Bela Flor - Romance gay Capítulo vinte

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Entender-se melhor é bom.

Percebi isso depois que sai da Scandal com Hyun-Suk, e já ansiava a próxima vez que poderíamos voltar lá.

O fato de andar para todos os lados sobre uma coleira, tendo Hyun-Suk me dominando não me incomodou em nenhum momento. Eu gostei, na verdade.

Verdadeiramente gostei de tê-lo me apreciando e me exibindo. Sinto que já estamos íntimos na relação que estamos tendo, mas conhecer um pouco do mundo dele, um pouco do que o faz ter prazer foi, de fato, prazeroso para mim também.

Mas meus devaneios sobre voltar na Scandal ou sobre tudo que envolvia aquela parte de Hyun-Suk sumiu no segundo em que paramos de frente ao que ele chamou de "casa".

Casa é o escambau!

Assim que paramos em frente, eu pude ver claramente a construção tão branca e grande que me deixou boquiaberto. Os portões pretos se abriram e ele desfilou com seu carro de luxo por uma estrada de pedras arborizada com flores no canteiro como se fosse um rei entrando em seu castelo.

Bem, foi essa a impressão que eu tive.

ㅡ Se sinta em casa, está bem? ㅡ ele ainda teve a cara de pau de pedir aquilo enquanto ainda dirigia, segurando a minha mão como se fosse fácil assim.

Me sentir em casa? Como?!

Eu percebi como somente do portão até a "casa" ㅡ mansão ㅡ demorou talvez dois minutos dirigindo.

Pensei em como seria cansativo fazer todo aquele percurso a pé. Demoraria uns cinco minutos do portão até a casa, ou até mais.

Quando paramos, ele desceu e deu a volta para abrir a porta para mim.

O agradeci, é claro, mas ainda estava absorto com tudo ao redor. Tão absorto que quase gritei quando um homem alto e de cabelos bem penteados apareceu ao nosso lado. Hyun-Suk apenas o cumprimentou e sequer teve tempo de me apresentar, já que o homem foi rápido em buscar a chave do carro e levá-lo para o que eu acho que talvez seja a garagem.

ㅡ O que achou? ㅡ ele perguntou, vendo como eu observava a construção.

O jardim era realmente grande, havia muitas árvores bem podadas e flores em cores vibrantes e bastante cuidadas. O Jardineiro dali com certeza era bom.

A casa, além de grande, também era alta. Tipo, muito, muito alta. Havia uma escada de degraus de mármore cinza para subir e, percebendo como minha mente idiota era, eu ri ao imaginar como aquilo deveria ser perigoso em dias chuvosos e como ele poderia cair de bunda se pisasse enquanto molhada.

ㅡ Hyun, alguém já caiu nessa escada? ㅡ perguntei, curioso.

Hyun-Suk franziu o cenho, mas olhou para ela também.

ㅡ Bem, eu acho que não.

ㅡ É de mármore, certo?

ㅡ Uhum.

ㅡ E não desliza em dias chuvosos?

ㅡ Ah, não. É um mármore apropriado para essa área externa.

ㅡ Ah...

Tentei olhar a casa até o seu limite e se havia algum, eu não vi. A construção era larga, talvez com o cumprimento de uma avenida, algo absurdo. Parecia se estender por metros sem fim também, algo grandioso e exagerado.

ㅡ Você mora sozinho aqui?

ㅡ Bem, hm... é melhor entrarmos primeiro e então eu te explico.

Assenti, sentindo Hyun-Suk repousar a mão em minha cintura para que eu fosse à sua frente.

Tudo era tão absurdo que eu juro, esperei realmente que as portas se abrissem como aqueles filmes de realeza, sabe?

Mas essa parte não aconteceu. Foi Hyun-Suk mesmo quem abriu a porta usando a senha e me permitiu adentrar na frente.

A primeira visão que tive de dentro da casa foi da ampla sala principal. Não haviam móveis ali, o que foi bem estranho. Só havia uma única escada central que se dividia pelos andares acima.

