A porta do banheiro se abriu devagar.
Valentina saiu envolta apenas na toalha branca, os cabelos ainda úmidos caindo pelos ombros, o cheiro suave do sabonete misturado ao vapor quente que escapava do banheiro. Por um segundo, ela estava distraída demais consigo mesma para perceber.
Até levantar o olhar.
Rafael estava de pé ao lado da cama.
Não a encarou de imediato — ajustava a manga da camisa aberta, os botões ainda por fechar, como se tivesse acabado de lembrar que não estava sozinho. Quando ergueu o rosto, o olhar encontrou o dela no mesmo instante.
O tempo desacelerou.
Rafael Montenegro tinha 1,95 de altura, e aquela estatura não passava despercebida nem parado. O corpo era largo na medida certa, ombros firmes, músculos definidos não pelo exagero, mas pela constância — o tipo de homem que não precisava provar força porque ela simplesmente estava ali. A pele clara contrastava com a camisa escura, aberta o suficiente para deixar à mostra o peito marcado, linhas fortes sem ostentação.
O cabelo castanho-claro estava levemente bagunçado, como se ele tivesse passado a mão ali mais vezes do que o habitual. Os olhos castanhos, profundos, atentos, carregavam algo diferente naquela manhã — menos cálculo, mais vigilância silenciosa.
Valentina percebeu que estava olhando demais.
E, mesmo assim, não desviou.
O olhar dela desceu sem pedir permissão. Ombros. Peito. Abdômen firme, sem excessos, sem pressa de impressionar. Um corpo feito mais de presença do que de espetáculo.
Ela engoliu em seco.
— Bom dia. — Rafael disse.
A voz estava baixa. Grave. Um pouco rouca demais para ser só efeito do sono.
Valentina piscou, trazendo-se de volta.
— Bom dia. — respondeu.
O silêncio que se seguiu não era constrangedor. Era carregado. Daqueles que dizem tudo porque ninguém ousa dizer nada.
Valentina respirou fundo e desviou o olhar primeiro.
Caminhou até a pequena mesa próxima à janela, onde uma sacola repousava desde a noite anterior. Ajoelhou-se diante dela, procurando algo com mais pressa do que admitiria.
— Vou… — começou, sem saber exatamente o que explicar. — Vou me vestir.
Rafael não respondeu. Apenas permaneceu ali, atento demais para alguém que dizia a si mesmo que precisava manter distância.
Valentina puxou de dentro da sacola o vestido que havia usado antes de se trocar para o baile. Um movimento simples. Rotineiro.
Só que a toalha não colaborou.
Ela escorregou no instante em que Valentina tentou segurar o vestido e a própria sacola ao mesmo tempo. Um segundo de desequilíbrio. Um gesto automático.
E a toalha caiu.
O mundo parou.
Valentina congelou no lugar, o vestido preso em uma mão, a sacola na outra, o corpo exposto por um segundo longo demais para ser ignorado.
Rafael virou o rosto instintivamente — rápido demais para parecer casual, lento demais para fingir que não tinha visto nada.
O ar ficou denso outra vez.
Valentina sentiu o calor subir pelo rosto.
— Merda… — murmurou, mais para si do que para ele.
A toalha estava no chão.
E nada naquele quarto parecia disposto a colaborar com decisões racionais.
Rafael foi até ela sem pressa.
Não como quem avança.
Como quem decide.
Pegou a toalha do chão com um gesto simples e a envolveu novamente ao redor do corpo de Valentina, ajustando o tecido com cuidado inesperado para alguém conhecido por ser direto em tudo. Os dedos dele tocaram a pele dela só o necessário — e ainda assim, foi demais.
Valentina soltou o ar que nem percebeu que estava segurando.
— Obrigada… — murmurou.


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