Valentina tentava se concentrar.
Tentava.
Mas o golfe definitivamente não colaborava.
A bola permanecia ali, imóvel, quase desafiadora, enquanto ela alternava entre acertar o ar com convicção exagerada ou raspar o chão com uma determinação que não produzia absolutamente nada de útil.
Ela tentou outra vez. Respirou fundo, posicionou os pés como tinha visto Akemi fazer, ajustou as mãos no taco e concentrou o olhar na bola branca repousando no gramado impecável.
Desceu o taco.
O som seco veio…
mas não da bola.
O chão respondeu primeiro.
Ela fechou os olhos por um segundo, contendo o impulso de rir de si mesma.
— Ok… — murmurou. — Pelo menos eu estou acertando alguma coisa.
Tentou novamente.
Dessa vez, o taco cortou o ar com convicção demais. A bola sequer se moveu.
Valentina soltou o ar devagar, apoiando o peso do corpo em uma perna só, olhando o campo à frente como se ele tivesse conspirado contra ela desde o início.
Não estava frustrada.
Estava… consciente.
Consciente demais de que estava sendo observada.
Não por julgamento.
Por atenção.
Rafael a observava a alguns metros de distância.
Não havia pressa no modo como se aproximou. Nenhum gesto de superioridade. Apenas passos firmes, tranquilos, como quem decide algo simples — ajudar.
— Você está tentando compensar com força. — disse, parando ao lado dela.
Valentina virou o rosto, surpresa apenas o suficiente.
— É assim que faço quando não sei o que estou fazendo. — respondeu, com um meio sorriso honesto. — Geralmente funciona melhor em tribunais.
Rafael quase sorriu.
Quase.
— Posso te mostrar? — perguntou.
Ela assentiu sem pensar muito.
— Por favor.
Ele se posicionou atrás dela.
Muito perto.
Valentina sentiu antes de ver.
O calor do corpo dele.
A presença sólida.
A diferença brutal entre tentar sozinha e ter alguém ali, guiando.
— Relaxe os ombros. — Rafael murmurou.
As mãos dele tocaram primeiro nos ombros dela, firmes, quentes, ajustando a postura com cuidado quase excessivo. Depois desceram lentamente pelos braços, alinhando cotovelos, corrigindo ângulos.
O toque não era invasivo.
Mas era íntimo demais para ser ignorado.
O corpo dela reagiu antes da mente.
A respiração ficou mais curta.
O coração bateu mais rápido.
Rafael estava colado agora.
O peito dele às costas dela.
O braço passando à frente do corpo dela para ajustar a posição do taco.
— Assim. — disse, baixo, próximo demais do ouvido dela. — Não força. Confia no movimento.
O perfume dele se misturava ao ar limpo do campo.
O vento leve não ajudava.
Nada ajudava.
Valentina engoliu em seco.
— Rafael… — começou, sem saber exatamente o que diria.
— Foca. — ele interrompeu, gentil, mas firme. — Só nisso agora.
As mãos dele envolveram as dela no cabo do taco.
Dedos quentes.
Precisos.
Seguros.
Ela sentiu.
Sentiu tudo.
— Agora… — ele disse, a voz baixa demais para ser casual. — Vai.
Valentina respirou fundo.
Desceu o taco.
O impacto foi limpo.
Perfeito.
A bola ganhou o ar e seguiu em linha reta, cortando o campo com uma elegância inesperada.
— Eu… — ela arregalou os olhos. — Eu acertei?
Rafael soltou as mãos dela lentamente.
— Acertou. — respondeu.
Valentina se virou rápido, o sorriso aberto, genuíno, luminoso.


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