Mas ainda tocando sobre minha cintura, Hyun-Suk me levou para a lateral. Passamos pela sala de jantar, que tinha uma mesa exorbitante e cadeiras de mais. Pela sala de TV e até pela de jogos. Acima, ele explicou que ficavam apenas os quartos.

Parando na cozinha, eu vi Hyun-Suk ir até a geladeira. Pude observar o lugar e não se parecia nem um pouco com as cozinhas normais que estamos acostumados. Era grande, o que sequer me surpreendia mais, mas me chamou atenção o modo em como estava bastante organizada e como tinha itens demais, como uma cozinha de um restaurante chique.

ㅡ Está com fome? ㅡ ele perguntou ㅡ há um pouco do jantar de hoje, posso esquentar.

ㅡ Jantar? Você teve tempo de cozinhar?

ㅡ Não sei cozinhar. ㅡ Hyun-Suk diz rindo, fechando a geladeira.ㅡ mas tenho quem cozinhe para mim.

ㅡ Ah... mas não é um desperdício fazer o jantar quando você sequer viria para a casa?

Ele nega, dando de ombros.

ㅡ A casa está vazia?

ㅡ Não.

ㅡ Então alguém pode nos ver assim... ㅡ falo baixinho, empurrando-o com sutileza. ㅡ vamos para o quarto, assim a gente pode se beijar.

ㅡ Não irá comer nada? Você não pode dormir sem comer.

ㅡ Não estou com fome.

ㅡ Posso pedir algo em qualquer restaurante. Não fique com fome.

ㅡ Mas não estou. ㅡ digo olhando-o e me atrevo a me aproximar rapidinho. ㅡ juro. ㅡ falo, antes de roubar um beijinho dele.

Hyun-Suk sorriu, assentindo no fim.

Sou curioso e observo tudo o que há ao nosso redor.

A casa, mesmo grande demais, não parece ser antiga.

Há quadros em diversos tipos de arte diferentes, sejam pinturas, fotografias, uma diversidade absurda.

Mas paro quando um dos quadros me chama atenção. É uma fotografia. A foto de um leão na savana. O bicho parece relaxado e tem as patas cruzadas enquanto está deitado. Mas consigo visualizar o momento em que a foto foi tirada. O vento com certeza estava forte e agradável no momento. A juba do felino está inclinada para trás, seu rosto está erguido e os olhos amarelos estão iluminados pela luz que vem do sol.

Tudo ao redor é completamente ofuscado pela beleza do animal naquele momento.

ㅡ Nossa... ㅡ sussurro, me aproximando.

E o quadro é realmente grande. Ele toma espaço da parede quase que inteira, e ela deve medir uns dez metros ou mais.

ㅡ É lindo, não é? ㅡ Hyun-Suk perguntou, parando ao meu lado.

ㅡ Incrível, Hyun. ㅡ falo, olhando-o. ㅡ quem o fotografou?

ㅡ Minha mãe. ㅡ ele fala, o que me trouxe uma curiosidade maior.

ㅡ Sua mãe? Ela é profissional?

ㅡ Ela era. ㅡ ele diz, com um pouco de lamentação. ㅡ ela morreu a alguns anos numa viagem a trabalho.

ㅡ Eu... eu sinto muito, Hyun...

ㅡ Tudo bem. Ela adorava fazer esses tipos de fotos, aconteceu quando ela estava na África. Essa foi uma das últimas fotos que ela tirou antes do... do avião em que ela estava cair. Recuperaram a câmera e eu... bem, eu gostei dessa. Consigo sentir o quanto ela se esforçou para fazer uma foto tão bela, quando, na verdade, a beleza inteira está no animal. Ela conseguia tirar momentos como esses.

ㅡ Ela tirou uma bela foto.

ㅡ Há outras, quer ver?

Assinto, porque além de curioso, eu me sinto instigado a conhecer mais sobre Hyun-Suk e sua família.

Ele me leva então para o sentido contrário da casa, ainda no térreo, e me permite entrar numa sala grande.

E é assim que adentro, que meu queixo cai.

ㅡ Essa é a sala das fotos. Tudo o que eu pude tirar do trabalho da minha mãe está aqui.

Observo a parede de papel bordô e os quadros em armações douradas e polidas.

