O aroma do café recém-passado se espalhava pela cozinha ampla do apartamento de Natan. Ele se serviu com calma, ajeitando a xícara no pires com o mesmo cuidado de sempre.
O som do rádio, ao fundo, trazia notícias triviais da manhã da cidade: trânsito, economia, política. Nenhuma menção a ele, nenhum escândalo.
Natan sorriu de canto. O dinheiro tinha feito seu trabalho. O silêncio comprado da mídia era, para ele, a prova de que ainda estava no controle.
Agora, poderia voltar a andar pelas ruas como o empresário respeitado, o exemplo de sucesso que sempre acreditara ser.
Enquanto descia do carro em frente ao prédio da empresa, ajeitou o paletó, respirando fundo. Os sapatos ecoaram firmes no mármore da recepção, e por um instante, ele quase acreditou que a tormenta dos últimos dias havia passado.
Mas bastou atravessar os corredores para sentir algo estranho.
Os olhares que antes o seguiam com admiração agora se desviavam apressados. Telefonemas cessavam de repente, sussurros surgiam em cada esquina. O orgulho de Natan queimava por dentro, mas ele fingiu não notar.
Foi então que, ao passar diante da sala de André, parou abruptamente.
O sócio, impecavelmente vestido, estava inclinado sobre uma caixa de papelão, organizando seus próprios pertences. Canetas de luxo, fotos em porta-retratos, uma pequena estatueta de premiação empresarial, tudo sendo cuidadosamente embalado.
— O que significa… o que está fazendo? — Natan entrou sem bater, a voz grave tentando soar firme, mas já carregada de tensão.
André ergueu os olhos, tranquilo demais para a gravidade da situação.
— Acho que está claro. Estou encerrando minha parte aqui.
Natan franziu o cenho, incrédulo.
— Encerrando? Não brinca comigo, André.
— Não é brincadeira. — André encaixotou mais uma pasta, fechando-a com calma. — Você vai receber os papéis da cisão ainda hoje. Estou vendendo minha parte e me desfazendo da sociedade.
O sangue de Natan ferveu instantaneamente.
— Isso é um absurdo! Está abandonando o navio no meio da tempestade?
André soltou uma risada seca.
— Justamente por isso. Eu não vou esperar o barco afundar para sair. E vou te dizer algo, Natan… nunca o vi tão incompetente como diante dessa crise.
As palavras atingiram Natan como lâminas afiadas. O orgulho ferido pulsava em suas têmporas, e por um instante ele perdeu a compostura.
— Incompetente? Você tem ideia de quem está falando? Eu sustentei essa empresa com meu nome, com a minha imagem!
Queria gritar, queria quebrar algo, queria que o mundo inteiro voltasse a reconhecê-lo como o homem poderoso que sempre fora.
Mas, em vez disso, só conseguiu ficar parado, sentindo o peso da humilhação escorrer por dentro como veneno.
O resto do dia foi um exercício de autopersuasão para Natan.
Sentado em sua cadeira de couro, girando lentamente o copo de uísque entre os dedos, ele encarava a parede à frente como se pudesse encontrar nela uma resposta para a decadência que o cercava.
"André sempre foi um peso morto…" pensava, tentando cravar no próprio cérebro a ideia de que a cisão seria quase um alívio.
"Nunca teve a ousadia necessária, sempre agindo como se fosse minha sombra. Agora que ele se foi, posso provar que não preciso de ninguém. Essa empresa é minha. Foi o meu nome que a ergueu, e será o meu nome que vai mantê-la de pé."
Por trás da fachada erguida com tanto esforço, o estômago queimava. Os olhares desviados dos funcionários, o silêncio cortante nos corredores, tudo era um lembrete cruel de que o controle escapava de suas mãos. Mas Natan se agarrava à máscara de superioridade como a última defesa de um império em ruínas.
Quando o relógio marcou quase o fim do expediente, a porta se abriu sem aviso.
Um homem engravatado, carregando uma pasta de couro, entrou no escritório com a calma irritante de quem já tinha a vantagem.
— Boa tarde, doutor Natan — cumprimentou, com formalidade seca. — Vim trazer os documentos referentes à cisão.

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