Valentina acordou com a cabeça latejando.
Não era uma dor comum. Era daquelas que começam atrás dos olhos e se espalham, como se o corpo inteiro estivesse lembrando antes da mente. Ela gemeu baixo, sem abrir os olhos, tentando se virar — e parou.
Braços.
Fortes. Quentes. Firmes demais para serem imaginação.
O braço de Rafael estava em torno da cintura dela, pesado, protetor, puxando-a para trás como se, mesmo dormindo, ele tivesse decidido que ela não iria a lugar nenhum. A respiração dele batia ritmada na nuca dela. Calma. Profunda.
Valentina abriu os olhos de uma vez.
E tudo voltou.
O elevador.
O beijo.
O quarto.
As mãos.
A voz dele baixa, cuidadosa.
O jeito como ele não a apressou.
O jeito como ele a segurou depois, como se aquilo fosse tão sério quanto qualquer contrato que ele já tivesse assinado.
Ela fechou os olhos com força.
— Que merda eu fiz… — murmurou, quase sem som.
Se espreguiçou devagar, sentindo o corpo reclamar. Um incômodo conhecido, íntimo, impossível de negar. As pernas. A cintura. O tipo de dor que não era dor — era lembrança.
— Por que eu fiz isso… — sussurrou de novo.
E então sentiu o braço dele se ajustar, inconsciente, apertando-a um pouco mais contra o peito dele. Como se ele soubesse que ela estava acordada. Ou como se simplesmente não soubesse mais dormir sem ela ali.
Valentina respirou fundo.
Lembrou da boca dele.
Do cuidado.
Do controle que ele perdeu só o suficiente.
Do jeito como ele a olhou depois, como se tivesse mudado alguma coisa que nem ele entendia ainda.
Ela virou o rosto devagar e olhou para ele.
Rafael dormia de lado, o rosto relaxado de um jeito que ela nunca tinha visto. Sem a rigidez habitual. Sem o peso do mundo nos ombros. Bonito demais para alguém que tinha bagunçado tanto a cabeça dela.
Valentina franziu o cenho.
— Tudo culpa sua, seu idiota… — murmurou.
Com cuidado para não acordá-lo, afastou o braço dele da própria cintura e se sentou na cama. O lençol deslizou, o ar frio tocando a pele quente, e ela fez uma careta ao se levantar.
— Claro que tinha que ser duas vezes… — resmungou, andando devagar. — Na minha primeira vez. Idiota.
Pegou uma roupa qualquer no caminho e entrou no banheiro, fechando a porta com mais força do que pretendia.
O vapor começou a subir quase imediatamente quando abriu o chuveiro. Valentina apoiou as mãos na pia, encarando o próprio reflexo por um segundo. O rosto ainda marcado pelo sono. Os lábios levemente inchados. Os olhos cheios de coisas que ela não tinha decidido ainda.
— Eu não planejei isso… — disse para si mesma.
Entrou debaixo da água quente e gemeu baixo quando o jato bateu nos ombros tensos. Inclinou a cabeça para frente, deixando a água escorrer pelo cabelo, tentando organizar pensamentos que não queriam ser organizados.
Deu um passo para trás — e bateu a testa de leve no azulejo.
— Ai… — reclamou, irritada. — Ótimo. Perfeito.
Encostou a testa na parede fria, respirando fundo.
— Por que ele tinha que ser bonito? — murmurou.
Rafael acordou devagar.
Não foi o corpo que despertou primeiro — foi a consciência. Aquela sensação rara de estar inteiro demais em um lugar que não reconhecia como seguro. O quarto ainda estava mergulhado na luz difusa da manhã, as cortinas filtrando o mundo lá fora, o silêncio pesado demais para ser confortável.
Ele se virou na cama por instinto.
E então viu.
O lençol.
A mancha pequena, escura demais contra o branco impecável do hotel. Um detalhe simples. Objetivo. Irrefutável.
Rafael fechou os olhos no mesmo instante.
Não de nojo.


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