O banheiro fechou atrás de Rafael com um clique suave.
Valentina ficou estendida na cama por alguns segundos, encarando o teto como se ele tivesse respostas. O lençol ainda guardava o calor da noite. O quarto cheirava a sabonete, a perfume caro, a algo que não existia ali antes.
— Somos dois adultos transando… — murmurou para si mesma, como se estivesse se dando um sermão. — Isso é normal.
Virou o rosto para o lado, afundando o queixo no travesseiro.
— Não me traia, coração idiota…
O corpo respondeu antes da razão. Um incômodo lento, espalhado, que a fez gemer baixinho quando tentou se levantar.
— Ai… — reclamou, sentando-se com cuidado. — Claro. Óbvio. Tinha que doer.
E, ainda assim, sorriu.
Porque lembrava.
Lembrava das mãos dele. Da calma. Do jeito como ele não apressou nada. Do cuidado quase solene, como se aquele momento fosse mais sério do que qualquer contrato que ele já tivesse assinado.
Valentina passou a mão pelo próprio rosto, respirou fundo e se levantou, andando devagar até a poltrona perto da janela. Vestiu o roupão branco do hotel, macio demais para ser real, e se aproximou do telefone.
O estômago roncou.
Ela arregalou os olhos.
— Tá bom, tá bom… — murmurou. — Já entendi.
Pegou o telefone e pediu café da manhã. Em japonês. Mais ou menos.
Muito mais ou menos.
Do outro lado da linha houve uma pausa respeitosa. Depois um “hai” contido demais para alguém que tinha acabado de ouvir aquilo.
Valentina desligou satisfeita.
— Arrasando na fluência. — elogiou a si mesma.
O som do chuveiro cessou alguns minutos depois.
Rafael saiu do banheiro vestindo apenas a calça, o cabelo ainda úmido, a camisa pendurada no braço. O ar parecia diferente quando ele estava ali fora — menos tenso, menos afiado. Mais… humano.
Foi exatamente nesse instante que a campainha tocou.
Valentina virou-se animada.
— Café!
O funcionário entrou com o carrinho, postura impecável, olhos baixos. Valentina agradeceu com um sorriso aberto e um japonês… criativo.
Criativo demais.
O homem ficou vermelho.
Muito vermelho.
Do tipo que começa no pescoço e sobe rápido demais para o rosto.
Ele se curvou, quase tropeçando no próprio movimento, murmurou algo rápido demais e saiu balançando a cabeça como se estivesse tentando sobreviver ao próprio constrangimento.
Valentina franziu o cenho, olhando a porta fechar.
— O que foi que eu disse? — perguntou, genuinamente confusa. — Ele quase explodiu?
Rafael, que observava tudo encostado na parede, cruzou os braços e sorriu.
Sorriu de verdade.
— Você disse: “Obrigada, senhor… você é bonito.”
Valentina congelou.
— Não. — disse, imediatamente. — Eu disse obrigada e tenha um bom dia.
Rafael riu.
— Você disse as duas coisas. Na mesma frase.
Ela abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.
— Não… — levou a mão ao rosto. — Não. Não é possível.
Rafael inclinou a cabeça, divertindo-se com a cena.
— Malditos doramas… — ela murmurou, arrasada. — Agora tudo faz sentido. Por isso ele ficou vermelho. Meu Deus, eu dei em cima do garçom.
— Em japonês formal. — Rafael completou.
Valentina se jogou sentada na beira da cama.
— Eu só queria café…
Rafael se aproximou devagar e parou à frente dela. Com dois dedos, levantou o queixo dela, obrigando-a a olhar para cima.

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