Há tantos quadros diferentes, tantas fotos. Mas em sua maioria, as fotografias são sempre de animais.

ㅡ Sua mãe gostava de animais?

ㅡ Ela os adorava.

ㅡ Vocês iam muito nos zoológicos? ㅡ sorri, me aproximando de um quadro grande onde algumas zebras corriam.

ㅡ Não, nunca fomos. Ver animais presos não é natural, aquilo não é natural para eles. Mas eu já fui à África. Já fui milhares e milhares de vezes. Na verdade, já fui em diversas savanas, ásia, Oceania, América do Sul, mas nenhuma é igual as da áfrica. Acho que se tornavam únicas devido à fixação da minha mãe por elas, ela me fazia ver tantas coisas. Até mesmo me levou para andar entre os leões um dia, acredita?

ㅡ Jura? ㅡ olhei-o com os olhos saltados. Hyun-Suk sorriu e assentiu. ㅡ e não é perigoso?

ㅡ Bem, tudo no mundo tem seu perigo particular, mas um guia da região sempre estava conosco, e nós não adentrávamos a zona deles, era algo como somente uma admiração, sabe? Mas uma vez um leão parou de frente com o nosso carro e tivemos que esperá-lo sair por uma hora inteira!

ㅡ Nossa... isso parece ter sido divertido. Você fala com tanta empolgação.

Eu rio porque ele parece realmente animado. Seu sorriso bonito está gigantesco em seu rosto.

Hyun-Suk se aproxima de mim ainda o mantendo firme e me abraça.

ㅡ Eu adoro. Podemos ir juntos um dia, o que acha?

ㅡ Podemos mesmo?

ㅡ Uhum. Tenho certeza que você iria adorar. O pôr do sol nesses lugares é simplesmente esplêndido. Você ficaria bobo com a beleza.

ㅡ Assim como fico bobo com a sua beleza?

Eu me viro dentro do abraço de Hyun-Suk, ficando de frente consigo. Ele rir de minha cantada, mas dá de ombros.

ㅡ Talvez. Acho que sou bastante bonito mesmo.

ㅡ Seu convencido. ㅡ deixo um tapinha fraco em seu ombro antes de deitar minha cabeça em seu ombro.

Ainda o sinto me segurar firmemente, mas suspiro olhando os quadros bonitos.

ㅡ Sente falta dela?

ㅡ Todos os dias...

ㅡ Eu sei como é. ㅡ digo verdadeiramente. ㅡ sinto falta da minha mãe também.

ㅡ Como ela se foi?

Ergo meu rosto sentindo meu coração acelerar pelo simples fato de lembrar dela. Mas sorrio curto para ele, cobrindo a parte ruim que é lembrá-la.

ㅡ Um dia eu te conto, prometo. ㅡ tento ser gentil ㅡ Só que agora é... é complicado. Eu perdi meus pais no mesmo dia. Os dois...

ㅡ Tudo bem, não se sinta pressionado a me contar, tudo bem?

ㅡ Obrigado.

ㅡ Não agradeça, quero que se sinta confortável. ㅡ eu sinto o beijo quentinho que Hyun-Suk deixa sobre minha bochecha, em seguida em meus lábios. ㅡ vamos para o quarto, você deve estar cansado, amanhã eu te mostro todo o lugar, ok? Tem piscina lá atrás, podemos passar a tarde lá.

ㅡ Park Hyun-Suk tirará um dia de folga?

ㅡ Por você sim.

Estou mesmo todo ferrado por ele, e a cada novo segundo me ferro um pouco mais. Mas, de verdade? Eu gosto. Quero ficar completamente ferrado por Park Hyun-Suk.

Por tanto, assinto, entrelaçando meus dedos aos dele quando saímos da sala.

ㅡ Amanhã quero que conheça uma pessoa que mora comigo. ㅡ Hyun-Suk diz, caminhando em direção as escadas comigo.

ㅡ Quem?

ㅡ Sunhee. Ela é uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Assinto, mas antes que eu possa perguntar qualquer outra coisa sobre a pessoa cujo Hyun-Suk citou, nós ouvimos passos na escada a cima, e guiando os olhos para lá, eu vejo uma moça de cabelos longos e escuros descer.

