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Caminho Traçado - Uma babá na fazenda romance Capítulo 236

— Eu não deixei ninguém especial — respondeu, afastando o olhar do celular, com um leve suspiro, tentando não demonstrar o quanto aquilo a afetava.

— Ah, isso é bom, de certa forma. Assim, você não fica remoendo o que deixou para trás — comentou Tess, com um sorriso.

— É... você tem razão.

— Quando eu vim para cá, fiquei por semanas me perguntando se estava fazendo a coisa certa. Mas o meu namorado me apoiou tanto, sabe? Foi por ele também que vim. Ele me disse: “Vai, brilha. Eu espero.” — Tess sorriu, com os olhos cheios de brilho e orgulho.

— Que sorte a sua ter alguém que te impulsione assim.

— Sim, é muito bom — respondeu, com sinceridade.

Eloá apenas assentiu, mas dentro de si, as palavras da colega pareciam reverberar como um eco incômodo. Ela não havia deixado para trás um amor que a esperava com flores nas mãos. Pelo contrário. Deixou seu lado vulnerável e cicatrizes mal curadas, que não cabiam na mala.

Terminou de guardar as roupas dobradas com cuidado e, junto com Tess, saiu para explorar o refeitório do campus e fazer a primeira refeição ali. Comeram, riram de algumas diferenças culturais e voltaram para o quarto mais soltas. Tess era divertida, e aquilo, de algum jeito, amenizava um pouco o peso dos primeiros dias longe de casa.

Quando a noite caiu e a movimentação do corredor diminuiu, Eloá se deitou em sua cama. O colchão novo ainda era estranho, e o teto branco demais. No silêncio do quarto, pegou o celular para dar uma última olhada antes de dormir. A notificação de Gael ainda estava ali.

Ela hesitou por alguns segundos, seus dedos flutuavam sobre a tela. Pensou em não abrir. Em ignorar. Fingir que não teve tempo, mas, por fim, abriu a mensagem.

“Desculpa não ter te mandado mensagem antes. Eu ainda estava tentando digerir a ideia de não te ver por um tempo. Sei que já disse isso antes, mas estou sendo muito sincero: você vai fazer muita falta para mim.”

O coração dela acelerou levemente. Porque sentia a sinceridade que ele havia deixado naquelas palavras. Gael era sensível, direto e muito honesto.

Por que não ele? Mais uma vez, a sua mente se perguntava o motivo de não ter se apaixonado pelo gêmeo descomplicado.

Ela suspirou fundo, bloqueando a tela do celular sem responder. Deitou-se de lado, puxou o cobertor até o queixo e fechou os olhos.

Mas as palavras dele ficaram ali. Martelando na cabeça como um lembrete de que ela não sabia fazer as escolhas certas.

[…]

No outro dia, o campus estava movimentado e cheio de energia. Os calouros circulavam por todos os lados, ansiosos com as primeiras orientações. O sol brilhava tímido entre as árvores altas, e o ar trazia um frescor típico de começos. Eloá observava tudo com olhos atentos, tentando absorver o máximo que podia, mesmo que seu coração ainda estivesse um pouco distante dali.

Enquanto esperava na fila para pegar os materiais da semana introdutória, Brook, a tutora designada por Saulo, se aproximou com um sorriso acolhedor.

Brook sorriu, tocando de leve no ombro de Eloá antes de se levantar.

— Te vejo mais tarde no auditório, combinado?

— Combinado.

Eloá a observou se afastar e, por um momento, respirou fundo, como se o ar ali tivesse mudado um pouco. Ainda era tudo muito novo, muito grande, mas talvez… só, talvez, poderia não ser tão ruim quanto pensava.

Ela se levantou e caminhou em direção à ala norte, onde seria o encontro com os tutores e outros alunos internacionais. A cada passo, ainda sentia o peso da saudade, mas também algo novo começando a nascer: uma pontinha de pertencimento.

Mesmo sem perceber, já havia dado o primeiro passo para recomeçar. Estava tentando manter a cabeça ocupada com tudo o que podia: novas rotinas, rostos desconhecidos, orientações, horários e expectativas. Era uma forma de não pensar. Porque toda vez que o silêncio se fazia, toda vez que a mente encontrava uma brecha, ela voltava.

Voltava para Henri.

Para o toque que ele deixou marcado em sua pele como se fosse uma tatuagem invisível, daquelas que ardem, mesmo sem cor. Um traço que ela sabia que precisaria apagar, mas que, por enquanto, ainda latejava como se tivesse sido feito a ferro.

Esquecer não era tão simples quanto diziam. E fingir que não sentia nada era ainda mais difícil do que poderia imaginar. Mas ela tentaria, com todas as forças do mundo.

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