Nuria
O som da porta se fechando ecoou no corredor como uma sentença.
Fiquei ali, imóvel, olhando o espaço vazio que ele deixou para trás.
Não chorei.
Não dessa vez.
A rejeição queimava dentro de mim como fogo frio.
Stefanos não apenas me deixou para trás...
ele me afastou.
Como se o meu amor fosse um peso.
Como se a minha presença fosse algo que ele já não pudesse carregar.
Mas eu entendi.
Entendia melhor do que ele jamais imaginaria.
A dor de perder a família... de ver o mundo ruir sob os próprios pés sem poder salvar nada...
Essa dor era minha velha conhecida.
A diferença é que Stefanos ainda podia enterrar os pedaços.
Eu nunca tive essa chance.
Quando perdi minha família, seus corpos foram deixados para trás, espalhados como farrapos de uma história esquecida.
Sem cuidado.
Sem cerimônia.
Sem respeito.
Só restaram ali.
Expostos.
Frágeis.
Eu sabia o que era carregar essa dor no peito.
Sabia o que era caminhar sozinha entre os escombros daquilo que um dia se chamou lar.
Stefanos esqueceu disso.
Esqueceu que eu sabia.
Fechei os olhos e a lembrança me atingiu como uma onda brutal:
meus pais, meus irmãos...
o cheiro deles arrancado da terra que costumávamos chamar de casa.
Seus sorrisos apagados como velas diante da tempestade.
A solidão que ficou para trás foi um abismo que nunca consegui preencher.
Até agora.
Até ele.
Stefanos era minha família.
Meu porto seguro.
Minha âncora no meio do caos.
Foi ele que me arrancou do abismo e me fez respirar novamente.
E agora...
ele estava caindo no mesmo abismo.
E, mesmo doendo, mesmo me cortando por dentro como lâminas finas, eu sabia:
ele precisava dessa fúria.
Ele precisava dessa guerra.
Talvez, no fundo, fosse o único jeito que Stefanos conhecia para continuar respirando.
"Nuria, não acha que deveria..." Jenna falou, hesitante, permanecendo ao meu lado, como se pudesse me dar forças.
Virei o rosto para ela, sem raiva. Só com o cansaço pesando nos olhos.
"Não," respondi, firme. "Ele não quer isso. Não quer me ver do lado dele nesse momento. Não quer parecer vulnerável. E eu não vou aceitar ser humilhada diante da alcateia para que ele prove força."
"Mas Nuria..." ela tentou de novo.
Suspirei, sentindo o peso da verdade que carregava.
"Ele e Johan tinham uma história, um laço profundo. Eu e Johan... só trocamos farpas. Mágoas." Apertei meus dedos em punho. "E nesse momento..." — minha voz falhou por um segundo, "eu sou, em parte, uma das razões para a morte daquele garoto."
"Não diga isso," Jenna contestou, a voz embargada. "Isso não é verdade. Johan causou isso tudo. Se ele..."
"Eu sei," interrompi com um meio sorriso amargo. "Você sabe. Stefanos sabe. Mas o coração dele precisa encontrar um culpado, mesmo que seja de forma inconsciente. E se eu me colocar ao lado dele agora, vou ser o alvo dessa dor. E eu..." engoli em seco, "eu ainda não estou pronta para suportar isso."
Horas depois, ouvi o som do carro retornando à mansão.
A energia mudou.
O cheiro de guerra entrava pelas paredes.
O cheiro da raiva.
Da dor bruta.
Do lobo que voltou manchado de sangue... ainda que apenas por dentro.
Levantei.
Minhas pernas estavam pesadas, mas meu coração era mais pesado ainda.
Saí do quarto e desci as escadas devagar, sentindo cada batida do coração ecoar na garganta.
Stefanos cruzava o hall destruído.
Não olhou para ninguém.
Não procurou ninguém.
Carregava em si o peso de toda a Boreal.
Ele caminhou diretamente para o seu escritório, ignorando a minha presença.
Levei a mão ao ventre, sentindo a dor da distância dele que era pior do que qualquer enjoo ou cansaço. Por um momento eu pensei em desistir, pensei em ignorar, mas minha loba se recusava, ela queria estar perto dele, cuidando de suas feridas. Cuidando principalmente de seu coração.
Comecei a andar até chegar ao escritório onde as portas estavam abertas e o encarei. Suas costas estavam tensas, e ele se sobrava sobre os mapas a sua frente. A sombra se projetando na parede de forma fantasmagórica.
"Stefanos..." chamei, tentando manter a voz firme.
Ele nem virou o rosto.
"O que foi?" rosnou, baixo, selvagem. "Veio me impedir?"
O som da sua voz deveria ter me afastado.
Deveria ter me feito recuar.
Mas só fez minha loba avançar.
Só fez meu instinto gritar:
Fique.
Lute.
Por ele.

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