Ela sorri ao nos ver, mas se atrapalha ao fechar o robe que veste sobre sua camisola curta. Ela é muito bonita, tipo, muito!

Me surpreendo com isso.

Ela parece ter acordado a pouco tempo, pois seus olhos e bochechas estão um pouco inchados. Mas ainda parados no mesmo lugar, é ela quem desce e para a nossa frente.

ㅡ Me desculpem os assustei. ㅡ fala e boceja. ㅡ chegou só agora, Chim?

Hyun-Suk assente, mas parece sem jeito quando me olha.

ㅡ Sun, esse é Jaejun. ㅡ ele me apresenta. Faço uma breve reverência e sorrio para a moça. ㅡ e essa é a Sunhee.

Arqueio minhas sobrancelhas, me atentando a mulher que sorri para mim e devolve a reverência. Ela leva uma mecha de cabelo para trás das orelhas e aquilo a deixa ainda mais bonita.

O silêncio nos deixa um pouco desconfortáveis, mas parece que ela quer ouvir mais vindo de Hyun-Suk.

ㅡ Jaejun é meu... ㅡ Hyun-Suk engole em seco, o que me deixa completamente sem jeito. Ele não precisa me apresentar como nada seu, mas ouvi-lo dizer o que vem a seguir faz meu coração acelerar. ㅡ é um amigo. O que faz acordada a essa hora?

Eu sou um amigo?

Só um amigo?

ㅡ Só desci para buscar um pouco de água. Senti sede durante após um sonho ruim.

ㅡ Teve um pesadelo?

A mulher assente, o que faz Hyun-Suk suspirar.

Eu já me sinto desconfortável nesse momento. Não sei o porquê, mas parece que eu sou um completo estranho agora.

O que estou fazendo aqui?

ㅡ Hyun... ㅡ chamo baixo, abaixando o olhar, sem jeito. ㅡ eu acho que quero ir.

ㅡ Ir? ㅡ Hyun-Suk me olha espantado. ㅡ para onde?

ㅡ Para a casa. A... minha casa.

ㅡ É madrugada, meu bem, durma comigo hoje.

Eu não respondo, porque a vontade que tenho é de seguir com o que eu desejava para a noite, queria mesmo dormir abraçadinho com ele, mas o desconforto que sinto me faz pensar se será mesmo possível.

Odeio me sentir um estranho!

ㅡ Desculpem se atrapalhei em algo. Eu vou só buscar minha água e vocês não vão mais me ver pela noite, prometo.

Somente essa frase é capaz de me deixar ainda mais sem jeito.

ㅡ Não é por causa de você, só...

ㅡ Vamos para o quarto. ㅡ Hyun-Suk diz calmo. ㅡ Boa noite, Sun.

ㅡ Boa noite. ㅡ ela responde, ainda parada no mesmo lugar quando Hyun-Suk sobe os degraus e eu o sigo.

Ainda sem jeito eu me despeço dela e não ouso erguer o olhar.

É como se eu quisesse só sumir. Odeio essa sensação.

No último andar, não há corredores, apenas uma entrada e assim que passamos por lá, eu percebo que se trata do quarto de Hyun-Suk.

O lugar é bastante organizado, sua cama é gigante e está no centro do quarto, encostada na parede de frente para a porta.

Hyun-Suk adentra, retirando as roupas que veste, chutando o sapato para o lado. Ainda me sinto sem jeito, mas retiro o sobretudo que visto e também os sapatos.

ㅡ O que aconteceu, meu bem? ㅡ ele pergunta já sem camisa, parando a minha frente. Suas mãos tocam meu rosto e seu polegar passeia por minhas bochechas. ㅡ você parece nervoso. Está tudo bem?

ㅡ Está. ㅡ eu minto. Meu coração ainda bate forte e eu sei que se não controlar isso, eu posso ter uma das minhas crises de ansiedade. E eu não quero ter nada disso perto de Hyun-Suk. ㅡ me desculpe.

ㅡ Porque está se desculpando? ㅡ ele se aproxima mais.

