Natan ergueu o olhar devagar, como se a presença do advogado fosse apenas um incômodo menor em sua rotina.
— Já está tudo pronto, então? — perguntou, em tom carregado de desdém.
— Sim. — O advogado abriu a pasta e depositou os papéis sobre a mesa, alinhando-os com precisão milimétrica. — Conforme combinado, a parte do senhor André Soares foi transferida para o novo sócio, Eduardo Rangel.
O nome ecoou na sala como um tiro abafado.
Natan leu rapidamente as primeiras linhas do contrato, tentando manter a compostura.
Eduardo Rangel? Nunca ouvira falar. Um investidor discreto, certamente. Talvez até útil, pensou num lampejo de otimismo forçado.
Mas a cada palavra lida, o sangue parecia latejar mais forte nas têmporas.
Assinar significava admitir que estava perdendo o controle, que a empresa já não era inteiramente dele.
O advogado permaneceu em silêncio, apenas empurrando a caneta em sua direção.
Natan a segurou firme, mas antes de se decidir, fechou os olhos por um instante.
O coração disparava, uma mistura de raiva, humilhação e medo que ele se recusava a demonstrar.
Naquele momento, tudo dentro dele gritava para jogar os papéis no lixo, expulsar o advogado e provar ao mundo que ninguém podia derrubá-lo.
Mas, ao mesmo tempo, a sombra da falência se erguia como um fantasma inevitável.
Natan segurou a caneta entre os dedos, mas a mão pesava como chumbo. Forçou um sorriso frio, daqueles que não chegavam aos olhos.
— Claro que não vou assinar nada agora. — empurrou os papéis de volta, a voz firme, mas com uma tensão perceptível. — Quero que meu advogado leia cada linha antes. Volte em dois dias.
O advogado, que parecia já esperar por essa resposta, apenas recolheu a pasta com calma meticulosa.
— Como preferir, doutor Natan. Nos vemos em breve.
Assim que a porta se fechou, o silêncio invadiu a sala como uma pressão sufocante.
Natan manteve-se imóvel por alguns segundos, encarando a madeira escura da porta, como se a qualquer momento ela fosse se abrir de novo.
De repente, a máscara de controle se partiu.
Ele empurrou o copo de uísque contra a parede, o líquido respingando como sangue sobre o papel de parede caro. Derrubou a pilha de relatórios da mesa com um só movimento, os papéis voando como pássaros assustados. O eco de um porta-retratos quebrando no chão se misturou ao som da respiração descompassada.

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