.
Denise deu um passo mais perto, a voz baixa, acolhedora.
— Tentar respeitar não impede de doer.
Ele concordou com um gesto mínimo.
O maxilar travou, e os olhos, que raramente traíam qualquer emoção, marejaram imperceptíveis como naquela cozinha, minutos antes.
— Sinto falta dela por perto — admitiu, quase num sussurro. — É… estranho atravessar a casa e não cruzar com ela em lugar nenhum. E é difícil… — ele procurou a palavra, encontrou a mais honesta — …é difícil não poder nem falar com ela.
Denise assentiu, com aquele carinho que sempre soube oferecer sem invadir.
— Eu sei.
Ele inspirou fundo, se recompondo. O velho reflexo voltou ao rosto: controle, foco, disciplina.
— Tenho que ir. — disse enquanto pegava o celular e as chaves.
— Menos do que você gastou naquele relógio suíço horroroso. — Cássio riu, se jogando na poltrona à frente da mesa. — É sério, Dorian, aquele relógio parece coisa de avô, se livra daquilo.
— Cássio… — a voz firme interrompeu a piada, mas os olhos de Dorian ainda brilhavam com uma chama fria. — Se eu comprar a parte do André, eu me torno sócio majoritário.
— Exatamente. E aí, adeus reinado do nosso querido Natan. — Cássio levantou a mão, como quem faz um brinde invisível. — Eu já posso ouvir os gritos de desespero dele daqui.
Dorian deixou o dossiê sobre a mesa, ajeitando as abotoaduras como se fosse o ato final de um plano antigo que, enfim, se concretizava.
— Prepare os advogados. Eu não vou deixar essa oportunidade passar.
Cássio sorriu ainda mais, inclinando-se para frente.
— Já sabia que você diria isso. É por isso que eu trouxe também uma garrafa de champanhe para comemorar. Está no frigobar.
Dorian lançou um olhar quase divertido.
— Abra quando o contrato estiver assinado. Antes, não.
— Você é impossível. — Cássio riu, cruzando as pernas. — Um homem desses não merece ser meu melhor amigo, mas fazer o quê.
Dorian pegou a caneta, assinou rapidamente alguns papéis que estavam à espera.
Seu semblante endureceu novamente, como se toda a leveza tivesse se fechado em um cofre interno.
— Natan vai aprender, de uma vez por todas, que o jogo não termina enquanto eu não estiver satisfeito.

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