Hyun-Suk é cuidadoso quando toca o tecido fino da camisa que uso e a retira. Ainda com seus olhos em mim, eu me sinto culpado.

ㅡ Estou te preocupando.

ㅡ Me preocupo porque gosto de você.

ㅡ Porquê... porque disse que somos só amigos?

Hyun-Suk fica quieto por alguns segundos, ele parece não ter o que falar. Então é óbvio, eu me sinto mais culpado porque parece que eu estou o pressionando.

ㅡ Desculpa, Hyun. ㅡ me afasto rapidamente, ainda observando o quarto com estantes grandes onde alguns itens de decoração estranhos e livros estão, um closet grande e de prateleiras e cabides organizados cujo as portas são transparentes e até a TV grande no canto, onde há um sofá em couro marrom e alguns videogames e jogos.

Há tantos pontos em que eu poderia me concentrar e tentar me acalmar, tentar fazer isso parar, mas é impossível quando Hyun-Suk se aproxima de mim com pressa e volta a parar de frente comigo.

ㅡ Eu não estou te cobrando nem nada assim. ㅡ falo.

Ei, Jaejun. ㅡ ele segura minhas mãos, apertando firme com as suas. ㅡ não é nada disso. Eu só não sabia como realmente te apresentar. O que somos? Eu não sei

ㅡ Eu também não. ㅡ digo, olhando em seus olhos.

Eu não quero te perder outra vez. Por favor, me

Não, Hyun, não é isso. Você não fez nada.

Vem aqui. ㅡ ele me leva até a cama e me faz sentar lá. Depois senta ao lado e ainda segura minha mão. ㅡ eu preciso te contar uma coisa.

ㅡ Não sei se quero ouvir. ㅡ tento rir, mas falo a verdade. Estou com medo de como eu possa ficar.

ㅡ Baby. ㅡ Hyun-Suk chama com sua voz baixa, grave, e aquilo me faz sentir meu corpo arrepiar. Sei que meus olhos estão arregalados agora, eu não consigo esconder quando sinto medo, é impossível. Por tanto, talvez ele perceba e me dá um longo selar para que, talvez, eu me tranquilize. Quando se afasta, ele me encara nos olhos. Assim, de pertinho mesmo. ㅡ Sunhee é

Hyun! Eu não senti nada por ela. Eu juro, não estou com ciúmes.

ㅡ Eu sei que não, você quando fica irritado faz um biquinho adorável, e agora tudo o que me parece estar é assustado.

ㅡ Talvez eu esteja um pouco...

Está tudo bem. ㅡ ele sorri, entrelaçando nossos dedos. ㅡ e eu quero ser verdadeiro com você. Eu e ela somos amigos de muitos anos. Teve um tempo que... que achávamos que estávamos apaixonados e então chegamos a ficarmos noivos, mas não passou disso. Desde que meus pais morreram, Sunhee veio morar comigo para não me deixar sozinho.

ㅡ Vocês... foram noivos?

ㅡ Sim.

ㅡ Por quanto tempo?

ㅡ Todo nosso relacionamento durou três anos. Nossa amizade existe há mais de quinze.

Eu não sei o que dizer.

Verdadeiramente, não sei.

ㅡ Onde... ㅡ tento respirar fundo, fingindo que nada me abala ainda mais. ㅡ onde fica o banheiro?

Hyun-Suk me olha de um jeito esquisito, ele tem as iris castanhas fixas em mim, sua boca está entreaberta e eu sinto que ele queira falar mais, talvez explicar mais, mas não é necessário.

preciso fazer xixi. ㅡ digo, mesmo que eu só queira um tempo sozinho agora.

Ele assente, o que me faz sentir alívio. Apontando para uma porta que fica ao lado do tal closet, eu sigo e assim que adentro, fecho a porta.

Todo o ar que meus pulmões prendiam com o peso de uma rocha é expelido.

Eu sinto como se meu corpo estivesse tremendo após levar um choque. Detesto

Lembro-me da primeira vez que a senti e isso me faz sentir um bolo se formar em minha garganta.

