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Caminho Traçado - Uma babá na fazenda romance Capítulo 412

Quando avistou a casa enorme da fazenda, Catarina sentiu um tremor percorrer o corpo. Era impossível não lembrar que, naquele mesmo lugar, havia acontecido uma das cenas mais assustadoras de sua vida: o pai a flagrando com Henri, invadindo o quarto e partindo para cima dele. A lembrança ainda lhe provocava gatilhos, como se cada detalhe daquela noite permanecesse gravado em sua memória.

— Está tudo bem? — Henri perguntou ao notar o rosto dela completamente paralisado.

Saindo do transe de repente, ela respirou fundo e balançou a cabeça.

— Claro… está tudo bem.

Mas até ela sabia que sua voz não soava tão firme quanto desejava.

O veículo parou em frente à casa e eles desceram. Assim que entraram na sala, se depararam com a pequena Helena no colo de Elisa, ao lado de Noah. Ao vê-los, os dois abriram um sorriso largo e correram para abraçá-los.

Mesmo recebendo carinho e sendo tratada com toda a atenção, Catarina não pôde evitar o aperto no peito. Sentiu-se pequena naquele espaço tão imponente, cercada por pessoas que nasceram em berço de ouro. Ela, uma moça simples, parecia deslocada no meio de toda aquela gente, ainda que ninguém ali a fizesse se sentir assim de propósito.

Enquanto Henri conversava com o irmão, Elisa se aproximou de Catarina para puxar assunto.

— Você é tão linda, Catarina — disse ela, sentando-se ao seu lado.

— Obrigada — respondeu Catarina, sentindo as bochechas ficarem coradas. — Você também é muito linda.

— Obrigada! — Elisa sorriu. — Agora só falta a minha irmã, Eloá, chegar dos Estados Unidos para o nosso grupo ficar completo.

— Quando sua irmã chega? — perguntou.

— Daqui a dois dias — disse, empolgada. — Ela vai gostar muito de te conhecer também.

Sem saber exatamente o que dizer, Catarina apenas sorriu em concordância, ainda um pouco tímida.

— Não vejo a hora de planejarmos o que vamos fazer na virada do ano — Elisa continuou, animada, com os olhos brilhando ao imaginar as possibilidades.

Catarina sorriu de leve, ainda se acostumando com toda aquela empolgação e com a forma acolhedora com que Elisa falava com ela. A sensação de estar incluída, mesmo sem conhecer muito bem ninguém além de Henri, lhe trazia um pequeno conforto no peito.

— Vocês costumam fazer algo especial? — Catarina perguntou, mais por educação do que por verdadeira curiosidade, mas Elisa pareceu adorar a pergunta.

— Sempre! — ela respondeu, animada. — Às vezes viajamos, outras ficamos aqui mesmo na fazenda. Noah gosta de fogos, Henri prefere algo mais tranquilo, e Eloá… bom, Eloá agora é mãe, então deve preferir algo mais tranquilo também.

Catarina riu baixinho.

— E você? — ela perguntou.

— Eu gosto de tudo — disse Elisa, dando de ombros. — O que importa é estarmos juntos. Mas já que você está aqui, a gente precisa planejar algo que você também goste.

Mais uma vez, Catarina se sentiu surpresa por ser incluída tão naturalmente.

— Eu realmente não sei… — admitiu. — Nunca fiz nada muito elaborado no Ano-Novo.

Elisa arregalou os olhos, chocada de forma divertida.

— Então vai fazer agora! — declarou, como se já estivesse decidido. — Vamos pensar em alguma coisa bem legal para você ter uma virada de ano inesquecível.

— Você é muito gentil…

— Não sou, não — Elisa riu. — Só gosto de ver as pessoas felizes. E você vai ver como essa família é barulhenta, mas do jeito bom.

Ouvindo as risadas das duas, Noah virou-se da conversa com o irmão.

— Já estão planejando o Ano-Novo sem mim? — ele provocou, se aproximando.

O medo.

— Catarina… — ele chamou, com a voz suave, dando um passo na direção dela.

Ela não respondeu, como se estivesse presa a um passado que insistia em voltar. Com o peito apertado, entendeu que ela estava revivendo tudo por dentro, cada detalhe daquele fatídico dia que marcou ambos para sempre.

— Ei… — ele disse com a voz baixa e cuidadosa. — Não se preocupe com nada. Tudo já passou.

Ela piscou algumas vezes, como se estivesse lutando para voltar ao presente. Seus olhos ainda estavam fixos na janela, no ponto exato onde seu pai havia surgido naquele dia, furioso, mudando o rumo da vida dela com um único instante.

— Eu sei… — ela murmurou, mas sua voz saiu fraca.

Inclinando um pouco o rosto, Henri tentou encontrar o dela.

— Você está aqui comigo, Cat. Nada vai acontecer. Não agora. Não mais.

Ela desviou finalmente o olhar da janela e encontrou o dele. Havia um tremor leve em seus lábios, como se algo dentro dela tivesse se quebrado e ao mesmo tempo se reconstruído.

— Às vezes parece que ainda estou lá… — confessou, num sussurro. — Parece tão real.

Aproximando-se mais um passo, agora segurando delicadamente as mãos dela.

— Eu lembro que também senti isso por muito tempo — ele admitiu. — Mas você é forte. Bem mais forte do que acha. E eu… eu estou aqui. Com você.

— Desculpa — ela murmurou.

— Não tem por que pedir desculpas — ele respondeu, passando o polegar suavemente sobre o dorso da mão dela. — Você passou por muita coisa. É normal sentir isso.

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