Não foi fácil pegar no sono naquela noite. Nem o cansaço da viagem, nem o peso da gravidez conseguiram fazer Eloá descansar. Tudo parecia estranho: o quarto em que cresceu, antes tão familiar, agora lhe causava uma sensação de estranhamento e melancolia. Sentia-se vulnerável, sozinha, e a ausência de Gael ao seu lado a fazia apertar o peito de saudade.
Quando o primeiro brilho da manhã começou a entrar pela janela, ela não conseguiu mais permanecer na cama. Levantou-se devagar, sentindo o corpo cansado, e caminhou pelo corredor silencioso. Passou pelo quarto dos irmãos, onde os meninos dormiam tranquilos, monitorados pelas câmeras. Não queria acordá-los, então apenas os observou por alguns instantes, imaginando-se em breve segurando seu próprio bebê nos braços.
Seguindo até a varanda, respirou fundo o ar frio da manhã. A luz pálida do sol nascente tingia o céu, trazendo uma estranha sensação de esperança no meio do turbilhão de emoções. Aproximou-se da rede, querendo se apoiar, e foi quando percebeu: seu pai estava lá, encostado na grade da varanda, olhando para o horizonte.
— Pai… — sussurrou, surpresa e ainda com o coração apertado.
Saulo se virou lentamente, seus olhos mostravam cansaço e algo que ela não sabia nomear.
— Não conseguiu dormir também? — ele perguntou, um pouco hesitante.
— Não — respondeu ela, sentando-se devagar na rede, entrelaçando os dedos no colo.
Não sabia como seria aquele dia com ele, nem que palavras seu pai poderia escolher, mas respirou fundo e tentou manter a calma, lutando para não deixar transparecer as emoções conflitantes que a dominavam.
O silêncio pairou por alguns segundos, pesado como se cada palavra precisasse ser medida com cuidado.
— Eu… — ela começou, sem saber exatamente o que dizer.
— Eu sei que errei, — interrompeu Saulo, aproximando-se dela com passos lentos. — Talvez tenha falado coisas que jamais deveria. Mas você precisa entender algo: nada do que aconteceu muda o fato de que te amo e que quero te proteger.
Eloá engoliu em seco, olhando para o chão. O peito apertado, a raiva ainda pulsando, mas misturada à necessidade de ouvir o pai.
— Eu sei — respondeu por fim, com a voz trêmula. — Mas dói, pai. Dói muito ouvir certas coisas…
Saulo assentiu, sem palavras por um instante, e se sentou ao lado dela na rede. A distância entre eles ainda era grande, mas a presença dele ali, silenciosa, trouxe algo que ela não sentia há horas: a sensação de que, talvez, aquele dia pudesse começar a se acertar.
Sentados lado a lado, nenhum dos dois ousava encarar o outro, apenas observavam o horizonte.
— Quando você nasceu, acostumava acordar bem cedo — ele começou, num tom suave — diferente da Elisa, que sempre foi uma dorminhoca.
Ela deu um meio sorriso, lembrando-se das pequenas comparações que ele sempre fazia.
— Então, para dar um descanso à sua mãe, eu te trazia para cá, para fora, e ficava com você no colo, deitado na rede.
— Eloá… — começou ele, com a voz mais baixa, quase quebrada —, você acha que a sua vida inteira deveria ser só acertos? Que nunca poderia errar? Eu… eu também falhei com você de muitas maneiras, e olha só, estamos aqui, tentando entender tudo. Nem eu, nem você, fomos perfeitos.
Ela respirou fundo, tentando absorver as palavras.
— Pai… — sussurrou ela, segurando a própria barriga —, eu só queria que o senhor soubesse que, apesar de tudo, eu nunca deixei de te amar. E que, mesmo com medo, estou tentando consertar as coisas, por mim, por esse bebê e por vocês.
Ele se aproximou lentamente, colocando uma mão firme sobre a dela, sobre a barriga, sentindo o vínculo pulsar ali, entre passado e futuro.
— Eu sei, minha filha… eu sei — respondeu, emocionado. — Eu agi muito errado ontem e nem consegui pregar o olho a noite toda pensando no que fiz e falei.
— Eu também errei ao aparecer daquele jeito — ela respondeu envergonhada.
— Se eu te disser que estou feliz com tudo isso, estaria mentindo. Mas não posso deixar de reconhecer o quanto fui duro ontem à noite… disse coisas que foram mal interpretadas, que magoaram você, e quero me corrigir por isso. — Sua voz falhou por um instante. — Não quero ser um pai que não entende a filha, que menospreza quem ama. Eu já passei por momentos terríveis na minha própria família e juro que não quero jamais repetir aqueles erros.
Ele fez uma pausa, deixando que o silêncio preenchesse o espaço entre eles.
— Sei que não posso desfazer o que aconteceu, mas essa madrugada me fez refletir. Me fez perceber o quanto preciso entender o seu lado… e o quanto precisamos começar de novo. Posso te pedir isso? Que tentemos recomeçar novamente?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Caminho Traçado - Uma babá na fazenda
Além de pular capítulos, ainda não tem os capítulos bônus! Onde podemos ler a história completa e de graça?...
Os capítulos 73. 74 estão faltando ai ñ da para compreender e ficamos perdidas...
Alguém tem esse livro em PDF ?...
Do capítulo 70 em diante não se entende mais nada, pulou a história lá pra frente… um fiasco de edição!!!...
A partir do capítulo 10, vira uma bagunça, duplicaram a numeração dos capítulos, para entender é preciso ler apenas os lançados em outubro de 2023, capítulo 37 está faltando, a rolagem automática não funciona, então fica bem difícil a leitura! Uma revisão antes de publicar não faria mal viu!!!...
Nossa tudo em pe nem cabeça, tufo misturado, não acaba estórias e mistura com outro, meu Deus...
Lindo demais...