Eu preciso chorar, gritar e eu nem tenho um motivo bom o suficiente para fazer tal coisa.

o que eu tenho a fazer é caminhar até a pia de bancada branca e encarar meu rosto no grande espelho que há lá.

Eu não sei o que fazer, sequer consigo pensar direito. Lavo meu rosto, deixando a torneira aberta e percebo que eu de fato estou tremendo.

Meu queixo até mesmo treme.

Meus olhos estão vermelhos, isso me assusta. Sinto como se meu ar começasse a faltar e eu quero muito gritar.

E assim, com meu desespero sem sentido no auge, eu busco a toalha que estava dobrada sobre a bancada e a aperto. Afundo meu rosto ali e mordo uma porção do tecido, apenas tentando extravasar de alguma forma.

Fico daquela forma por muito tempo, lágrimas até mesmo descem pelo meu rosto e o peso até diminui, mas eu não consigo não me sentir patético.

ㅡ Meu bem? ㅡ Hyun-Suk bate na porta.

Ouço-o abri-la antes de que eu possa responder e me viro rápido ao perceber que ele está ali. Não estou em meu melhor momento, meu rosto está vermelho, estou chorando e por isso largo a toalha e limpo as

Ele está assustado, percebo pelo modo em como ele tem os olhos abertos.

Ainda tremo, vejo isso ao erguer minhas mãos em direção a ele quando o vejo se aproximar com pressa.

a toalha do chão, olhando-a e há sangue lá.

Toco minha boca, sentindo o sangue descer por lá, isso me deixa ainda mais assustado.

ㅡ Me desculpa, Hyun. Desculpa.

Ei, ei, calma. ㅡ ele segura meu rosto outra vez. Não consigo mais segurar, por tanto eu soluço ao finalmente começar a chorar, colocando o peso estranho que se apossa de mim. ㅡ Você machucou a boca? ㅡ Hyun-Suk está preocupado, mas eu o aperto em meu desespero. ㅡ Jaejun, calma.

Eu consigo sentir tantas coisas, mas nenhuma delas é calma. Fecho meus olhos com força, tendo pela primeira vez a imagem de minha mãe na mente. É tão vago, eu quase nunca me lembro realmente de como ela é, mas quando me lembro, nenhuma das lembranças é aquela.

branco, seu sorriso bonito. Seus cabelos com ondas e sua voz tranquilizante enquanto diz: vai ficar tudo bem.

Nunca ficou tudo bem. Não depois daquele dia.

E então eu sinto outra vez a minha respiração falhar, estou tendo dificuldade para puxar oxigênio suficiente para

Exatamente como foi naquele dia.

Eu nego, soluçando mais, fazendo força para respirar, mas não consigo.

Jaejun. ㅡ Hyun-Suk se afasta, me fazendo sentar sobre a tampa do vaso sanitário. Eu o faço, percebendo como ele senta no chão mesmo. Suas mãos ainda seguram as minhas firmemente, mas é sua voz que me faz sentir que ainda estou aqui. Ainda estou vivo e não naquela lembrança. ㅡ olha para mim, por

o faço, nervoso, com a visão embaçada, mas eu o faço.

Os olhos dele estão redondos. As pontas de seus dedos estão esbranquiçadas devido à força que ele usa para me segurar.

ㅡ Consegue respirar? ㅡ eu nego, ainda tentando e tentando. ㅡ calma, você parece assustado. Faz comigo, respira fundo e depois expira, tudo bem?

Hyun-Suk começa a fazer aquilo, respirando fundo e depois soltando todo o ar de seus pulmões de forma vagarosa.

E ele faz por diversas vezes até que eu me concentre no movimento e o repita.

Ele é paciente, e está no chão do banheiro por mim.

Me sinto culpado ainda mais, eu odeio todas as merdas de crises que sempre acontecem em momentos em que eu não sei sequer quais são.

Basta um gatilho e pronto, eu estou tremendo, chorando e agindo de forma impensada, tentando desesperadoramente um tudo para voltar a me sentir eu mesmo.

Hyun-Suk muda seu toque, voltando a entrelaçar nossos dedos e se aproxima um pouco mais.

Sinto quando seus lábios repousam sobre o dorso da minha mão, deixando um beijo longo em cada um. Depois, ele volta a me olhar, me incentivando a continuar com o exercício de respiração.

Hy-Hyun... ㅡ chamo, ainda soluçando. Hyun-Suk nega antes que eu possa continuar. Ele se coloca sobre os joelhos e leva as mãos até minhas bochechas, limpando minhas lágrimas.

ㅡ Não precisa falar, meu bem.

Suspiro, soluçando três vezes seguidas. Vejo como Hyun-Suk volta a busca a toalha e a passa devagar sobre o canto da minha boca. Somente então, eu sinto a dor absurda em minha gengiva.

se atreve a erguer sutilmente meu lábio superior e me olha nos olhos.

ㅡ Está machucado...

ㅡ abaixo o olhar, com vergonha.

Não, está tudo bem mesmo, Jaejun. ㅡ e ele sorri, erguendo meu rosto para si. ㅡ Posso cuidar de você?

desviar meus olhos, respirando fundo quando assinto devagar.

Hyun-Suk sorri, deixando um beijo no centro da minha testa quando se ergue. Eu o vejo ir até à bancada na pia e lá ele fuça as gavetas.

Quando retorna, ele segura um remédio miúdo.

ㅡ É para cortes na gengiva.

Eu busco, ainda não muito recuperado e o olho.

ㅡ Porque você tem isso aqui?

Ele sorri, me ajudando a se erguer.

ㅡ Quando estou trabalhando eu tenho mania de sempre ficar com a caneta de metal na boca, acaba que às vezes me machuco.

indo até à pia, mas sem coragem de me encarar mais. Lavo a boca, sentindo arder e deixo que Hyun-Suk passe o remédio que é

tomar banho? ㅡ outra vez assinto, eu detesto não me sentir capaz até de respirar, de me virar sozinho, mas ele parece não ligar. ㅡ vem, eu vou encher a banheira e a gente toma banho junto,

outra vez sobre a tampa do vaso quando Hyun-Suk vai até a banheira e abre todas as torneiras. A água possivelmente é quente, pois dá para ver a fumaça subir. E rapidamente ela

eu fiquei tentando pensar no que havia me feito ter tal reação. Sei que não foi por causa de Hyun-Suk, tampouco por saber que ele mora com a

foi um tanto surpreendente ouvir aquilo, mas de verdade, não

estava nervoso antes de sequer vermos a moça e de ele me apresentar como apenas

Talvez a conversa sobre mães?

o mais provável. Eu geralmente não falava muito da minha, apenas meus amigos sabiam de tudo e de tudo o que passei depois que ela

falar de como sinto sua falta de forma tão calma, ouvindo que Hyun-Suk também sente falta da sua, talvez isso tenha sido o ponto

só veio a seguir como uma grande pedra que me impulsionou para esse abismo tão particular e não

da saudade e do abandono pareciam que moravam em mim agora. O peso ainda era

pensamentos outra vez foram interrompidos por Hyun-Suk. Olhei-o quando me estirou a mão e quando a segurei, fiquei

abrindo minha calça, retirando-a e me deixando

vergonhas, olhares com segundo intenção. Ele só me despiu e se despiu em seguida, segurando minhas mãos com firmeza quando me levou para

me sentia pequeno, e ter Hyun-Suk me abraçando dentro da água quentinha, me fez se sentir

de forma que eu me sentia humilhado, envergonhado por ser inferior. Não. Pequeno da forma em como os sentimentos de quando eu tinha apenas oito anos e sequer pude escolher viver o que vivi

como se eu fosse outra vez o garotinho de oito anos, com as roupas sujas de fuligem e o rosto molhado de lágrimas, sendo segurado pelos braços da avó mais amável do mundo, sussurrando para mim que a mamãe

que ela não estivesse mais

embalava em seus braços, me deixando encolhido ali e sempre acariciava meus cabelos, molhando-me com um pouco de água toda vez que

não falava nada. Buscava um pouco de água com as mãos e a deixava cair sobre meus

respiração estava calma, sua paciência era

horas ali comigo

perguntou se eu queria sair e eu assenti, ele buscou a toalha e

sorri quando ele parou de frente comigo já seco e ele continuava molhado. Afastei seus cabelos loiros e molhados da testa e me apressei a deixar um beijo

não conseguia falar nada ainda, mas eu queria que ele soubesse que eu

nos vestimos em pijamas sem graça e escuros, voltamos a sentar sobre a

estava na minha frente, mas não me apressava a falar nada. Eu brincava com os dedos e olhava para minhas mãos, buscando coragem para lhe explicar

Eu tive... uma crise de

ㅡ E você tem isso sempre?

Neguei.

quando... quando fico desconfortável ou... quando lembro

ㅡ Dela?

ㅡ Minha mãe.

buscou minhas mãos, fazendo-me lhe

ㅡ Você a viu partir?

Assenti outra vez.

ㅡ Sinto muito, meu bem.

só dei de ombros, não era como se eu pudesse apagar isso, porque se eu pudesse, já teria

ㅡ Se sente melhor agora?

Um pouco... você cuidou de mim, Hyun.

Eu gosto de você, Jaejun, gosto mesmo. E eu quero que veja tudo o que eu vivo, mas me desculpe se de alguma forma eu te fiz ter isso. Talvez eu tivesse ter falado sobre Sunhee antes, mas teve tudo aquilo com Hesun e eu fiquei com ainda mais medo de te

não vai me perder. ㅡ falei baixo, sorrindo pequeno. ㅡ porque eu gosto disso, Hyun. Mas nós não somos só amigos. ㅡ o

ㅡ Eu sei que não, desculpe.

ㅡ Tudo bem.

Hyun-Suk suspirou profundamente.

ㅡ Está com sono?

ㅡ Estou com fome...

buscar algo para que coma e vou buscar algo que quero muito que veja, é uma surpresa. Você pode me esperar por um

ㅡ Tudo bem.

parece ainda com receio de me deixar sozinho, e essa é a parte ruim de ter uma crise na frente de qualquer pessoa que se importe conosco, eles sempre ficam preocupados

ele precisa acreditar quando eu digo que está tudo bem, porque, talvez, eu me sinta à vontade para lhe dizer também quando

assim que ele ainda me olha e sorri antes de realmente me

suspiro quando enfim me sinto sozinho. Em crises como as que eu tive, às vezes ocorre de eu arranhar minha própria pele, às vezes me belisco e a sensação logo após é a

eu sinto somente o gosto estranho do remédio que ainda tenho em minha boca, pensando o quanto eu mordi a toalha com força para chegar ao ponto de me

até mesmo ter machucado um de meus dentes, isso seria

queria parar de sentir isso, queria muito. E estava ciente de que precisava de um profissional para me acompanhar em um tratamento correto com exames e talvez, se necessário,

coisa sempre foi impossível devido ao valor que eu não tinha livre para

agora que eu tenho um trabalho bom e que eu tenho um plano de saúde, talvez eu busque saber o que fazer

Ir ao psicólogo? Fazer terapia?

Talvez.

se o plano não cobrisse nada disso, a depender do valor e a depender do que eu ficaria após mandar um pouco do que tenho para

não podia esquecer dela e nem do dinheiro que eu sei que ela usava para cuidar

tempo pensando sobre isso que só notei estar gastando tempo demais, quando Hyun-Suk voltou com uma bandeja arrumadinha com sanduíches para nós dois, enquanto em sua mão estava a sua tal

meus olhos ao vê-lo com uma bolota de pelos laranjas e pulo da cama, animado enquanto corro até

deixando a bandeja sobre a mesa que há em um canto e segura o gatinho com ambas as

observo sem me

Me dê sua mão. ㅡ

entrego e então vejo-o levá-la até

os olhos cravados em mim, e talvez esteja assustado, por tanto, Hyun-Suk segura minha mão na altura de seu focinho, fazendo-o cheirá-la pelo tempo que quiser, e quando o gato volta a me olhar, Hyun-Suk leva meus dedos até as orelhinhas laranja, me deixando

Esse é Mingu. ㅡ ele

Eu me aproximo mais, sorrindo.

parece aproveitar bem o carinho, pois ergue a cabeça, pedindo carinhos em seu